segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sobrenomes

Hoje teremos mais uma adaptação de um post escrito originalmente para o Almanaque BLOGuil, dessa vez o que fala sobre sobrenomes. Não me lembro bem por que decidi escrever sobre sobrenomes, mas convenhamos que é um assunto interessante: todos temos pelo menos um, e nem sempre paramos para pensar sobre por que alguns são nomes de bichos, outros são nomes de árvores, outros são nomes próprios, enfim, parece não haver um padrão, com aparentemente qualquer palavra podendo virar um sobrenome. Mas é claro que não foi bem assim, pois tudo no mundo tem explicação.

Antigamente, quando as cidades eram pequenas e as pessoas eram poucas, ninguém tinha sobrenomes; as pessoas só tinham nomes, pois, mesmo que duas pessoas tivessem o mesmo nome, era fácil distingui-las, já que praticamente todos se conheciam. Conforme as cidades começaram a crescer e as pessoas começaram a se multiplicar, chamar uma pessoa só pelo nome poderia causar alguma confusão, já que nem todo mundo se conhecia pessoalmente. Assim, foram criados os títulos.

Um título nada mais era do que o nome da cidade onde a pessoa nasceu, alguma característica física, ou sua profissão. Assim, ficava fácil distinguir Pedro, o Armeiro, de Pedro, o Padeiro. João, o Manco não era a mesma pessoa que João, o Valoroso. E Antônio, de Coimbra não poderia ser confundido com Antônio, de Lisboa, já que vinham de cidades diferentes. Cada local possuía seus "títulos preferidos": na Alemanha, prevaleciam os títulos de profissão, como Schneider (alfaiate), Wagner (carroceiro) ou Schumacher (sapateiro). Na França, os títulos relacionados a características físicas ou ao local onde a pessoa residia eram os favoritos, como DuPont (da ponte), DuLac (do lago), LeGrand (o grande) ou LeBlanc (o branco). Em Portugal se tornaram comuns os títulos referentes à cidade onde a pessoa havia nascido, com sobrenomes como Lisboa, Porto e Braga denotando que a família em questão tinha suas origens naquela cidade, se tornando conhecida depois em outra.

Durante um tempo, os títulos bastaram para identificar as pessoas, mas, eventualmente, mesmo eles começaram a se tornar insuficientes. Em uma cidade com cinco ferreiros chamados Paulo, de pouco adiantava se referir a alguém como Paulo, o Ferreiro, já que a dúvida sobre de qual deles se estava falando permaneceria. A saída mais simples para esse problema foi adotar um segundo título, que fizesse referência a de quem aquela pessoa era filha - até hoje, em concursos públicos, por exemplo, para se diferenciar dois candidatos que têm o mesmo nome, é usado o nome da mãe, já que será uma coincidência absurda se os nomes das mães de ambos também forem idênticos. Como antigamente o pai era mais importante do que a mãe, optou-se por se criar um segundo título que fizesse referência ao nome do pai, para que Paulo, o Ferreiro, Filho de Pedro pudesse ser diferenciado de Paulo, o Ferreiro, Filho de João. Caso dois dos ferreiros Paulo tivessem pais chamados Pedro, um deles poderia ser Paulo, o Ferreiro, Filho de Pedro, o Armeiro e o outro Paulo, o Ferreiro, Filho de Pedro, o Padeiro.

Eventualmente, essa expressão "filho de" deu origem a um termo que hoje é conhecido como patronímico. Os patronímicos podem ser considerados a primeira coisa inventada mais próxima de um sobrenome, mais até do que os títulos, já que eram, essencialmente, uma palavra criada exclusivamente para identificar uma pessoa. Cada país criaria palavras em seu próprio idioma, mas que não deixassem dúvidas quanto a quem deveria ser referenciado. Assim, na Inglaterra, ao invés de Son of Jack, tínhamos o patronímico Jackson; na Escócia, o filho de Leod era conhecido como MacLeod; e na Irlanda, o filho de Connor era O’Connor.

A maioria destes patronímicos sobrevive até hoje, transformados em sobrenomes. Em inglês, eles podem ser reconhecidos como os sobrenomes que terminam em son, como Johnson (filho de John), Jackson (filho de Jack) ou Peterson (filho de Peter). Na Suécia eles terminam em son ou sen, como Andersson (filho de Anders) ou Larssen (filho de Lars). Nos nomes de origem irlandesa, são os que começam com O’, como O’Connor, O’Ryordan ou O’Brian. Nos nomes de origem escocesa, são os que começam com Mac, como MacDonald, MacIntosh ou MacArthur - e vale citar que a forma abreviada Mc não era utilizada no início, só tendo surgido no século XIX, mas hoje já existem tanto sobrenomes que devem ser escritos com "Mc" quanto com "Mac", com o do ator Matthew McConaughey sendo um exemplo do primeiro tipo, e o da atriz Andie MacDowell sendo um do segundo. Pouca gente sabe, mas os nomes que terminam em es, em português, ou ez em espanhol, também são patronímicos; desta forma, Álvares é o filho de Álvaro; Rodrigues é o filho de Rodrigo; e Fernandes é o filho de Fernando.

É importante notar que, quando os patronímicos viraram sobrenomes "verdadeiros", eles deixaram de ter sua função primordial; em outras palavras, o falecido cantor Michael Jackson não tinha esse nome porque seu pai se chama Jack (na verdade, se chama Joe), e sim porque, tendo Jackson virado um sobrenome, passou a ser transmitido de pai para filho. Em alguns países, porém, os patronímicos continuam tendo a função que sempre tiveram, de identificar o nome do pai da pessoa; o exemplo mais famoso hoje é a Rússia (embora patronímicos ainda sejam usados em praticamente todos os países do Leste Europeu): um nome russo é composto pelo nome escolhido pelos pais, seguido do patronímico e então do nome de família. Assim, Ivan Alexandrovich Petrov possui este nome porque seu pai se chamava Alexander Petrov. Seu filho irá se chamar Mikhail Ivanovich Petrov, e não Alexandrovich. O nome da mãe não influencia em nada no nome dos filhos, mas as mulheres devem ter "patronímico no feminino" - a irmã de Ivan Alexandrovich teria de se chamar Maria Alexandrovna, e não Maria Alexandrovich.

Na Islândia a coisa é até mais complicada, já que, lá, a lei não obriga ninguém a ter um sobrenome - quem quiser pode ter só nome e patronímico. Assim, se Jón Elinarsson tem um casal de filhos, eles se chamarão, por exemplo, Olaf Jónsson e Helga Jónsdóttir - sendo -sson o equivalente a "filho de" e -dóttir o equivalente a "filha de". Como isso pode causar problemas no dia a dia - imagine o casal Jón Elinarsson e Maria Olafsdóttir fazendo uma viagem internacional com sua filha ainda criança Helga Jónsdóttir e tendo de explicar por que cada um tem um sobrenome diferente, e que não se trata de um sequestro - os sobrenomes passaram a ser permitidos em 1925, mas, até hoje, são pouquíssimos islandeses que os adotam (principalmente porque a lei que trata do assunto é bem restritiva quanto aos sobrenomes disponíveis e a forma como eles têm de ser escolhidos, mas isso não vem ao caso).

Assim como os patronímicos da Islândia, os títulos e patronímicos originais não eram transmitidos de pai para filho - o filho de John Jackson não seria Joe Jackson, e sim Joe Johnson; o filho de Helmut Schneider não poderia se chamar Hans Schneider se fosse sapateiro, devendo ser Hans Schumacher; e não faria o menor sentido chamar alguém de José, o Manco, se este andava perfeitamente, só porque seu pai se chamava João, o Manco. Houve um período na história, entretanto, no qual todo mundo passou a achar não somente normal, mas preferível, que o filho de Jean DuLac se chamasse Pierre DuLac mesmo sem haver nenhum lago a quilômetros de distância de onde ele nasceu e morou em toda a sua vida. Esse período foi a Ascensão da Burguesia, e, para compreender porque os burgueses quiseram fazer essa maluquice, precisamos voltar um pouquinho mais atrás, lá no Império Romano.

Embora não existissem sobrenomes na Roma Antiga, o Império possuía um sistema de nomeação de indivíduos chamado tria nomina, no qual cada pessoa possuía um prenome, um nome e um cognome (por isso o tria). Basicamente, o prenome era o nome que seus pais escolhiam para você, o nome era o nome do clã ao qual você pertencia, e o cognome era algum título com o qual você pudesse ser identificado; o nome completo do Imperador Júlio César, por exemplo, era Gaius Julius Caesar (ou Caio Júlio César, como é normalmente "traduzido" do latim para o português), sendo Gaius o nome escolhido por seus pais, Julius o nome de seu clã (todos os seus parentes próximos eram Julius) e Caesar uma referência a um de seus ancestrais, que teria ganhado esse apelido ao matar um elefante durante uma batalha contra os mouros (sendo caesai a palavra moura para "elefante").

Esse sistema, porém, pouco fazia para identificar propriamente os indivíduos: o pai e o avô de Júlio César também se chamavam Gaius Julius Caesar, e o nome só não foi passado para uma quarta geração porque seu único filho "oficial" foi uma mulher, a quem ele decidiu chamar de Júlia (seu filho bastardo com Cleópatra receberia da mãe o nome de Cesário, que significava "pequeno César"). Na linhagem do Imperador Vespasiano, entretanto, o nascimento de vários homens deu origem a uma verdadeira confusão: Vespasiano se chamava Titus Flavius Vespasianus, era filho de Titus Flavius Sabinus e neto de Titus Flavius Petro. Seu irmão mais velho também se chamava Titus Flavius Sabinus, e o irmão mais velho de seu pai se chamava, adivinhem, Titus Flavius Petro. O sobrinho de Vespasiano também se chamava Titus Flavius Sabinus, assim como seu sobrinho-neto mais velho, com o sobrinho-neto mais novo se chamando Titus Flavius Clemens. Já o filho mais velho de Vespasiano também se chamava Titus Flavius Vespasianus, e seu filho mais novo era Titus Flavius Domitianus (porque a esposa de Vespasiano se chamava Flavia Domitilla). Ou seja, em apenas cinco gerações, temos dez Titus Flavius, sendo quatro Titus Flavius Sabinus, dois Titus Flavius Petro e dois Titus Flavius Vespasianus.

A maior prova de que esse sistema não era lá essas coisas foi que seu uso foi se reduzindo dentre a plebe com o tempo, e, após a queda do Império Romano, ele foi abandonado. Ou quase. Com a ascensão das monarquias europeias, a nobreza resolveu inventar uma coisa parecida com o tria nomina, conhecida hoje como Títulos de Nobreza. Basicamente, se você era um nobre, e não era o Rei nem a Rainha, tinha um título, que poderia ser (em ordem de importância) de Barão, Conde, Marquês ou Duque, sendo Duque o mais importante (e por isso o Brasil só teve um, o Duque de Caxias). Alguns países tinham (ou até mesmo ainda têm) títulos intermediários, como o Visconde, usado, dentre outros lugares, na Inglaterra e no Brasil, cujo nome vem de "vice-conde", sendo menos importante, portanto, que o Conde (mas mais importante que o Barão). Um Título de Nobreza trazia vários privilégios a seu detentor, e, quanto mais alto o título, mais privilégios (com um Marquês tendo mais privilégios que um Conde, por exemplo). Ao receber um Título de Nobreza, o indivíduo abandonava seu nome original, passando a ser conhecido apenas pelo Título, que fazia referência a uma cidade, local ou região na qual aquela família era influente, ou a alguma característica daquela família. O Duque de Buckingham, o Barão do Rio Branco, o Marquês de Sade e o Conde Drácula, portanto, não foram batizados com esses nomes, passando a usá-los apenas após receber seus respectivos Títulos.

A similaridade entre os Títulos de Nobreza e o tria nomina vinha do fato de que os Títulos de Nobreza eram hereditários. O filho do primeiro Marquês de Pombal, portanto, seria o segundo Marquês de Pombal, seu neto seria o terceiro, e assim sucessivamente. O primeiro Marquês de Pombal, aliás, foi Sebastião José de Carvalho e Melo, que recebeu esse título em 1759, e o atual é Manuel Sebastião de Almeida de Carvalho Daun e Lorena, o nono Marquês de Pombal, nascido em 1930. Quando ele falecer, seu filho mais velho, Sebastião José de Carvalho Daun e Lorena, passará a ser o décimo Marquês de Pombal.

Pois bem, durante os séculos XI e XII, um grupo de plebeus (ou seja, de pessoas que não faziam parte da nobreza) começou a ganhar muito dinheiro, principalmente com o comércio, o que lhes proporcionou uma vida de conforto, quase equivalente à vida dos nobres, e totalmente diferente da vida de subserviência e trabalho até morrer da plebe em geral. Esses emergentes ficariam conhecidos como burgueses, pois tiveram sua origem nos burgos, as cidades muradas da época, e o período no qual eles começaram a crescer em importância dentro dessas cidades, se tornando o principal poder econômico e suplantando os nobres no controle da plebe, se chamaria Ascensão da Burguesia.

No fundo, os burgueses queriam ser nobres, com todos os privilégios, luxos e prazeres que o dinheiro pudesse comprar, e, para isso, começaram a imitar a nobreza em praticamente tudo: casas enormes, festas caras, peles de animais exóticos etc. Como os Reis e Rainhas jamais os confeririam Títulos de Nobreza, eles passariam a usar seus próprios títulos como se de nobreza fossem, e acabariam inventando os sobrenomes. Assim, um alfaiate chamado James Taylor (taylor, em inglês, significa "alfaiate"), ao ascender economicamente, colocaria o nome de seu filho também de James Taylor - não importa que ele jamais fosse ser alfaiate na vida (embora, como os negócios eram passados de pai para filho, provavelmente seria), o que importava era que, assim como o filho do Barão de Montesquieu era o Barão de Montesquieu, o filho de James Taylor seria James Taylor.

No final da Renascença, com a distância entre diferentes classes sociais estreitada - um burguês podia ser vizinho de um trabalhador braçal, diferentemente do que ocorria no feudalismo, quando os mais ricos moravam em castelos e os mais pobres em vilas a quilômetros de distância - a plebe começaria a copiar diversos hábitos da burguesia. Por algum motivo que ninguém sabe explicar, porém, eles fizeram isso meio errado: se Pierre DuPont tivesse um casal de filhos, ele colocaria Marc DuPont e Lucille DuPont, ao invés de simplesmente Pierre DuPont. Com isso, começariam a surgir os nomes de família, com cada grupo de indivíduos ligado pelo parentesco compartilhando um mesmo sobrenome - o que viria a calhar, já que a população das cidades aumentava cada vez mais rapidamente, sendo cada vez mais difícil identificar todo mundo apenas por títulos e patronímicos.

É interessante registrar que somente nessa época é que as mulheres ganharam, efetivamente, o direito a sobrenomes. Como não trabalhavam e tinham pouco contato com quem não fosse seu marido e seus filhos, as mulheres não precisavam de títulos e patronímicos. Nem mesmo o tria nomina se aplicava a mulheres, com a maioria delas tendo apenas prenome (como Júlia, a filha de Júlio César) ou apenas prenome e nome (como Aurelia Cotta, mãe de Júlio César); e os títulos de nobreza só costumavam ser conferidos a mulheres por casamento, não sendo hereditários como os dos homens. Quando a plebe começou a transmitir seus nomes de família, entretanto, começou a transmiti-los para homens e mulheres - embora as mulheres ainda tivessem de "trocá-lo" ao se casar, já que, efetivamente, estavam passando a fazer parte de uma nova família.

Com o tempo, sobrenomes passaram a se tornar uma parte comum do dia a dia, e cada país começou a adotar diferentes normas e costumes para seu uso. Em Portugal, o costume, que também foi adotado no Brasil, foi o de que cada pessoa teria dois sobrenomes, sendo o nome do meio o da família da mãe, e o último nome o da família do pai. Na Espanha essa convenção também foi adotada, mas ao contrário: o nome do meio é o da família do pai, e o último nome é o da família da mãe. A convenção espanhola também é usada hoje em muitos países da América Latina, como Peru e Colômbia - no nome da cantora Shakira, por exemplo, Shakira Isabel Mebarak Ripoll, Mebarak é o sobrenome de seu pai, e Ripoll é o de sua mãe. Já nos Estados Unidos ficou definido que apenas o nome da família do pai é transferido para os filhos, mas lá todo mundo tem dois nomes próprios, sendo um "principal" e um nome do meio - o ator Bruce Willis, por exemplo, se chama Walter Bruce Willis, sendo Walter seu primeiro nome, Bruce (também escolhido por seus pais) seu nome do meio, e Willis o nome da família de seu pai.

Com o passar do tempo, algumas mudanças nessas convenções foram sendo adotadas, como a permissão para que uma pessoa tivesse mais de dois sobrenomes - como o jornalista Zeca Camargo, que, na verdade, se chama José Carlos Brito de Ávila Camargo, tendo três sobrenomes - ou até mesmo mais de dois nomes - como a atriz Meg Ryan, que se chama Margaret Mary Emily Anne Hyra, sendo Hyra seu único sobrenome. Antigamente, também era lei que as mulheres, ao se casarem, deveriam usar o sobrenome da família de seu pai combinado ao do pai de seu marido; atualmente, essas leis têm sido relaxadas em diversos países - no Brasil, por exemplo, a mulher pode deixar qualquer um dos seus sobrenomes, adotar qualquer dos sobrenomes do marido, ou até mesmo manter seu nome original, e é até possível o marido adotar um dos sobrenomes da mulher se isso for conveniente para o casal.

Na Rússia e em vários países do leste europeu, como já foi dito, é usado um sistema de nome seguido do patronímico e então do nome de família; eu já disse que o patronímico vai para o feminino no caso das mulheres, então agora eu vou revelar que o sobrenome também vai. Isso mesmo, no caso do exemplo anterior, a irmã de Ivan Alexandrovich Petrov seria Maria Alexandrovna Petrova - a Viúva Negra da Marvel, que se chama Natasha Romanoff, está com o nome errado, pois deveria ser Natasha Romanova, o mesmo valendo para Illyana Rasputin, irmã do X-Men Colossus, que deveria ser Illyana Rasputina. Para citar algumas celebridades, o pai de Maria Sharapova se chama Yuri Sharapov (sendo seu nome completo, portanto, Maria Yurievna Sharapova), e a esposa de Mikhail Gorbachev se chamava Raissa Gorbacheva. A mesma regra dos sobrenomes femininos russos é usada em países onde a Rússia teve influência, como Bulgária, Sérvia e República Tcheca.

Esse sistema foi "emprestado" dos gregos, pois, na Grécia, alguns sobrenomes possuem feminino, como os terminados em -poulos; a irmã de um homem chamado Kristoferos Papadopoulos, por exemplo, se chamaria Agatha Papadopoulou. Na Polônia acontece algo semelhante, com a filha de Pavel Podwinksi sendo Sonja Podwinska. Já na Lituânia a coisa é ainda mais complicada: a esposa de um homem chamado Lukas Vilkas seria Irena Vilkiene, mas sua filha seria Janina Vilkaite - pois a esposa usaria o feminino, enquanto a filha usaria uma espécie de patronímico feminino ligado ao sobrenome do pai ao invés de a seu nome.

É claro que essa história toda dos sobrenomes só faz sentido para os sobrenomes ocidentais. No Oriente, que, há até bem pouco tempo era isolado da Civilização Ocidental, tudo se desenvolveu de forma diferente. No Japão, por exemplo, as famílias era organizadas em clãs, cujos nomes tinham origem ancestral, e normalmente representavam elementos da natureza ou características físicas nas quais os membros daquele clã se excediam. O nome de uma pessoa era composto pelo nome escolhido pelos pais mais o nome do clã (sendo que, até hoje, o nome do clã, agora sobrenome, vem primeiro); assim, todos os membros do clã Yoshito, por exemplo, tinham o "sobrenome" Yoshito. Quando uma mulher solteira se casava, abandonava seu nome de clã e adotava o do marido. Assim, a srta. Tsubasa Ariko, ao se casar com o sr. Yoshito Yuma, se tornava Yoshito Ariko. Até hoje este sistema é utilizado, embora, evidentemente, as famílias não se organizem mais em clãs, e, graças a ele, é muito difícil duas pessoas no Japão terem o mesmo sobrenome e não serem parentes.

Um sistema semelhante era usado na Coreia, mas lá, ao invés de um nome do clã, o "sobrenome" era o nome do feudo ao qual a família pertencia - o que acabou criando um efeito contrário ao do Japão, ou seja, centenas de pessoas com o mesmo sobrenome mas nenhum parentesco. Segundo o último recenseamento, uma em cada cinco pessoas na Coreia do Sul tem o sobrenome Kim, uma em cada sete tem o sobrenome Lee, e uma em cada dez tem o sobrenome Park - pois os feudos controlados pelos Kim, Lee e Park eram os mais numerosos. Em países como China, Vietnã e Camboja, assim como em partes da Índia, as famílias também tinham o nome do clã, embora fosse comum clãs com nomes repetidos, o que também resultava em pessoas com o mesmo sobrenome sem serem parentes - estima-se que 85% da (enorme) população da China use apenas 100 sobrenomes, sendo os mais comuns Wang, Zhang e Li.

Fora da Ásia, o sistema de "sobrenome do clã" era usado na Hungria e em Madagascar. Curiosamente, em todos os países que usavam os nomes do clã, o costume até hoje é o sobrenome vir primeiro - como no caso da cantora húngara Király Linda, cujo nome é Linda e sobrenome é Király. Normalmente, entretanto, é comum que a ordem seja revertida quando esses nomes são usados em países nos quais os sobrenomes venham por último, para que fique claro qual é o nome e qual é o sobrenome - assim, a atleta húngara Hosszú Katinka, durante as Olimpíadas, vira Katinka Hosszú, e a atriz chinesa Zhang Ziyi é creditada em seus filmes norte-americanos como Ziyi Zhang.

Em partes da Índia e no Sri Lanka, é usado um sistema que combina sobrenome e patronímico: o nome do pai da cantora cingalesa M.I.A. é Arul Pragasam, então o nome dela é Mathangi Arulpragasam, sendo Arulpragasam a combinação do nome e sobrenome de seu pai. E vale comentar também os sobrenomes gigantescos da Tailândia, como o da modelo Lada Engchawadechasilp. Antigamente, havia uma lei na Tailândia que dizia que ninguém podia ter sobrenomes estrangeiros; assim, quando um estrangeiro imigrava para lá, traduzia seu sobrenome para o idioma tailandês. Acontece que os sobrenomes chineses são muito curtos, mas significam coisas compridas - Huihuang, por exemplo, significa "esplendor brilhante" - aí, quando um chinês imigrava para a Tailândia, acabava ficando com um sobrenome bem comprido - "esplendor brilhante" em tailandês é... Engchawadechasilp.

Esses sobrenomes "inventados" também se tornariam parte integrante do sistema. Durante a Inquisição, por exemplo, surigiriam vários novos sobrenomes, principalmente os que fazem referência a coisas da natureza. A Inquisição, comandada pela Igreja Católica, queimava na fogueira todos os que não eram cristãos, como judeus, muçulmanos e ciganos, a menos que estes se convertessem à fé cristã. Assim como até hoje os que se convertem ao islamismo têm de adotar um nome árabe (como o boxeador Cassius Clay, que se tornou Mohammed Ali, ou o cantor Cat Stevens, que virou Yusuf Islam), na época os que se convertiam à fé cristã tinham de adotar um "nome cristão", abandonando seu nome pagão original. Este nome cristão era composto de um nome de uso comum na região, acompanhado de um sobrenome ligado à natureza, que poderia ser o nome de uma árvore (Oliveira, Pereira, Carvalho), um animal (Vieira, Cordeiro, Pinto) ou um acidente geográfico (Ribeiro, Montes, Neves). Estes sobrenomes são mais comuns nos idiomas latinos (português, espanhol, francês e italiano), e raros em outros idiomas. Vale citar, porém, que nem todo "sobrenome da natureza" veio com a inquisição: em inglês existe o sobrenome Wolf ("lobo"), provavelmente dado a alguém que tivesse feições parecidas com as de um lobo, ou que fosse agressivo como um; da mesma forma, em alemão há o sobrenome Bach ("riacho"), que pode ter surgido porque uma pessoa era conhecida por morar próximo a um riacho.

Foi nos países colonizados que os sobrenomes inventados mais se proliferaram: como neles chegavam muitas pessoas deportadas, exiladas, ou imigrantes de sobrenome indecifrável, acabavam surgindo sobrenomes criados pela pessoa no momento em que alguém lhe perguntava seu sobrenome, ou pelo oficial de registro por considerar que o sobrenome da pessoa não era "apropriado" - dizem que o famoso "da Silva" surgiu assim, usado pelos oficiais de registro toda vez que eles não compreendiam o sobrenome original da pessoa. Muitas vezes um exilado ou deportado tinha medo de revelar seu sobrenome e sofrer alguma sanção, passando a adotar o sobrenome de um amigo ou conhecido. Dessa forma, muitas famílias ganhavam um novo parente de uma hora para outra.

Acreditem ou não, antigamente também era prática comum no Brasil "homenagear" amigos ou parentes colocando seus sobrenomes nos filhos. Assim, o filho de João Pereira e Maria Araújo poderia ser registrado como José Dias Pereira (ao invés de Araújo Pereira), só porque um grande amigo de infância da família se chamava Pedro Dias. Hoje em dia isto não é permitido, mas alguns abusos ainda acontecem, como pessoas que colocam nomes de celebridades em seus filhos. Michael Jackson Soares não pertence à família Jackson, mas se ele quiser colocar o nome de seu filho de Paulo Jackson Soares, quem vai dizer que este Jackson não é um sobrenome?

A se somar a tudo isso, ainda tivemos um outro problema, chamado escravidão. Nos Estados Unidos, quando os escravos foram libertados, eles ganharam o direito a escolher um novo sobrenome, já que a maioria não tinha nenhum. Alguns escolheram nomes como Brown ("marrom") ou Black ("preto") para refletir o orgulho que tinham por sua cor; outros quiseram sobrenomes mais poderosos, como King ("rei") ou Armstrong ("braço forte"). No Brasil, por outro lado, ao se libertar os escravos, foi garantido a estes o direito ao sobrenome de seu senhor. Assim, se o Sr. Oliveira tinha três mil escravos na época da abolição, ganhou três mil novos parentes assim que os escravos foram libertados. Esta é uma das razões pelas quais sobrenomes como Souza, Santos, Araújo e Oliveira são tão comuns em nosso país.

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