Tank Girl

Na década de 1990, houve um boom das revistas em quadrinhos, que vendiam como água, o que possibilitou o lançamento de vários novos títulos e o surgimento de várias novas editoras. Querendo pegar uma carona nesse sucesso, os estúdios de cinema começaram a negociar com as editoras de quadrinhos a adaptação de vários de seus personagens para a tela grande. E essa negociação não foi feita apenas com as gigantes DC e Marvel ou com a sensação do momento Image, mas também com todas as demais, não importando o que elas publicassem. Foi nessa onda que surgiram, por exemplo, um filme do Juiz Dredd estrelado por Sylvester Stallone, que, aqui no Brasil, teve seu título "traduzido" para apenas O Juiz; um filme do Timecop, estrelado por Jean Claude Van Damme, que eu aposto que poucos de vocês sabiam que era adaptação de uma história em quadrinhos; e um filme da Barb Wire estrelado pela Pamela Anderson, que estava fazendo um imenso sucesso na série Baywatch (também conhecida por aqui como SOS Malibu), então era meio óbvio que alguém fosse querer colocá-la em um filme qualquer para que as pessoas fossem vê-la independentemente do enredo ou do assunto.

Em comum, os filmes baseados em quadrinhos da década de 1990 tinham uma característica fundamental: eram todos muito ruins. Se, digamos, em 1997, você dissesse a um executivo do cinema que, em menos de vinte anos, os filmes de super-heróis seriam responsáveis pelas maiores bilheterias da história, ele riria da sua cara e chamaria a segurança. Barb Wire era inassistível. Rocketeer era uma afronta. Spawn: O Soldado do Inferno era uma aberração da natureza. Batman & Robin dispensa comentários. Os únicos que se salvam, na minha opinião, são Men in Black: Homens de Preto, que não conta, pois é de comédia e não de ação (o mesmo vale para O Máskara, que não é tão bom, mas também não é ruim) e o primeiro do Blade, embora se possa argumentar que, mesmo tendo sido lançado em 1998, ele já faça parte da leva dos anos 2000, pois tem muito mais características em comum com os filmes imediatamente posteriores a ele do que com os imediatamente anteriores.

Ainda assim, mesmo nenhum deles sendo verdadeiramente bom, é possível gostar de alguns, por diversos motivos. Eu gosto, por exemplo, de O Juiz, por três motivos: nostalgia, Stallone e Diane Lane. Também por três motivos, sendo um deles a nostalgia, eu gosto bastante de Tank Girl. Os outros dois motivos são os Saqueadores, um trabalho de maquiagem sensacional para a época, e a trilha sonora, que tem Belly, Veruca Salt, Hole, Bush, Björk, a música mais sensacional já gravada pelo Portishead, e uma versão fantástica de Joan Jett e Paul Westerberg para Let's Do It, de Cole Porter. Eu gostei tanto dessa trilha depois de assistir o filme que comprei o CD, e hoje quase todas as suas faixas estão gravadas no meu MP3. Ao ouvir essa da Joan Jett essa semana, fiquei com vontade de escrever sobre Tank Girl aqui pro átomo. E aqui estamos.


Nos quadrinhos, Tank Girl foi uma criação dos ingleses Jamie Hewlett e Alan Martin, que se conheceram em 1986, quando ambos eram universitários e Martin fazia parte de uma banda chamada The University Smalls, cuja principal música se chamava Rocket Girl, e havia sido escrita em homenagem a uma garota pela qual o vocalista da banda, Phillip Bond (que depois também se tornaria desenhista de quadrinhos), era apaixonado, a qual Martin achava que se parecia com uma das personagens da revista em quadrinhos Love and Rockets, por isso o apelido. Pouco tempo após se conhecerem, Martin e Hewlett começaram a fazer juntos um fanzine chamado Atomtan. Um dia, enquanto procuravam novas ideias, decidiram visitar um amigo em comum, que estava trabalhando como designer, e tentando criar um par de fones de ouvido que se parecesse com os usados pelos pilotos de tanques da Segunda Guerra Mundial. A casa desse amigo estava cheia de fotos de armas e veículos dessa época, e, enquanto esperavam para falar com ele, Martin e Hewlett se recordavam da música Rocket Girl, enquanto Hewlett rabiscava alguns rascunhos. Ele acabaria desenhando uma garota parecida com a de Love and Rockets, mas careca, seminua, e segurando uma arma gigantesca. Ao ver a ilustração, Martin acharia graça, e diria que estava faltando alguma coisa, entregando a Hewlett uma foto de um tanque. Hewlett desenharia a mesma garota sobre o tanque, e incluiria um logotipo no qual se lia "Tank Girl".

A dupla gostou tanto da ilustração que a publicou, como se fosse um anúncio, em uma das edições do Atomtan. Pouco tempo depois, eles seriam convidados para fazer parte da equipe da revista Deadline, uma nova publicação criada por Brett Ewins e Steve Dillon, desenhistas da famosa revista 2000 AD (na qual eram publicadas as histórias do Juiz Dredd), destinada a revelar novos talentos dos quadrinhos britânicos. Evidentemente, Martin e Hewlett decidiram que suas histórias seriam estreladas pela Tank Girl.

Os quadrinhos de Tank Girl eram, digamos, transgressores. A moça do título se vestia parcamente, estando quase sempre nua ou seminua, carregava armas gigantescas, morava em um tanque e era bissexual. Rapidamente, ela se tornaria um ícone da contracultura, e começaria a aparecer em pôsteres, camisetas, e até mesmo em roupas íntimas. Seus principais fãs eram os punks, que a consideravam um retrato do empoderamento feminino, e a comunidade LGBT, que chegou a usá-la como símbolo em uma passeata contra uma lei proposta pela então primeira-ministra Margaret Thatcher que proibia a abordagem de qualquer assunto que envolvesse homossexualidade em escolas e por agentes do governo.

A popularidade da personagem cresceu tão rapidamente que a Penguin Books, maior editora do Reino Unido, procurou a dupla e lhes ofereceu um contrato para que as histórias de Tank Girl fossem republicadas no formato de álbuns - "livros em quadrinhos", o formato preferencial de publicação de quadrinhos na Europa, diferentemente das revistas em quadrinhos vendidas em bancas dos Estados Unidos. Ao todo, três álbuns seriam publicados, todos no ano de 1989, trazendo todas as histórias que Martin e Hewlett haviam criado para a personagem, a maioria em preto e branco, mas algumas a cores. Os três álbuns teriam excelentes vendas, e acabariam traduzidos e publicados pela Penguin também na Espanha, Itália, Alemanha Ocidental, Escandinávia, Japão, Argentina e Brasil - embora não tenham chamado muita atenção, na época, por aqui.

Tank Girl era ambientado na Austrália (embora trouxesse toneladas de referências à cultura pop britânica do final dos anos 1980), e em um cenário pós-apocalíptico (embora jamais tenha ficado claro o que causou o apocalipse). Sua protagonista se chama Rebecca Buck, mas ninguém quase nunca se refere a ela pelo nome, de forma que, para todos os efeitos, ela é a Tank Girl - apelido que vem do fato de que ela mora em um tanque, que também é seu principal meio de transporte. Tank Girl é uma caçadora de recompensas, e, antes dos eventos dos quadrinhos, possui um lucrativo contrato com uma agência misteriosa, que pode ser ou não ligada ao governo; após cometer erros graves em duas de suas missões, ela passa a ser caçada pelas autoridades, com uma gorda recompensa sendo oferecida pela sua cabeça - o que não a impede de continuar realizando missões para quem pagar mais. Além de relativamente incompetente no que faz - exceto quando se trata de pilotar o tanque e explodir coisas - Tank Girl é ninfomaníaca, bissexual, dada a atos aleatórios de violência, e está quase sempre bêbada, além de não gostar muito de roupas, só se vestindo quando é absolutamente necessário.

O principal personagem secundário da história é Booga, o namorado de Tank Girl. Booga era um designer de brinquedos até um estranho acidente o transformar em um híbrido de homem e canguru. Pois é. Booga é totalmente devotado a Tank Girl, e não há nada que ela peça que ele não faça de bom grado. Ao longo das histórias, ele tem como colegas três bichos de pelúcia falantes, o coala gay Camp Coala, o rato Squaeky, e Mr. Precocious, que fala em inglês shakespeareano e se parece com um pequeno elefante cor de rosa, sendo, na verdade, um bilby, marsupial nativo da Austrália atualmente em risco de extinção.

Os personagens coadjuvantes incluem Stevie, aborígene dono de uma loja de conveniência ex-namorado de Tank Girl, que costuma arrumar algumas missões para ela, e de quem Booga tem ciúmes; Barney, moça que Tank Girl resgatou de um hospício; e três outras caçadoras de recompensas: Boat Girl, ex-patinadora artística profissional, cujo irmão foi morto por Tank Girl, que atualmente atua como cabeleireira de Barney e realiza missões usando um barco militar da época da Segunda Guerra Mundial; Jet Girl, mecânica talentosa que pilota um jato modificado por ela mesma, mas que é considerada extremamente chata por todos os outros personagens; e Sub Girl, amiga de infância de Tank Girl, melhor amiga de Jet Girl, e que pilota um submarino.

O sucesso dos livros da Penguin na Europa levaria várias editoras de quadrinhos norte-americanas a negociar sua publicação nos Estados Unidos; Martin e Hewlett acabariam fechando contrato com a Dark Horse (de Hellboy), que publicaria todas as histórias de Tank Girl, a cores, em uma minissérie de quatro edições mensais, lançadas entre maio e agosto de 1991. Essas quatro edições seriam reunidas em um encadernado, chamado Tank Girl: The Collection, lançado pela Dark Horse em outubro de 1993.

Até então, essas eram as únicas histórias existentes de Tank Girl - após saírem da Deadline, Martin e Hewlett se envolveriam em outros trabalhos, e não produziriam mais material inédito da personagem. Pouco após a estreia de Tank Girl na Deadline, entretanto, o editor da revista, Tom Astor, acreditando que a personagem daria um ótimo filme, começaria a tentar conseguir um contrato para levar Tank Girl para a tela do cinema. Ele conseguiria começar uma negociação com o estúdio New Line, que se arrastaria por anos antes de os executivos concluírem que não iria dar certo e engavetar o projeto.

Mas, em 1991, enquanto a New Line estava procurando um diretor, Rachel Talalay ganharia de presente de sua enteada as quatro edições de Tank Girl recém-lançadas pela Dark Horse. Talalay estava dirigindo seu primeiro filme, A Hora do Pesadelo 6: O Pesadelo Final, e sua enteada, fã da personagem, queria convencê-la a se candidatar para dirigir Tank Girl. Ela acabaria gostando da ideia, e, após o fim das filmagens de A Hora do pesadelo 6, entraria em contato com Astor. Após quase um ano sem receber uma resposta definitiva do editor, e ao saber que a New Line havia desistido do projeto, ela já estava se preparando para tentar comprar os direitos diretamente de Martin e Hewlett quando Astor voltou a entrar em contato com ela, dizendo que adoraria que ela dirigisse o filme, mas que eles agora teriam de encontrar um novo estúdio.

Talalay ofereceria o filme para a Amblin e para a Columbia, mas ambos rejeitariam a proposta. A Disney a procuraria se dizendo disposta a produzir o filme, mas aí ela é que rejeitaria, por acreditar que a Casa do Mickey não aceitaria um filme com o nível de violência e as piadas sexuais que ela acreditava serem necessárias para se fazer um filme fiel de Tank Girl. Pouco tempo depois, ela receberia uma proposta da MGM, que acabaria aceitando. Talalay trabalharia junto a Martin e Hewlett para criar o argumento do filme, que teria roteiro escrito por Tedi Sarafian (que, alguns anos mais tarde, escreveria O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas).

Mesmo com a participação de Martin e Hewlett, o filme teria pouquíssimo a ver com as histórias em quadrinhos. Nele, o apocalipse foi causado pela queda de um cometa na Terra, o que acabou com quase toda a água do planeta (de antemão, portanto, já dá para saber que Boat Girl não estaria presente, embora Sub Girl faça uma pequena participação especial, sem ser identificada como tal). A pouca água que ainda resta é controlada pela megacorporação Water & Power (literalmente, "água e poder", embora o nome seja mais no sentido de "água e energia elétrica"), sediada na Austrália e comandada com mão de ferro por Kesslee (Malcolm MacDowell), que planeja controlar todos os depósitos de água do país, alguns ainda controlados por pequenos grupos rebeldes.

De um desses pequenos grupos rebeldes, fazem parte Rebecca (Lori Petty) e a pequena Sam (Stacy Linn Ramsower), que consideram uma à outra como irmãs. Rebecca faz pequenos ataques a postos e carregamentos da Water & Power, e sua base fica sobre um dos últimos poços de água que não pertencem à companhia; um dia, as tropas da Water & Power chegam para clamar também esse poço, destroem a base e acabam levando-as como prisioneiras, separando-as. Condenada a trabalhar como escrava em uma das fábricas da Water & Power, Rebecca se vê perseguida pelo Sargento Small (Don Harvey), mas faz amizade com Jet (Naomi Watts), técnica responsável pela manutenção dos jatos e tanques da companhia, e alvo de investidas do Sargento.

Mas os rebeldes não são a única preocupação da Water & Power: no deserto, vivem criaturas chamadas Saqueadores (Rippers, no original), que frequentemente atacam as instalações da empresa, causando grandes danos. Durante um desses ataques, Rebecca consegue escapar, e convence Jet a fugir com ela, levando um jato e um tanque, para encontrar Sam. As duas acabam sendo capturadas pelos Saqueadores, e descobrem que eles são híbridos de humanos e cangurus, criados para serem os soldados perfeitos, mas abandonados devido ao alto custo do processo, e que pretendem livrar o planeta da Water & Power. Junto com os Saqueadores Deetee (Reg E. Cathey), que ama música e poesia; T-Saint (o rapper Ice-T), sempre desconfiado e mal-humorado; Donner (Scott Coffey), apaixonado por esportes; e Booga (Jeff Cober), que acaba se tornando o namorado de Rebecca, as duas moças planejam um grande ataque à central da Water & Power, que pode livrar o mundo de seu domínio de uma vez por todas.

Um dos pontos altos do filme, como eu já disse, é a maquiagem dos Saqueadores, criada por Stan Winston, que trabalhou nas franquias O Exterminador do Futuro, Aliens e Jurassic Park. Quando a MGM perguntou a Talalay quem ela gostaria que fosse o responsável pela maquiagem, ela respondeu que Winston era o melhor; ela não acreditava, porém, que ele fosse responder ao contato do estúdio, e, quando ele respondeu, não acreditava que ele fosse aceitar fazer o filme, porque o orçamento era baixo e seu preço era alto. Winston, entretanto, ficaria empolgadíssimo com o projeto, e aceitaria cobrar a metade de seu preço normal, dizendo que os Saqueadores eram os melhores personagens nos quais ele já havia tido a oportunidade de trabalhar. Ao todo, oito saqueadores participam do filme, sendo os quatro já citados os principais, com falas e participação ativa, e os outros quatro, interpretados por dublês profissionais, fazendo apenas figuração e cenas perigosas. Todos os efeitos dos Saqueadores foram produzidos aplicando maquiagem e próteses aos próprios atores, sem o uso de animatronics ou de efeitos digitais; a maquiagem demorava quatro horas para ser aplicada, e contava com orelhas e rabo que podiam ser movidos por controle remoto, e com focinhos que se moviam de acordo com a boca nos quatro principais, mas eram fixos, e também podiam ser movidos por controle remoto, nos coadjuvantes. É importante notar que a aparência dos Saqueadores no filme é bem diferente da de Booga nos quadrinhos, onde ele é bem mais canguru que humano; isso ocorreria porque Talalay queria que as expressões faciais dos atores pudessem ser reconhecidas mesmo com a maquiagem, e pediria a Hewlett para redesenhar Booga para que ele ficasse mais parecido com um homem que com um canguru, modelo que então foi usado pela equipe de produção do filme.

O romance entre Tank Girl e Booga também teve de ser bastante amenizado para o filme, já que a MGM não aceitou que fosse mostrado abertamente um relacionamento entre uma mulher e um canguru mutante. Além de Booga entrar já tarde no filme, o romance acabou sendo apenas sugerido, e em somente uma cena, na qual Booga e Rebecca aparecem deitados em uma cama, realmente remetendo a um relacionamento romântico. Originalmente, essa cena teria Rebecca e Booga totalmente nus (cobertos apenas pelo famoso "lençol de filme", que cobre a mulher das clavículas até as coxas, mas o homem só da cintura para baixo), e uma roupa completa de "Saqueador pelado", incluindo um pênis de látex, foi fabricada. A cena até chegou a ser filmada assim, mas a MGM se recusou a lançar o filme com ela, e, não querendo cortá-la, Talalay a refilmou, com Rebecca de sutiã e calcinha e Booga totalmente vestido. É possível encontrar, porém, algumas fotos da produção que mostram o casal na cama usando apenas o lençol (embora não dê para ver o pênis, se é o que vocês estão querendo).

Essa não seria a única cena cortada por decisão da MGM: segundo Talalay, quase uma hora de filme ficou na sala de edição, porque o estúdio não concordou com o que ela havia filmado. Os principais destaques são uma abertura alternativa, que mostra o cometa se chocando com a Terra e uma Rebecca criança sobrevivendo ao impacto; quase toda a cena na qual Kesslee tortura Rebecca, da qual apenas uma pequena parte permaneceu no filme; e um final alternativo, no qual começa a chover (algo que não acontecia desde a queda do cometa), com o filme terminando com um gigantesco arroto de Tank Girl. O final que foi mantido no filme, aliás, é uma sequência de animação, apenas com as vozes dos atores. Essa não é a única sequência de animação do filme, com outra sendo exibida quando Rebecca e Jet fogem da Water & Power; o motivo pela qual elas foram incluídas é que o dinheiro acabou, e não seria possível produzir os efeitos especiais necessários caso elas fossem filmadas - ao invés de reescrevê-las, Talalay aceitaria a sugestão da MGM de fazê-las animadas. As cenas animadas foram desenhadas por Hewlett, e dirigidas por Steve Evangelatos.

Quando a trilha sonora estava sendo montada, Talalay e a MGM receberiam vários contatos de músicos querendo fazer pequenas participações no filme, mas recusariam com medo de essas participações chamarem mais atenção que o elenco original. No fim, eles acabariam aceitando apenas duas: Iggy Pop no papel de um homem misterioso chamado Rat Face, e Björk no papel de Sub Girl; pouco antes das filmagens, porém, Björk acabaria desistindo, e seria substituída pela atriz Ann Cusack.

Lançado em 31 de março de 1995, com orçamento de 25 milhões de dólares, o filme renderia pouco mais de 4 milhões nos Estados Unidos, e pouco mais de 6 milhões se for levada em conta a bilheteria internacional, o que fez com que ele fosse considerado um gigantesco fracasso de público. O filme também fracassaria dentre a crítica, que o consideraria amador, acelerado demais e com uma história muito fraca, embora as interpretações de Petty e McDowell tenham sido ocasionalmente elogiadas. O filme entraria para a história como um fiasco, e hoje costuma ser considerado um dos piores filmes já feitos - o que é um tremendo exagero não somente na minha opinião, mas na de um pequeno grupo que o transformou em cult.

Curiosamente, Tank Girl também costuma ser considerado um filme "verdadeiramente feminista", devido ao comportamento empoderado de Rebeca em oposição ao de outras protagonistas de filmes vistos como feministas, mas que muitas vezes possuem apenas uma aparência de empoderamento, enquanto no fundo somente reproduzem o comportamento considerado socialmente aceito para as mulheres. A ressalva das feministas - e de muitos fãs dos quadrinhos - é a necessidade de o filme estabelecer Rebeca como uma heroína tradicional, que quer salvar sua irmãzinha e se vingar dos vilões pela maldade que cometeram com ela (e acaba encontrando uma amiga e um amor ao fazê-lo), ao invés de permitir que ela seja apenas uma mercenária em busca de ganhos como nos quadrinhos.

Além de ganhar o ódio do público e da crítica, o filme também ficaria mal dentre a equipe de produção. Talalay não gostou do resultado final, principalmente devido à interferência da MGM; Martin e Hewlett o consideraram "uma experiência ruim" e "um ponto baixo em suas carreiras"; Watts hoje diz se envergonhar de ter participado dele; e Petty chegou a declarar que talvez ele tenha prejudicado sua carreira - embora, anos mais tarde, ela tenha declarado ser feliz por ter interpretado a personagem. Os únicos que parecem ter verdadeiramente gostado de participar do filme foram Winston, que até hoje tem uma roupa completa de Saqueador (talvez a que tem o pênis) em exposição em sua casa; e McDowell, que já declarou em várias entrevistas ter se divertido muito durante as gravações, e já elogiou repetidas vezes Talalay e Petty - McDowell, aliás, foi sugerido para o papel por Astor, que não acreditou que ele realmente fosse aceitar; como uma forma de agradecimento, ele sugeriria que o filme trouxesse uma referência a Laranja Mecânica, mais famoso filme da carreira do ator, que Talalay criou ao vestir Rebeca com uma roupa semelhante à do personagem Alex DeLarge na cena em que ela fica de guarda durante a noite na base rebelde.

O filme ganharia uma versão em quadrinhos, escrita por Peter Milligan e com arte de Andy Pritchett, lançada pela Penguin no Reino Unido três dias antes da estreia. Graças ao fracasso, porém, essa versão jamais seria lançada nos Estados Unidos, embora tenha sido lançada na Alemanha, Escandinávia e Japão.

Durante a produção do filme, Hewlett decidiria criar mais um álbum de Tank Girl; Martin não se mostrou interessado, e o roteiro acabou ficando a cargo de Milligan. Chamado Tank Girl: The Odyssey, ele seria lançado no Reino Unido, pela Penguin, em maio de 1995, e nos Estados Unidos, pela DC, através de seu selo Vertigo, na forma de uma nova minissérie em quatro edições mensais, lançadas entre junho e outubro de 1995. Nessa história, Barney enlouquece de vez e mata todos os personagens, menos Tank Girl, que se vê envolvida em uma viagem ao além para trazê-los de volta.

Após o lançamento de The Odyssey, Hewlett se juntaria a Damon Albarn, o vocalista do Blur, de quem é amigo de longa data (os membros do Blur chegaram até a participar de uma das histórias de Tank Girl) no projeto Gorillaz, sendo responsável pela aparência dos "membros da banda". Martin decidiria voltar a ser músico, e participaria de várias bandas, sem nunca conseguir o sucesso.

Uma segunda minissérie em quatro edições seria lançada pela DC, mais uma vez através do selo Vertigo, entre novembro de 1995 e fevereiro de 1996, chamada Tank Girl: Apocalypse!. Com o afastamento dos criadores da personagem, entretanto, o roteiro ficaria a cargo de Alan Grant, amigo de ambos, e a arte com Pritchett, Bond e Phil Gascoine. Após descobrir que está grávida de Booga, Tank Girl é convidada para uma superfesta - durante a qual descobre que a mesma é armação de um culto que planeja detonar mais um apocalipse, sendo que esse destruirá o planeta de vez.

No início da década de 2000, ocorreria uma súbita renovação de interesse pela Tank Girl. A editora norte-americana Titan Books compraria os direitos de publicação da personagem na América e relançaria seus quatro álbuns, na forma como foram originalmente lançados pela Penguin, em 2002, além de um encadernado de capa dura de Apocalypse! em 2003. As vendas, entretanto, não sairiam como o esperado, e a personagem voltaria a ficar alguns anos desaparecida.

O retorno de Tank Girl ocorreria em 2007, quando Martin decidiria voltar a escrever histórias da personagem. Entre maio e agosto daquele ano, a editora norte-americana IDW lançaria uma minissérie em quatro edições, chamada Tank Girl: The Gifting. Ao invés de uma história completa ao longo de toda a minissérie, porém, cada uma das edições trazia entre quatro e seis histórias curtas estreladas por Tank Girl, com arte do australiano Ashley Wood. A IDW publicaria uma nova minissérie em quatro edições, Tank Girl: Visions of Booga, entre maio e setembro de 2008; com roteiro de Martin e arte de Rufus Dayglo, a minissérie contava como Tank Girl e Booga se conheceram, e mostrava sua primeira aventura juntos, ambientada seis anos antes do início da série publicada na Deadline.

Ainda em 2008, Martin decidiria escrever um romance estrelado por Tank Girl, Tank Girl: Armadillo and a Bushel of Other Stories, lançado pela Titan Books, com a capa contando com arte de Hewlett; esse seria o segundo romance estrelado por Tank Girl, com o primeiro tendo sido a novelização do filme, escrita por Martin Miller e lançada em 1996 apenas nos Estados Unidos pela Penguin Books. Também em 2008 seria lançado, pela Titan Books, The Cream of Tank Girl, livro que continha apenas ilustrações feitas por Hewlett para as histórias da personagem, muitas delas inéditas.

Após Visions of Booga, Martin e Dayglo decidiriam formar uma parceria para quinze novas histórias de Tank Girl, que seriam publicadas na Judge Dredd Megazine, da editora Rebellion, entre setembro de 2008 e maio de 2010. Doze dessas histórias seriam lançadas nos Estados Unidos pela Titan Books, acompanhadas de arte inédita e histórias em prosa, na forma de uma minissérie em quatro edições, chamada Tank Girl: Skidmarks, entre novembro de 2009 e fevereiro de 2010; as outras três, também com bônus, seriam lançadas em uma edição especial, chamada We Hate Tank Girl, em janeiro de 2011. Martin e Dayglo também trabalhariam juntos em uma nova minissérie lançada em quatro edições entre março e junho de 2010 pela IDW, chamada Tank Girl: The Royal Escape, na qual Tank Girl e seus amigos são encurralados em uma cidade hostil, e devem encontrar uma forma de escapar; e em Tank Girl: Bad Wind Rising, minissérie em quatro edições lançada entre janeiro e junho de 2011 pela Titan Books, na qual o romance entre Tank Girl e Booga pode chegar ao fim após um ato impensado da garota.

Depois disso, minisséries de Tank Girl seriam lançadas regularmente pela Titan Books, sempre com roteiros de Martin. Em Tank Girl: Carioca, em três edições lançadas entre outubro de 2011 e janeiro de 2012, com arte de Mike McMahon, Tank Girl planeja se vingar de um ex-ídolo, que a humilhou publicamente em um programa de TV. Everybody Loves Tank Girl, em três edições lançadas entre julho e outubro de 2012, com arte de Jim Mahfood, continha doze novas histórias curtas. E em Solid State Tank Girl, em quatro edições lançadas entre junho e outubro de 2013, com arte de Warwick Johnson-Cadwell, Tank Girl enfrenta sua pior inimiga, a Anti-Tank Girl. Além dessas minisséries, a Titan Books lançaria dois encadernados, The Hole of Tank Girl, de setembro de 2012, que continha os três álbuns originais da personagem mais material bônus, e The Power of Tank Girl, de setembro de 2014, que continha as minisséries The Gifting, Visions of Booga e The Royal Escape.

Em 2015, Hewlett decidiria aceitar um convite de Martin para voltar a desenhar a personagem, e Martin decidiria fazer uma espécie de reboot da Tank Girl, passando a ignorar as histórias anteriores ao escrever as novas. A primeira minissérie desse reboot seria 21st Century Tank Girl (a "Tank Girl do Século XXI"), lançada em três edições pela Titan Books entre julho e agosto de 2015. Além de histórias curtas, cada edição trazia arte inédita, tiras em quadrinhos, mini-pôsteres, e até poemas de autoria de Martin. Além de Hewlett, contribuíram com arte para essa minissérie Bond, Mahfood, Johnson-Cadwell, Jonathan Edwards e Brett Parson.

Depois do reboot, Martin e Parson iniciariam um projeto ambicioso, uma mega-história apresentada em uma trilogia de minisséries, na qual Tank Girl vai cruzar a Austrália para descobrir quem é a imitadora que está sujando seu bom nome. A primeira minissérie da trilogia, chamada Tank Girl: Two Girls, One Tank, foi lançada entre junho e agosto de 2016; a segunda, chamada Tank Girl: Gold, entre setembro de 2016 e março de 2017. Ambas têm quatro edições cada, e foram lançadas pela Titan Books.

A terceira e última minissérie, por enquanto, só tem uma edição lançada, em maio de 2017, e se chama World War Tank Girl, porque Tank Girl planeja, por qualquer motivo, usar uma tecnologia experimental de viagem no tempo para retornar até a época da Segunda Guerra Mundial e lutar contra o Terceiro Reich. Depois de tudo o que ela já aprontou, nem sei se isso é tão estranho assim.
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Sentai (XIX)

Já se passaram dois anos desde que eu fiz meu último post sobre os Sentai. O que significa que a Toei já produziu duas novas séries. O que significa que já está na hora de escrever mais um. O que significa que hoje, mais uma vez, é dia de Sentai no átomo!

Shuriken Sentai Ninninger
2015


Confesso que eu estava esperando ansiosamente pelo dia de hoje chegar, porque o esquadrão shuriken dos patrulheiros ninja (o primeiro "nin" de "Ninninger" não significa nada, é só num jogo de palavras), apesar do tema já pra lá de batido (outro esquadrão ninja), foi um dos que eu achei mais divertidos. Sua história começa há 444 anos, quando o maligno senhor feudal Gengetsu Kibaoni planejou matar o Imperador e controlar todo o Japão, mas foi derrotado pelo clã ninja Igasaki. Para se vingar dessa derrota, Kibaoni venderia sua alma, se tornando um youkai (uma espécie de fantasma maligno do folclore japonês), e usaria seus novos poderes para erradicar os Igasaki da face da Terra. O último deles, Yoshitaka Igasaki, porém, conseguiria derrotá-lo, aprisionando-o em um selo místico. Depois do evento, Yoshitaka se casaria, e incumbiria todos os seus descendentes de proteger o selo, para evitar o retorno de Kibaoni.

Três gerações se passariam, até que um misterioso homem chamado Kyuemon Izayoi conseguiria romper o selo sem o conhecimento dos Igasaki, libertando Kibaoni. Ao perceber a ameaça que mais uma vez pairava sobre o Japão, Tsumuji Igasaki, descendente de Yoshitaka e atual guardião dos tesouros do clã, decidiria reunir uma equipe de cinco jovens, todos eles com o sangue dos Igasaki correndo em suas veias - sendo dois deles seus próprios filhos, e os demais, seus sobrinhos - para formar o esquadrão Ninninger, que usaria os tesouros do clã para derrotar Kibaoni mais uma vez.

Os cinco Ninningers são AkaNinger (vermelho, filho mais velho de Tsumuji), AoNinger (azul), KiNinger (amarelo), ShiroNinger (branca, filha mais nova de Tsumuji) e MomoNinger (rosa). Como parte dos tesouros do clã, cada um deles recebeu um Ninja Ichibantou (a "espada ninja número um", nome que parece mais um slogan), o "dispositivo de transformação" da vez, que, ao ser combinado com uma Nin-Shuriken, libera uma energia mística capaz de ampliar sua força, agilidade e resistência. Cada Ninninger tem sua própria Nin-Shuriken, e por isso as cores de seus uniformes e os poderes que eles recebem ao se transformar são diferentes. Quando estão transformados, os Ninningers também podem usar a Ichibantou como uma espada normal, sendo ela sua principal arma; sua arma secundária é a Karakuri Hengen, um shuriken gigante que possui três formas: espada (uma lâmina sai de uma das pontas do shuriken), arco (duas hastes saem de duas das pontas do shuriken, dispara flechas de energia) e "garra" (dois espetos saem de duas das pontas do shuriken, usado para ataques corpo a corpo), além de poder ser arremessado como um shuriken normal. Para destruir os monstros da semana, os Nininger usam a pistola Gama Gama Gun, que tem formato de sapo (é sério) e dispara um laser em formato de língua de sapo (juro, é sério).

Mais para o meio da série, os três rapazes (AkaNinger, AoNinger e KiNinger) ganham uma segunda forma, chamada Chozetsu, com as quais conseguem canalizar a força do lendário leão Ha-Ojo, guardião espiritual do clã Igasaki. Nessa forma, a armadura é vermelha e dourada, com apenas a máscara e o símbolo no peito sendo da cor do Ninninger em questão, e se parece com uma armadura de samurai, sendo mais resistente e tendo ataques mais poderosos que a armadura padrão. Em um dos últimos episódios, AkaNinger também consegue canalizar os poderes de famosos ninja do passado, se transformando em Ninja Red (de Kakuranger), Hurricane Red (de Hurricanger) e até mesmo em Jiraiya.

Dentre os tesouros do clã também estão os OtomoNin, artefatos místicos de grande poder cuja forma pode ser moldada pela vontade do Ninninger associado a ele. A principal função dos OtomoNin é formar o robô gigante Shurikenjin, com o qual os Ninningers vão destruir qualquer youkai gigante que Kibaoni mande contra eles. Os cinco Otomonin originais são Shinobimaru, que tem formato humanoide; Dragomaru, um dragão que cospe fogo e voa; Dumpmaru, um caminhão basculante (ou KiNinger não teve infância, ou é fanático por construção civil); o cachorro Wanmaru; e Byunmaru, que é a locomotiva de um trem-bala. Além de sua forma normal, o robô também pode assumir, com os mesmos componentes, a forma Shurikenjin Drago, na qual sua cabeça é a de Dragomaru e as asas do dragão ficam livres, permitindo que ele cuspa fogo e voe como o OtomoNin.

Um pouco mais adiante, os Ninningers descobrem novos OtomoNin: o elefante Paonmaru, o disco voador UFOmaru e o submarino Surfermaru. Cada um dos três, além de sua forma normal, possui uma forma humanoide, ou seja, pode se transformar em robô por si só. As formas humanoides de Paonmaru e UFOmaru também podem substituir Shinobimaru na formação de Shurikenjin para se obter, respectivamente, as formas Shurikenjin Paon e Shurikenjin UFO. Finalmente, Surfermaru pode se transformar em uma prancha de surf usada por Shurikenjin na forma Shurikenjin Surfer. Em um único episódio, todos os OtomoNin se combinam, formando o Shurikenjin Paon-UFO-Surfer.

Seguindo a tradição, na metade da série os Ninningers ganham um sexto membro, StarNinger, de armadura dourada, que é um caçador de youkai nascido nos Estados Unidos. Para se transformar, StarNinger usa sua Nin-Shuriken em conjunto com o Ninja Starburger, uma espécie de telefone celular em formato de hambúrguer (afinal de contas, ele é americano), e sua principal arma é Star SwordGun, espada que se parece com uma guitarra (novamente: americano) e pode ser usada como espada ou como rifle laser. StarNinger possui uma segunda forma, mais poderosa que a normal, chamada Super StarNinger, que usa chapéu e botas de caubói e poncho (nunca é demais lembrar: americano), e, em um dos episódios, assume temporariamente uma forma Chozetsu.

StarNinger também possui seu próprio OtomoNin, Rodeomaru, que, assim como Shinobimaru, tem formato humanoide. Bizarramente, Rodeomaru possui seu próprio veículo, um quadriciclo com cara de bisão chamado Bison King Buggy, e, mais bizarramente ainda, Rodeomaru e Bison King Buggy podem se combinar para formar o robô BisonKing. BisonKing também pode se combinar a Dragomaru para obter a forma BisonKing Drago, a Surfermaru para a forma BisonKing Surfer, e, também mantendo a tradição, BisonKing e Shurikenjin podem se combinar para formar o gigantesco robô King Shurikenjin.

Também lá pela metade da série, cada Ninninger descobre que também tem um "companheiro espiritual", um animal de grande poder associado ao clã, que, por algum motivo, também serve como veículo: o de AkaNinger é a fênix Hououmaru, o de AoNinger é o dragão Seiryumaru (que tem formato de motocicleta), o de KiNinger é a tartaruga Genbumaru, o de ShiroNinger é o tigre Byakkomaru, o de MomoNinger é o panda Pandamaru, e o de StarNinger é a carpa Magoimaru (que serve como submarino). Os seis, adivinhem só, podem formar um novo robô, chamado Gekiatsu Dai-Oh.

Um dos principais aliados dos Ninningers é Shishi-Oh, que aparentemente está vivo desde a primeira batalha contra Kibaoni, e tem vários poderes estranhos. Isso só ocorre porque Shishi-Oh, na verdade, é a forma humana do leão Ha-Ojo, que, como já foi dito, é o guardião espiritual do clã Igasaki. Ha-Ojo também é um OtomoNin (mas seu nome não termina com "maru" porque tanto o nome "Lionmaru" quanto "Shishimaru", no Japão, são registrados pela P-Productions, criadora do seriado de tokusatsu Lionman; a razão pela qual "Shishimaru" também é registrado é que shishi significa "leão" em japonês), mas é tão poderoso que só pode ser pilotado por AkaNinger em sua forma Chozetsu. Ha-Ojo possui duas formas (além da humana), uma de tanque voador com aparência leonina, chamada Sky OtomoNin Lion Ha-Ojo, e uma humanoide, chamada Lion Henge Lion Ha-Oh (o por que de "Lion" duas vezes é um mistério), ou seja, assim como Paonmaru, UFOmaru e Surfermaru, ele vira robô por si só; é claro que isso não o impede, porém, de se combinar com King Shurikenjin e formar o ainda mais gigantesco Ha-Oh Shurikenjin. Ele também pode se combinar a Gekiatsu Dai-Oh e BisonKing para formar o Ha-Oh Gekiatsu Dai-Oh.

Os vilões são o Exército Kibaoni ("dente do demônio"), liderado por Gengetsu Kibaoni, que vendeu sua alma e se tornou um youkai. Aparentemente ele também vendeu a alma de sua esposa, Ariake no Kata, pois ela também é um youkai (ou, vai ver, ele se casou com ela depois de se transformar) e serve como sua principal conselheira. Seu braço direito é Kyuemon Izayoi, que, adivinhem, também é um youkai, já fazia parte das tropas de Kibaoni quando ele foi derrotado por Yoshitaka, mas foi enviado por Kibaoni para o futuro, antes de ele ser aprisionado, para libertá-lo - por isso ele pôde quebrar o selo antes que Tsumuji percebesse. Outros vilões de destaque são Raizo Gabi, youkai que odeia profundamente os Igasaki; Masakage Tsugomori, que já fazia parte do exército de Kibaoni em sua primeira tentativa de dominar o Japão, e foi transformado em youkai por ele como recompensa, sendo seu general mais leal; e Mangetsu Kibaoni, filho de Kibaoni e Ariake (e que também é um youkai). Os monstros da semana são youkai selecionados pelos generais dentre uma vasta tropa de outra dimensão, e as tropas do Exército são compostas por centenas de Jukkarage (os soldados-rasos que só servem para apanhar dos Ninningers em todos os episódios), Hyakkarage (versões de elite dos Jukkarage, dez vezes mais fortes) e Hitokarage (versões mais fracas dos Jukkarage, mas armados com lanças).

Ninninger teve 47 episódios, dois especiais lançados diretamente para DVD e dois filmes para o cinema; um deles foi o tradicional crossover Ninninger vs. ToQger, enquanto no outro, Kyoryu Tono-sama Appare Ninpochou ("o maravilhoso pergaminho ninja do lorde dinossauro"), surge um novo OtomoNin, o tiranossauro Dinomaru, que também possui forma de robô e pode se combinar a Shurikenjin para a forma Shurikenjin Dino. Dinomaru também apareceria no especial para DVD Shuriken Sentai Ninninger Returns: Ninnin Girls vs. Boys Final Wars, no qual o grupo ganha mais uma integrante, a moça MidoNinger (verde), o que leva a equipe, por algum motivo, a se dividir em dois times de três (um com os rapazes, AkaNinger, AoNinger e KiNinger, e outro com as moças, ShiroNinger, MomoNinger e MidoNinger) e competirem entre si. O segundo especial, AkaNinger vs. StarNinger Hundred Nin Battle!, é uma competição entre AkaNinger e StarNinger para ver quem derrota mais youkai. Finalmente, os Ninningers também participariam do filme Super Hero Taisen GP: Kamen Rider 3.

Doubutsu Sentai Zyuohger
2016


Acidentalmente, o jovem zoólogo Yamato Kazakiri encontra um mundo perdido dentro de nosso planeta, chamado Zyuland, habitado por animais antropomórficos inteligentes capazes de falar (japonês), chamados Zyumans, que construíram sua própria civilização ocultos dos olhos dos homens. Coincidentemente, bem quando Yamato está na Zyuland confraternizando com os Zyumans, a Terra é atacada pelos Deathgaliens, um grupo de renegados alienígenas que singra o universo em busca de "voluntários" e de arenas para um sangrento esporte no qual gostam de apostar - e querem transformar nosso planeta na edição mais sangrenta de todas, já que será a comemorativa de número 100. Usando artefatos conhecidos como Ouja no Shikaku (as "credenciais reais"), Yamato e quatro dos Zyumans se transformam no esquadrão animal dos patrulheiros reis das feras, ou Zyuohgers, para deter a ameaça dos Deathgaliens. Ah, sim, e cada um dos quatro Zyumans assume, também, uma forma humana, para que animais antropomórficos não saiam andando por aí quando eles retornarem a Tóquio.

Os Deathgaliens são liderados por Ginis, criador do tal esporte sangrento, visto por todos como o dono (e não líder) do grupo, e que controla seus subordinados de dentro de sua nave, a Arca Sagitário, de onde envia monstros capturados nos confins do universo para tentar derrotar os Zyuohgers. Sua segunda em comando é a Secretária Naria, que usa Continue Coins para aumentar os monstros de tamanho e permitir que eles continuem lutando após serem derrotados pelos Zyuohgers (e dar ao robô gigante do grupo algo o que fazer). Abaixo de Naria estão os três generais, Azald, Quval e Jagged. Os soldados rasos se chamam Moeba, e, como de costume, pouco fazem além de apanhar. Vale citar também o quase-vilão Bangray, um caçador que singra o espaço matando animais gigantes por prazer, que vem à Terra atrás de um dos habitantes da Zyuland; Ginis tenta contratá-lo para fazer parte dos Detahgaliens e ele recusa, mas, mesmo assim, dá bastante trabalho aos Zyuohgers.

Os cinco Zyuohgers atendem pelos nomes de Zyuoh Eagle (Yamato, vermelho), Zyuoh Shark (azul, mulher), Zyuoh Lion (amarelo), Zyuoh Elephant (verde) e Zyuoh Tiger (branco, mulher). Acoplando sua Ouja no Shikaku a um artefato parecido com uma mistura de cubo mágico com telefone celular chamado Zyuoh Changer, eles têm acesso à tradicional armadura que amplia sua força, agilidade e resistência. Cada Zyuohger está armado com uma Zyuoh Buster, arma que tem dois modos, espada e pistola; Zyuoh Eagle também possui a espada EagRiser, que pode se transformar em chicote, e é usada para destruir os monstros da semana. Cada Zyuohger também possui uma forma Yasei Kaiho ("despertar o instinto"), na qual seus poderes animais vêm à tona: Eagle ganha asas e pode voar, Shark ganha uma nadadeira nas costas e a habilidade de nadar por dentro do solo como se estivesse na água, Lion e Tiger ganham garras nas mãos e agilidade ampliada, e Elephant ganha pés de elefante capazes de criar terremotos.

Ao longo da série, Yamato ganha a habilidade de se transformar em dois outros Zyuohgers diferentes (ambos, porém, também de cor vermelha): ao receber parte do poder da Ouja no Shikaku de Larry, um Zyuman gorila aliado dos Zyuohgers, ele passa a poder se transformar em Zyuoh Gorilla, que já entra em Yasei Kaiho imediatamente após a transformação, possuindo superforça (e bíceps e um peitoral enormes para demonstrar). Zyuoh Gorilla também possui um ataque capaz de destruir os monstros da semana, o Gorilla Super Punch, no qual, após receber energia dos outros Zyuohgers, seu punho cresce até ficar gigantesco e desferir um poderoso soco. A segunda transformação é em Zyuoh Whale, obtida através da Whale Change Gun, artefato conferido a Yamato pela Cube Whale, o tal animal gigante que Bangray tenta caçar. Zyuoh Whale usa a Whale Change Gun como arma, e não tem forma Yasei Kaiho.

Falando nisso, talvez inspirado em Minecraft, todos os animais da Zyuland (com exceção dos Zyuman) se transformam em cubos, e, em suas formas originais, são cheios de ângulos retos ("todos quadrados", em linguagem popular); até mesmo os robôs que eles formam possuem essa característica, parecendo que estão pixelados (aliás, até mesmo a lâmina da EagRiser é assim, se parecendo com aquela espada de Minecraft).

Rompendo com a tradição, o primeiro robô dos Zyuohgers, chamado ZyuohKing, é formado apenas por três dos animais, a águia Cube Eagle, o tubarão Cube Shark e o leão Cube Lion. Ele também possui uma forma alternativa, chamada ZyuohKing 1*5*4, formada por Cube Eagle, o elefante Cube Elephant e o tigre Cube Tiger, mas os cinco animais originais não se combinam simultaneamente em nenhuma forma. Depois que Yamato ganha a habilidade de se transformar em Zyuoh Gorilla, ele ganha acesso também ao gorila Cube Gorilla, que pode se unir a Cube Elephant e Cube Tiger para formar o robô ZyuohWild, que possui a forma alternativa ZyuohWild 6*2*3, formada por Cube Gorilla, Cube Shark e Cube Lion.

Como vocês devem estar imaginando, ao longo da série surgem novos animais, a começar pela girafa Cube Kirin, que pode se transformar em uma bazuca e ser usada por qualquer das duas formas de ZyuohKing. Em seguida, surge a toupeira Cube Mogura, que se transforma em uma "mão de broca", que pode ser usada por qualquer das duas formas de ZyuohWild. ZyuohKing pode se combinar com ZyuohWild, Cube Kirin e Cube Mogura simultaneamente para formar o gigantesco robô Wild ZyuohKing. O polvo Cube Octopus pode se transformar em uma espécie de hélice, se acoplando a uma das formas de ZyuohKing, com ou sem bazuca, e permitindo que ele voe. O urso Cube Kuma e o panda Cube Panda podem se transformar cada um em um machado, que são usados como armas por Wild ZyuohKing. Com os novos animais, ZyuohWild pode usar a broca de Cube Mogura e o machado de Cube Kuma ao mesmo tempo; e Cube Gorilla, Cube Tiger, Cube Lion, Cube Elephant, Cube Kirin e Cube Mogura podem se combinar e formar o ZyuohWild Special, que também pode usar o machado de Cube Panda.

Assim como novos animais, ao longo da série também surgem novos Zyuohgers, começando por Zyuoh The World, que tem o nome de integrante de sentai mais bizarro que eu já vi. Originalmente, ele era um experimento de Ginis e Naria, um humano que recebeu a energia vital de três Zyumans diferentes; por causa disso, ele tem uma armadura multicolorida (embora majoritariamente preta) e três formas diferentes (cada uma com um capacete diferente, mas a mesma armadura): a de rinoceronte é a principal e a mais resistente, a de lobo é a mais ágil, e a de crocodilo é a mais forte. Ele também possui uma forma Uasei Dai Kaiho ("grande despertar do instinto"), na qual recebe uma armadura mais fortificada, garras em sua mão esquerda, e sua mão direita se transforma em uma cauda de crocodilo. Zyuoh The World se transforma usando a lanterna Zyuoh The Light, e sua arma é a Zyuoh The GunRod, que tem três modos: espada, bastão e rifle.

Zyuoh The World possui acesso a três animais, o rinoceronte Cube Rhinos, o crocodilo Cube Crocodile e o lobo Cube Wolf. Os três podem se combinar e formar o robô Tousai Zyuoh. Mais tarde, ele ganha acesso também ao morcego Cube Komori, que se transforma em um bumerangue que pode ser usado como arma por Tousai Zyuoh. ZyuohKing, ZyuohWild, Tousai Zyuoh, Cube Kirin, Cube Mogura, Cube Kuma e Cube Komori podem se combinar e formar o robô gigantesco Wild Tousai King.

O sétimo Zyuohger é Zyuoh Bird, de cor laranja, um Zyuman renegado, que, secretamente, guiou Yamato até a Zyuland. Um aliado desde o início, ele só se transforma efetivamente em Zyuoh Bird durante uma batalha, para salvar a vida de Yamato. Zyuoh Bird tem seu próprio Zyuoh Changer e sua própria Zyuoh Buster, pode usar a EagRider, e sua forma Yasei Kaiho também lhe dá asas que lhe permitem voar.

Para terminar, temos a baleia Cube Whale, que se transforma em um robô por si só, o Dodekai-Oh. Dodekai-Oh pode se combinar a ZyuohKing, ZyuohWild, Tousai Zyuoh, Cube Kirin, Cube Mogura, Cube Kuma e Cube Komori para formar o robô gigantesco Wild Tousai Dodeka King. Em alguns episódios, também aparecem animais que se transformam em cubos, mas não se combinam com nenhum robô: o leopardo Cube Hyou, o ornitorrinco Cube Kamonohashi, a zebra Cube Shimauma e a coruja Cube Fukurou.

Zyuohger teve 48 episódios, um especial lançado diretamente em DVD (que conta com um novo Zyuohger, Zyuoh Condor, de cor roxa, e com um Cube Condor, que se transforma no robô CondorWild) e dois filmes, sendo um deles o crossover Zyuohger vs. Ninninger. Os Zyuohgers também participam de de quatro episódios especiais que contam com a presença de vários integrantes de sentai do passado, em homenagem aos 40 anos dos Sentai.

Kamen Sentai Gorider
2017


Não, esse não é um Sentai que faça parte da série oficial. Mas eu achei a ideia tão legal que resolvi falar rapidinho dele também.

Em 25 de março de 2017, seria lançado nos cinemas do Japão o filme Kamen Rider x Super Sentai: Ultra Super Hero Taisen. Criado para celebrar os 40 anos dos Sentai e os 10 anos de Kamen Rider Den-O (sabe-se lá o porquê), ele traz personagens de quase todas as séries de Kamen Rider e de Sentai, divididos em times e disputando uma espécie de torneio mortal (ao estilo de Battle Royale, ou, para quem quer uma referência norte-americana, de Jogos Vorazes), visando impedir a destruição da Terra. Em dado momento, as coisas ficam ainda mais loucas do que já são, e cinco ex-Kamen Riders se veem com novos poderes e formando o esquadrão mascarado dos cinco cavaleiros.

A participação dos Goriders no filme é bem pequena, mas alguém na Toei deve ter gostado da ideia, pois eles acabariam ganhando também uma websérie de três episódios, lançados exclusivamente no Japão, o primeiro no mesmo dia do filme e um dos outros em cada um dos dois sábados seguintes. Nessa série, os Goriders, cujos uniformes são uma mescla do usado pelo primeiro Kamen Rider com os usados pelos Gorangers, o primeiro Sentai, e que atendem pelos nomes de Aka-Rider, Ao-Rider, Ki-Rider, Mido-Rider e Momo-Rider, tentam descobrir quem estaria controlando o tal torneio mortal. A série atua como uma espécie de continuação do filme, e, infelizmente, não estão previstos novos episódios.
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Sistema Métrico

Hoje veremos a adaptação de mais um post do Almanaque BLOGuil, o que falava sobre o sistema métrico. Eu lembro que escrevi o referido post após uma conversa com o Rod Ran, na qual falávamos sobre o fato de os norte-americanos não medirem as coisas em metros e gramas, e sim em pés e libras; imediatamente, tivemos uma curiosidade de descobrir se mais algum país além dos Estados Unidos não adotava o sistema métrico, e como ele teria surgido - porque, assim como muitos outros detalhes do nosso dia a dia, o sistema métrico é uma coisa que a gente acha que sempre existiu, e não costuma dar muita bola para saber como ele foi inventado.

Evidentemente, o sistema métrico não existe desde sempre. Até porque, lá na pré-história, o homem não teria muitos usos para ele - a ele não interessava quanto pesava um mamute, ou a quantos quilômetros o lago ficava de sua caverna. Eventualmente, porém, o homem passou a se agrupar em cidades, criar civilizações, e estas questões até então abstratas passaram a ter um significado prático em sua vida, principalmente as distâncias que se precisaria cobrir ao se viajar de um povoado para o outro. Ainda assim, a maior parte das medições dessas distâncias era feita simplesmente pelo tempo, pois esse era o método mais prático - tanto que até hoje temos a mania de dizer que tal lugar fica há tantos minutos de distância de onde estamos.

Quanto mais as pessoas se relacionavam, porém, mais necessidade sentiam de um sistema que as dissesse o quanto as coisas mediam ou pesavam. Os povos da antiguidade, como os egípcios e babilônios, usavam modelos com os quais comparavam os objetos que queriam medir, e obtinham um valor aproximado, muito semelhante ao que fazemos com as réguas e balanças de hoje em dia - nas feiras livres, por exemplo, ainda é comum ver balanças de antigamente, nas quais o objeto a ser pesado é colocado em um dos pratos e pequenos cilindros são colocados no outro até que ambos os pratos fiquem equilibrados, bastando somar o peso total dos cilindros para se obter o peso aproximado do objeto.

Esse sistema funcionou aparentemente muito bem até a Idade Média; isso porque o Egito ou Roma, por exemplo, tinham um governo central, capaz de dizer a todo o Império qual era seu modelo de medidas, mas as cidades da Idade Média, por outro lado, eram praticamente independentes umas das outras - e, sem ninguém para unificar o sistema, cada uma desenvolveu o seu próprio. Com o surgimento do comércio, provavelmente onde as medições eram mais importantes, as guildas de comerciantes tomaram para si a responsabilidade de instituir os modelos, mas, como cada cidade tinha sua própria guilda, cada uma delas acabou ficando com um modelo diferente. Isso, evidentemente, trazia entraves ao comércio, já que, ao chegar em uma nova cidade, o comerciante descobria que ninguém lá conhecia as unidades de medidas que ele estava acostumado a usar, sendo necessário pagar um "conversor", uma pessoa habituada a lidar com as diferentes unidades existentes e converter as medidas de uma para a outra.

Para vocês terem uma ideia do tamanho da encrenca, existia uma medida de comprimento chamada ell, plural elle. Na Germânia, um ell correspondia ao que hoje seriam 40,2 cm; na Holanda, o mesmo ell correspondia a 70 cm; e, em Edimburgo, o mesmíssimo ell tinha 94,5 cm. Ou seja, se existissem redes sociais na época, e um edimburguês escrevesse em seu perfil que tinha 2 elle de altura, os germânicos achariam que se trata de um anão. E a bagunça não ocorria só de um país para o outro: uma pesquisa feita em 1838 na Suíça descobriu que existiam 68 variações do ell ainda em uso somente dentro das fronteiras daquele país - e isso porque a Idade Média já havia acabado há um bom tempo, e a Suíça é um dos menores países da Europa. Como nem sempre um conversor da medida que você usava para a que você precisava estava disponível, era opinião geral de quem lidava com o assunto que, em pouco tempo, o comércio ficaria impraticável. Vários governos, então, começariam a realizar estudos visando unificar os pesos e medidas de toda a Europa.

A primeira tentativa de um governo em fazer todo o seu povo adotar o mesmo sistema de medidas foi feita pela Escócia, que, em 1641, publicou uma lei obrigando todo o país a seguir o sistema de Edimburgo (aquele no qual um ell valia 94,5 cm). Essa tentativa acabou não dando muito certo, primeiro porque apenas os escoceses eram teoricamente obrigados a usar o sistema de Edimburgo, com os estrangeiros continuando a usar seus próprios quando comercializavam com eles; segundo porque, na prática, cada cidade continuou usando seus próprios sistemas, sendo a fiscalização difícil e a punição mais ainda. Em menos de cinco anos, a lei caiu e tudo continuou como antes.

O primeiro a propor um sistema de pesos e medidas semelhante ao sistema métrico existente hoje seria o inglês John Wilkins, primeiro-secretário da Real Sociedade de Londres, que, em 1668, publicaria An Essay towards a Real Character and a Philosophical Language (algo como "ensaio sobre o caráter real e a linguagem filosófica"), documento no qual defendia o uso de um sistema no qual as unidades usadas para medir comprimento, área, volume e massa fossem relacionadas entre si e baseadas em princípios naturais capazes de serem reproduzidos por qualquer pessoa, e não em modelos determinados pelo governo. Wilkins, inclusive, proporia, nesse ensaio, o tamanho de um pêndulo com frequência de um segundo como medida oficial de comprimento - ao contrário do tamanho do pé do Rei, como era na época em sua Inglaterra natal.

Dois anos depois, em 1670, o padre e cientista francês Gabriel Mouton publicaria um trabalho semelhante, no qual proporia a adoção de um sistema decimal de medidas de comprimento que teria por base a circunferência da Terra - sendo a unidade básica desse sistema, chamada millare, equivalente a um minuto de um arco de um meridiano do planeta. Mouton usaria como base de seu trabalho um estudo publicado em 1585 pelo matemático holandês Simon Stevin, sobre a importância dos sistemas decimais, que terminava com a "profecia" de que, em breve, seriam introduzidos sistemas monetários e de pesos e medidas com base decimal, por serem mais instintivos e mais fáceis de utilizar que os existentes na época - Mouton, de fato, propunha que o millare tivesse unidades múltiplas e submúltiplas sempre em fatores de dez, para facilitar medições de coisas muito pequenas ou muito grandes.

O trabalho de Mouton faria sucesso dentre os acadêmicos, e a adoção de seu sistema seria defendida pelos astrônomos Jean Picard e Christiaan Huygens, além de ser debatida na Real Sociedade de Londres em 1673, mesmo ano no qual o filósofo alemão Gottfried Leibniz publicaria um trabalho propondo um sistema semelhante ao de Mouton. A ideia de um sistema de medidas decimal e unificado começava a ganhar força, e os governos da Espanha e da Rússia chegaram a entrar em contato com a Real Sociedade se dizendo interessados em adotar um desse tipo para unificar os muitos sistemas existentes em cada um desses países. Mas ainda demoraria mais de um século para que um sistema de medidas decimal unificado fosse efetivamente adotado por algum país - ninguém sabe ao certo o motivo, mas as duas teorias mais aceitas são as de que um sistema desse tipo seria "científico demais", o que levaria os governos a achar que seus povos não se interessariam em adotá-lo; ou que interesses velados por parte de grandes comerciantes, que desejavam manter os sistemas que já usavam, teriam sabotado sua adoção.

O primeiro país a adotar um sistema de medidas decimal unificado para todo seu território, abolindo os demais lá existentes até então, seria o da França, dois anos após a Revolução Francesa, em 1791. Durante a Revolução, um grupo de pensadores liderados pelo Marquês de Condorcet, e que incluía Antoine Lavoisier, Pierre-Simon Laplace, Adrien-Marie Legendre e Jean-Charles de Borda, estabeleceu um Comitê de Pesos e Medidas, que, logo após a proclamação da República, apresentou ao chefe do governo de então, a Assembleia Nacional Constituinte, um projeto para a unificação do sistema de pesos e medidas da França, baseado nos princípios da lógica e da observação dos fenômenos naturais. Curiosamente, Laplace sugeriu que esse sistema fosse duodecimal, ou seja, que as unidades múltiplas e submúltiplas usassem fatores de 12 ao invés de 10, mas a própria Assembleia Constituinte achou que um sistema decimal serial mais intuitivo.

A lei que instituiria o novo sistema de medidas da França seria publicada em 1795, e traria um total de cinco unidades oficiais: o metro, usado para medir comprimento; o grama, usado para medir massa; o are, usado para medir área; o estere, usado para medir o volume de objetos sólidos empilhados; e o litro, usado para medir o volume de líquidos. O nome "metro" seria sugerido por Auguste-Savinien Leblond, que o criaria a partir da palavra grega métron, que significa "medir"; ele logo se tornaria o nome mais popular dentre todas as unidades, tanto que acabaria dando nome ao próprio sistema, até hoje conhecido como sistema métrico.

Originalmente, um metro era a distância da linha do Equador até o Polo Norte dividida por dez milhões; como isso não era lá muito fácil de ser medido na prática, foi produzida uma barra composta de uma liga de platina e irídio, que, a zero graus Celsius, possui exatamente um metro de comprimento. Essa barra existe até hoje, está guardada no Arquivo Nacional da França, e é conhecida como mètre des Archives; ela não é mais, entretanto, a "medida oficial" de um metro, já que, em 1983, quando ficou comprovado que a velocidade da luz no vácuo é constante, decidiu-se determinar que um metro é equivalente à distância percorrida pela luz no vácuo em 1/299.792.458 segundos - uma experiência que pode ser reproduzida em qualquer laboratório equipado para tanto, e que liga a unidade de medida a um fenômeno natural, não a um modelo, o que era um dos propósitos originais dos que queriam criar um sistema unificado.

Da mesma forma que existe um mètre des Archives, existe um kilogramme des Archives (cujo apelido carinhoso é le grand kilo), um cilindro também feito de uma liga de platina e irídio, que pesa exatamente um quilograma. O grama ("a grama" é uma planta, o nome da unidade de medida é masculino) era a única unidade do sistema métrico que era definido através de uma de suas unidades múltiplas, sendo um quilograma o peso de um litro de água à temperatura de zero graus Celsius e um grama equivalente a um milésimo disso, por isso o modelo dos Arquivos é de um quilograma, e não de um grama. Atualmente, um grama é o peso de um centímetro cúbico de água à temperatura de quatro graus Celsius positivos - a temperatura na qual a água alcança sua maior densidade, e, portanto, seu maior peso, conforme descoberto pelo químico francês Louis Lefèvre-Gineau e pelo naturalista italiano Giovanni Fabbroni em 1799. Caso alguém esteja curioso, um litro era igual à quantidade de água à temperatura ambiente que coubesse em um reservatório de 10 cm de altura, 10 cm de largura e 10 cm de comprimento - ou seja, um litro é igual a um decímetro cúbico. Já um estere era a quantidade de lenha que podia ser empilhada em um reservatório de um metro de altura por um metro de largura por um metro de comprimento (sendo igual a um metro cúbico), e um are era equivalente a cem metros quadrados, ou seja, um terreno quadrado de 10 metros de lado.

Conforme já foi dito, cada unidade básica do sistema métrico possuía várias unidades múltiplas e submúltiplas, sempre obtidas em fatores de dez - se você quisesse aumentar, multiplicava a unidade por 10, depois por 100, depois por 1000; para diminuir, dividia por 10, então por 100, então por 1000. Originalmente, foi determinado que os multiplicadores positivos (usados para aumentar) receberiam prefixos gregos, enquanto os negativos (usados para diminuir) receberiam prefixos latinos; assim, dez metros são chamados de um decâmetro, cem metros são um hectômetro, e mil metros são um quilômetro (sendo deca a palavra grega para "dez", hecto para "cem", e kilo para "mil"), enquanto um décimo de um metro é um decímetro, um centésimo é um centímetro, e um milésimo é um milímetro (pois deci, centi e mili são prefixos latinos para dez, cem e mil, respectivamente). A lista original das unidades múltiplas e submúltiplas começava no mili e terminava no miria, que era o equivalente a dez mil, hoje não mais usado - um miriâmetro era equivalente, portanto, a dez mil metros, ou dez quilômetros.

Com o passar do tempo e a internacionalização do sistema métrico, novas unidades seriam adicionadas e outras seriam abandonadas - ninguém mais usa o estere, por exemplo. Em 20 de maio de 1875 seria assinado, por 17 países, a Convenção do Metro, que criaria três órgãos responsáveis por regular o sistema métrico internacionalmente, tirando essa atribuição do governo francês: a Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM), que conta com delegados de todos os países-membros, e é a autoridade final em todos os assuntos envolvendo o sistema métrico; o Comitê Internacional de Pesos e Medidas (CIPM), que conta com cientistas responsáveis por preparar e executar as instruções do CGPM; e o Escritório Internacional de Pesos e Medidas (BIPM, todas as três siglas são dos nomes dos órgãos em francês), um laboratório permanente supervisionado pelo CIPM, responsável pela parte científica do sistema métrico - como garantir a maior precisão possível das unidades de medidas; foi o BIPM, por exemplo, que relacionou o comprimento oficial do metro à velocidade da luz.

Em 1948, durante um de seus congressos, o CGPM propôs uma extensiva revisão e simplificação da definição de todas as suas unidades, símbolos e terminologias, que começou efetivamente em 1954. Ao final desse processo, em 1960, o CGPM decidiria adotar, para seu sistema, o nome oficial de Sistema Internacional de Unidades, com a sigla SI - usada em todos os idiomas do mundo, não importa como se traduza "Sistema Internacional" para eles. O nome "sistema métrico" não é incorreto (e eu vou continuar usando nesse post), mas já não é mais aceito em trabalhos acadêmicos ou, por exemplo, livros escolares, devendo ser usado Sistema Internacional de Unidades, Sistema Internacional ou SI.

Atualmente, o SI conta com 29 unidades, sendo sete consideradas as unidades base, e as outras 22 sendo as unidades derivadas - pois podem ser obtidas através de fórmulas que envolvem as unidades básicas. As unidades básicas são o metro (m), usado para medir comprimento; o quilograma (kg), usado para medir massa; o segundo (s), usado para medir tempo; o ampere (A), usado para medir corrente elétrica; o kelvin (K), usado para medir temperatura termodinâmica; o mol (mol), usado para medir substância; e o candela (cd), usado para medir luminosidade. É interessante registrar que a unidade base do SI para medição de massa é o quilograma, e não o grama, embora os múltiplos e submúltiplos ainda sejam em relação ao grama; e que o termo correto para a medição é massa, e não peso, sendo o peso obtido através da força da gravidade agindo sobre a massa; um corpo tem a mesma massa na Terra e na Lua, mas pesos diferentes, pois a gravidade da Lua é menor.

As unidades derivadas são o radiano (rad), para a medição de ângulos; o esferorradiano (sr), para medição de ângulos sólidos; o hertz (Hz), para frequência; o newton (N), para força; o pascal (Pa), para pressão; o joule (J), para energia; o watt (W), para potência; o coulomb (C), para carga elétrica; o volt (V), para voltagem; o farad (F), para capacitância; o ohm (Ω) para resistência elétrica; o siemens (S), para condução elétrica; o weber (Wb), para fluxo magnético; o tesla (T), para densidade de fluxo magnético; o henry (H), para indutância; o lumen (lm), para fluxo luminoso; os graus Celsius (°C) para temperatura relativa; o lux (lx), para iluminação; o becquerel (Bq), para radioatividade; o gray (Gy), para dose absorvida de radiação ionizante; o sievert (Sv), para dose relativa de radiação ionizante; e o katal (kat), para atividade catalítica. É importante registrar que o SI não possui unidades para medição de área (devendo ser usados os metros ao quadrado, ou m², seus múltiplos e submúltiplos), volume (devendo ser usados os metros ao cubo, ou m³, seus múltiplos e submúltiplos) ou velocidade (devendo ser usados os metros por segundo, ou m/s, seus múltiplos e submúltiplos).

Atualmente, o SI reconhece dez múltiplos e dez submúltiplos, que podem ser aplicados a qualquer uma de suas unidades base ou derivadas, cada um com um prefixo próprio, que deve ser adicionado logo antes do nome da unidade, e uma "abreviação de prefixo" própria, que deve ser adicionada antes da abreviação da unidade - criando siglas como kV, MHz, mA ou μΩ. Os múltiplos são deca (da), para x10; hecta (h), para x100; quilo (k), para x1.000; mega (M), para x1.000.000; giga (G), para x1.000.000.000; tera (T), para x1.000.000.000.000; peta (P), para x1.000.000.000.000.000; exa (E), para x1.000.000.000.000.000.000; zeta (Z), para x1.000.000.000.000.000.000.000; e iota (Y), para x1.000.000.000.000.000.000.000.000. Os submúltiplos são deci (d), para x0,1; centi (c), para x0,01; mili (m), para x0,001; micro (μ), para x0,000001; nano (n), para x0,000000001; pico (p), para x0,000000000001; fento (f), para x0,000000000000001; ato (a), para x0,000000000000000001; zepto (z), para x0,000000000000000000001; e iocto (y), para x0,000000000000000000000001. É interessante registrar que os submúltiplos mais recentes não seguem a regra de nomes gregos para múltiplos e latinos para submúltiplos, sendo mikro, nano e yokto palavras gregas, pico uma palavra espanhola, e femto e atto palavras dinamarquesas.

O SI também permite o uso de algumas unidades que não pertencem ao SI; por exemplo, como eu já disse, o SI não possui uma unidade própria para medição de volume, devendo ser usados os metros cúbicos, mas ele permite que seja usada uma unidade que não é do SI, o litro, como se ela fosse do SI. Estas unidades se dividem em quatro grupos: as unidades reconhecidas pelo SI, as unidades aceitas pelo SI, as unidades experimentais, e as unidades associadas ao sistema CGS - que foi um sistema de pesos e medidas baseado no centímetro, no grama e no segundo (daí o nome CGS), criado em 1860 e que chegou a ter alguma popularidade no Reino Unido no final do século XIX. Cada um desses grupos possui "regras" próprias para que suas unidades sejam usadas em documentos e em trabalhos acadêmicos em países que adotam o SI como sistema oficial.

No primeiro grupo, o das unidades reconhecidas pelo SI, estão unidades cujo uso é consistente ao longo da história. Estas unidades tiveram sua importância científica reconhecida pelo CGPM em 1879, e podem ser usadas normalmente, como se fossem unidades do SI, inclusive aplicando-se a elas os múltiplos e submúltiplos do SI. Neste grupo estão o litro (l), usado para medir volume; o are (a), usado para medir área (embora não seja tão popular quanto seu múltiplo hectare, ou ha, que equivale a 100 ares, ou 10.000 m²); o bel (B), usado para medir diferença de nível (sendo seu submúltiplo decibel, ou dB, muito usado para medir a altura do volume de um som, ou seja, a diferença de nível entre aquele som e os demais); a tonelada (t), usada para medir massa, e que equivale a 1.000 kg; o curie (Ci), usado para medir radioatividade; a unidade astronômica (au), usada para medir distâncias no espaço, e que equivale à distância entre a Terra e o Sol (149.597.870.700 m); o ano-luz (ly), que, apesar do nome, é uma medida não de tempo, mas de comprimento, que equivale à distância que a luz percorre no vácuo em um ano (cerca de 9.000.000.000.000.000 m); os graus (°), minutos (') e segundos ('') usados para medir ângulos; e as medidas de tempo minuto (min), hora (h), dia (dd), semana (ss), mês (mm), ano (yy), década (dec.), século (sec.) e milênio (mil.). Pois é, de acordo com o SI, o certo seria medir o tempo em quilossegundos, megassegundos etc. - ainda bem que eles permitem o uso desses mais normais.

No segundo grupo, o das unidades aceitas pelo SI, estão unidades que são de uso geral, mas que o CGPM planeja extinguir. O uso dessas unidades é permitido, porém desencorajado; elas não podem ser usadas em documentos oficiais, e, toda vez que são citadas em trabalhos acadêmicos, devem ser seguidas, entre parênteses, de uma explicação sobre como elas seriam expressas em unidades do SI. Também não é permitido o uso de múltiplos e submúltiplos do SI aplicados a elas. Essas unidades incluem a milha náutica (nmi), que mede distâncias no mar e é equivalente a 1.852 m; o nó (kn), que mede velocidade e equivale a uma milha náutica por hora; o bar (bar), que mede pressão atmosférica e equivale a 100.000 Pa; o milímetro de mercúrio (mmHg), que mede pressão, e equivale a 133,322387415 Pa; o barn (b), usado na física nuclear para medir seções de átomos, e que equivale a 100 fm²; o neper (Np), usado para medir ganho e perda de sinais eletrônicos, e equivale a 8,685889638 dB; e o angstrom (Å), usado para medir distâncias microscópicas, e que equivale a 1 nm.

No terceiro grupo, das unidades experimentais, temos unidades que podem ser usadas normalmente como se fossem do SI (assim como as do primeiro grupo), mas que ainda não possuem comprovação, ou seja, são puramente teóricas, e, por causa disso, seu uso é permitido apenas em situações específicas. Apenas duas unidades fazem parte atualmente desse grupo: o elétron-volt (eV), que seria a quantidade de energia adquirida por um elétron ao passar através de um campo de 1 V, usado na física para medir energia; e o dalton (Da), que mede a massa de um átomo, e seria equivalente a 1/12 da massa de um átomo neutro de carbono-12 em repouso.

Finalmente, temos o grupo das unidades associadas ao sistema CGS. O CGPM reconhece que, em certas situações, não é possível usar uma unidade do SI para medir algo que uma unidade CGS mede, mas, mesmo assim, desencoraja seu uso, exceto em campos específicos como a geofísica. Essas unidades são o erg (erg), que mede energia; o dina (dyn), que mede força; o poise (P), que mede viscosidade; o stokes (St), que mede viscosidade cinética; o stilb (sb), que mede luminância; o phot (ph), que mede fluxo luminoso; o gal (Gal), que mede aceleração gravimétrica; o maxwell (Mx), que mede fluxo eletromagnético; o gauss (Gs), que mede fluxo de densidade magnética; e o oersted (Oe), que mede a força de um campo magnético.

Unidades que não pertençam a nenhum dos quatro grupos têm seu uso proibido pelo CGPM, e países que ainda as usam são considerados de metrificação incompleta. Em alguns casos, porém, o CGPM faz vista grossa - normalmente quando a unidade é usada apenas para algo muito específico, e nunca em documentos oficiais. No Brasil, por exemplo, pelo menos três unidades que não fazem parte do SI ainda são usadas no dia a dia, e, mesmo assim, o país é considerado de metrificação completa. A primeira delas é a polegada, equivalente a 2,54 cm, e que ainda é usada aqui na indústria e no comércio para estipular a medida de telas de aparelhos de televisão (no caso, a medida é a da diagonal da tela) e o diâmetro de canos e tubos usados na construção civil.

Outro exemplo é o quilate (K), que mede a pureza do ouro, usando uma escala de 24 partes, na qual o número de quilates é o número de partes de ouro em uma determinada liga. Uma peça em ouro 18K, portanto, tem 18 partes de ouro e 6 partes de outros metais (normalmente 3 partes de prata e 3 de cobre), para um total de 24 partes - o que significa que uma peça em ouro 18K é composta 75% de ouro. Uma peça em ouro 24K, em teoria, seria 100% ouro, mas, como pureza total é impossível, é aceito que peças com no mínimo 99,95% de ouro sejam consideradas 24K. O mínimo para que uma peça seja considerada "de ouro" é 8K, o que equivale a 33,33% (ou seja, um terço) de ouro. Desde a década de 1950, o quilate vem sendo gradativamente substituído no mundo inteiro por uma escala decimal de pureza, que vai de 333 (o equivalente a 8K) até 999 (o equivalente a 24K), ou até um pouco mais: a liga de ouro de maior pureza já obtida foi confeccionada pela Casa da Moeda da Austrália em 1957, e considerada de pureza 999,999; atualmente, a liga de maior pureza confeccionada é de 999,99, pela Casa da Moeda do Canadá; e barras de ouro nos Estados Unidos são consideradas de pureza 999,9. A pureza mínima para que uma barra de ouro possa ser negociada no mercado internacional é de 995 - o que equivaleria aos 99,95% mínimos para uma peça ser considerada de 24K. A escala decimal de pureza não possui uma unidade (uma peça de ouro 18K, por exemplo, na escala decimal de pureza tem simplesmente "pureza 750"), e, além de para ouro, também é usada para medir a pureza da prata e da platina.

Finalmente, temos a arroba, cujo nome só é de conhecimento de grande parte da população brasileira porque seu símbolo é o @, onipresente em emails e em algumas redes sociais - porque, em inglês, esse símbolo se chama at, que significa "em", "no" ou "na", então fulano@site.com é o endereço do fulano no site.com. A arroba era uma unidade de medição de massa largamente usada em Portugal e na Espanha antes da metrificação; em Portugal (e em suas colônias), ela equivalia a 32 libras portuguesas, ou 14,7 kg, enquanto na Espanha (e em suas colônias), ela equivalia a 25 libras espanholas, ou 11,5 kg. O nome arroba vem do árabe ar-rub, e sua medida original era a quantidade de peso que uma mula aguentava carregar. Atualmente, tanto em Portugal quanto no Brasil, uma arroba equivale a 15 kg, e, em cada um desses dois países, ela só é usada para medir uma única coisa: em Portugal, cortiça, no Brasil, cabeças de gado.

Conforme determinado pela lei de 1795, o sistema métrico passaria a ser o único oficial em toda a França em 10 de dezembro de 1799, se tornando obrigatório em 4 de novembro de 1800; na prática, porém, alguns sistemas regionais resistiram, e a França só se tornou totalmente metrificada (o nome que se dá quando um país usa majoritariamente o sistema métrico) no século XX - e, assim, mesmo, ainda hoje se podem encontrar medições em unidades tradicionais em algumas regiões do país. Mas o que importava, nesse caso, era que, diferentemente de outras tentativas do passado, o sistema métrico estava dando certo, com cada vez mais pessoas passando a utilizá-lo após sua criação. Isso levaria o governo da França a conversar com vários de seus aliados, para tentar convencê-los a também adotá-lo, o que facilitaria o comércio internacional.

Curiosamente, um dos maiores entusiastas do sistema métrico era Thomas Jefferson, o terceiro Presidente dos Estados Unidos, que aprenderia sobre o sistema de medidas decimal quando morou na França, entre 1784 e 1789, para negociar tratados entre os Estados Unidos e aquele país. Em 1790, quando era Secretário de Estado de George Washington, ele apresentaria ao Congresso uma proposta para que um sistema decimal fosse adotado também pelos Estados Unidos, mas mantendo os nomes das unidades tradicionais de lá (um pé, por exemplo, passaria a ser equivalente a 10 polegadas, e uma milha a 10.000 pés, enquanto hoje um pé equivale a 12 polegadas, e uma milha a 5.280 pés), que seria votada pelo Congresso, mas não seria aprovada. Ao assumir a presidência, ele apresentaria uma nova proposta, para que os Estados Unidos passassem a usar o sistema métrico, mais uma vez rejeitada pelo Congresso.

O primeiro país a adotar o sistema métrico como oficial (depois da França, evidentemente) foi Portugal, em 1814; todas as colônias portuguesas, incluindo o Brasil (que só se tornaria independente em 1822) também passariam, por tabela, a usar o mesmo sistema, embora, no Brasil, o sistema métrico só fosse se tornar oficial após a publicação de uma lei em 1862. Em 1817, o Reino da Holanda passaria a usar um sistema adaptado, usando os nomes das unidades tradicionais holandesas para as unidades do sistema métrico - 1 cm, por exemplo, era 1 duim, e 100 g eram 1 ons - o que também foi feito pela Bélgica no ano seguinte, e pela Alemanha - onde 500 g eram um zollpfund - em 1852; Holanda e Bélgica chegariam à conclusão de que o sistema métrico seria bem aceito pela população e passariam a adotá-lo oficialmente em 1820, enquanto a Alemanha só o adotaria oficialmente em 1872. A Espanha passaria a adotá-lo em 1852, com a recomendação de que suas colônias também o usassem; até hoje, entretanto, Bolívia, Chile, Peru e Filipinas ainda usam no dia a dia algumas de suas medidas tradicionais, sendo considerados países de metrificação incompleta.

A Itália adotaria o sistema métrico em 1861, o Império Austro-Húngaro em 1871, e o Império Otomano em 1875. A Grécia seguiria usando suas unidades tradicionais até 1959, e a Rússia começaria seu processo de metrificação em 1918, mas o sistema métrico só se tornaria obrigatório na época da União Soviética, em 1924. A primeira ex-colônia britânica a aderir ao sistema métrico seria a Índia, em 1954, seguida da Nova Zelândia em 1969, da Austrália em 1970 e da África do Sul em 1971. O Japão começaria sua metrificação em 1885, mas até hoje é considerado um país de metrificação incompleta - até 1969, apenas 20% da população usava o sistema métrico, com o restante usando unidades tradicionais ou as dos Estados Unidos, que tinham muita influência por lá no final do século XIX e início do XX. Outros países considerados de metrificação incompleta são Tailândia (que começou o processo em 1923), China (1925), Indonésia (1946), Malásia (1972), Canadá (1973), Sri Lanka (1976) e Jamaica (1998). O Reino Unido se rendeu ao sistema métrico, abandonando suas Unidades Imperiais, em 1965, mas também é considerado um país de metrificação incompleta, com muitas das antigas unidades ainda estando presentes até em documentos oficiais.

Falando em Unidades Imperiais, o chamado Sistema de Unidades Imperial, criado em 1845, foi uma espécie de resposta da Inglaterra ao sistema métrico francês. Originalmente, a Inglaterra usava um conjunto de unidades curiosíssimo, cujas medidas dependiam do governante em questão - um pé, por exemplo, correspondia ao comprimento do pé do Rei, de forma que, quando mudava o Rei, mudava a medida oficial do pé. Vendo o sucesso do sistema métrico, mas não querendo adotá-lo (alguns dizem que, por causa da rivalidade entre Inglaterra e França, a Inglaterra adotar um sistema inventado pela França seria equivalente ao Brasil adotar um sistema inventado pela Argentina), a Coroa Britânica decidiria padronizar as unidades, de forma que um pé teria sempre a mesma medida, não importando quem fosse o Rei. Como já foi dito, algumas das Unidades Imperiais estão presentes até hoje, sendo especialmente popular a pint, que equivale a 568 ml, e é o "tamanho padrão" de uma caneca de cerveja nos bares ingleses.

Os Estados Unidos, ao contrário do que muita gente pensa, não usam as Unidades Imperiais, e sim um conjunto próprio. Isso porque, em 1845, quando o Sistema de Unidades Imperial foi criado, os Estados Unidos já não tinham mais nada a ver com a Inglaterra, sendo independentes há mais de 50 anos. Desde a independência, é usado por lá um sistema conhecido como costumary units (as "unidades costumeiras"), baseado nas unidades usadas na Inglaterra na época da colonização da América, mas adaptadas às necessidades do povo norte-americano. Como os Estados Unidos são talvez o país mais influente do planeta, o fato de eles usarem um sistema de medidas diferente de todo mundo costuma causar alguns problemas; ao longo dos anos, diversas tentativas já foram feitas para que eles passassem a adotar o sistema métrico, começando pelas já citadas feitas por Thomas Jefferson, e passando por um abaixo-assinado que contou com mais de dez milhões de assinaturas encaminhado ao congresso em 1927, e rechaçado pelas indústrias, que temiam aumento de custos se tivessem que converter todos os seus equipamentos.

Em 1975, com as relações internacionais cada vez mais crescendo em importância, os Estados Unidos aceitaram um meio-termo: ao invés de adotar o sistema métrico, eles passaram a permitir seu uso em conjunto com as costumary units. Esse compromisso seria reiterado em 1988, com a edição de uma lei que diz que o sistema métrico é o "sistema de unidades de pesos e medidas preferencial para o comércio interno e internacional dos Estados Unidos". Nos termos dessa lei, todos os documentos oficiais dos Estados Unidos devem usar o sistema métrico, com as costumary units sendo usadas apenas naqueles destinados à população em geral; não há, porém, uma exigência de que a sociedade norte-americana use o sistema métrico, por isso não se considera que os Estados Unidos entraram em processo de metrificação. Hoje, nos Estados Unidos, o sistema métrico é usado majoritariamente no comércio internacional e de forma acadêmica - em livros de ciências exatas, por exemplo - com a população em geral, bem como indicações destinadas a ela - como embalagens de produtos e placas de trânsito - ainda usando as costumary units - embora, com o comércio internacional, a maioria das embalagens de produtos como comida, produtos de limpeza e produtos de beleza já tragam as medidas tanto nas costumary units quanto no sistema métrico.

Eu não consigo imaginar por que os norte-americanos preferem usar as costumary units em seu dia a dia ao invés do sistema métrico. Além de nomes bizarros, elas possuem correlações mais bizarras ainda. Assim como eu fiz no post do Almanaque BLOGuil, vou citar aqui algumas das costumary units atualmente em uso, só para vocês terem pena das crianças que têm de aprendê-las na escola.

Em se tratando de comprimento, a menor medida é uma polegada (inch, abreviado in ou "), que, originalmente, era o tamanho do polegar do Rei da Inglaterra. Hoje, corresponde a 2,54 cm. Como não dá para dividir o mundo em partes iguais de 2,54 cm, também são usadas frações de polegadas, tipo meia polegada ou um quarto de polegada - 20 cm, por exemplo, são 7 7/8 in, ou seja, sete polegadas e sete oitavos. Felizmente, desde a década de 1970 também são usadas as "polegadas decimais", nas quais 20 cm é igual a 7,874 in.

Em seguida, temos um pé (foot, abreviado ft ou '), que originalmente era o tamanho do pé do Rei, mas hoje vale 12 polegadas, ou 30,48 cm. Uma das coisas mais curiosas em relação a isso é que, nos Estados Unidos, a altura das pessoas é medida em pés - eu tenho 1,80 m de altura, então lá eu tenho 5'11" (cinco pés e onze polegadas, que, a rigor, seriam 1,8034 m). O problema é que 5'10" são 1,778 m, ou seja, serve tanto para quem tem 1,77 m quanto para quem tem 1,78 m, mas quem tem 1,79 m ou vai ter de mentir para menos ou para mais - assim como quem tem 1,81 m, já que 5'12" já são 1,8288. Aliás, como um pé são 12 polegadas, 5'12" é exatamente a mesma coisa que 6', mas, em se tratando de altura, o padrão é usar o 12", para que todo mundo tenha uma medida em pés e uma em polegadas (para que não seja necessário usar, por exemplo, 6'0").

Quem acompanha futebol americano já deve estar familiarizado com a jarda (yard, yd), que, originalmente, era a distância entre o nariz e o polegar do Rei, com seu braço esticado perpendicular ao corpo. Hoje, uma jarda equivale a 3 pés, ou 91,44 cm. Da mesma forma, quem acompanha Fórmula Indy (ou Nascar) deve conhecer a milha (mile, mi), que tem esse nome porque originalmente era a distância de mil passos (do Rei, provavelmente). Hoje, uma milha equivale a 1.760 jardas, ou 1.609,344 m. Outras medidas de comprimento ainda usadas são a braça (fathom, fth), que originalmente era a envergadura do Rei, sendo hoje 6 pés ou 1,82 m, e somente utilizada para medir profundidade; e o furlong (fur), originalmente a medida que um boi conseguia arar um campo em linha reta sem descanso, hoje equivalente a 220 jardas ou 201,168 m, ainda muito usado nas corridas de cavalo.

Assim como o metro, seus múltiplos e submúltiplos, polegadas, pés, jardas e milhas podem ser elevados ao quadrado para medir área (com a sigla sq, de square, "quadrado", sendo adicionada antes e separada da sigla da medida, como, por exemplo, "sq ft" para pés ao quadrado) ao cubo para medir volume (da mesma forma, com a sigla cu, de cubic, adicionada antes e separada da sigla da medida, como em "cu in" para polegadas cúbicas) ou divididos por unidades de tempo para calcular velocidade (com a velocidade dos carros norte-americanos sendo medida, por exemplo, em milhas por hora, ou mph).

As medidas de massa começam pelo grão (grain, gr), originalmente o peso médio de um grão de cevada, hoje 64,8 mg. Um dracma (dram, dr), originalmente, era o peso de um punhado de grãos; hoje 27,3 grãos ou 1,772 g. Uma onça (ounce, oz), cujo nome vem do latim uncia, que significa décima-segunda parte, por ser 1/12 de uma libra, pesa 16 dracmas ou 28,349523125 g (pois é). Uma libra (pound, lb) equivale a 12 onças ou 453,5 g, e seu nome vem do verbo "pesar" em latim (libra), sendo o nome em inglês pound uma corruptela do latim pondus ("peso") - vale citar como curiosidade que o sanduíche quarterão, em inglês, se chama quarterpound, e tem esse nome porque seu hambúrguer pesa 114 g, o que equivale aproximadamente a um quarto de uma libra. Um quintal (hundredweight, cwt) equivale a 100 libras ou 45,359 kg, e seu nome vem do árabe qintas, que significa "composto por cem". Finalmente, temos a tonelada (tonne, ton), que originalmente era o peso do maior tonel de vinho existente, hoje equivale a 20 quintais ou 907,2 kg, e que não é a mesma tonelada que nós usamos, que, como já foi dito, é abreviada t e corresponde a 1.000 kg.

As medidas de volume incluem a xícara (cup), que, evidentemente, era a quantidade de água que cabia em uma xícara, e hoje equivale a 236,5 ml; o pinto (pint, pt), que equivale a 2 xícaras ou 473 ml, cujo nome vem do latim pincta, que significa "pintado", pois os recipientes romanos eram marcados com pequenos traços que denominava a menor fração do que estava guardado ali dentro, ficando essa fração conhecida como pincta, e que não é equivalente a um pint das Unidades Imperiais, apesar de o nome em inglês ser o mesmo; o quarto (quart, qt), que equivale a 2 pintos ou 946 ml, e tem esse nome porque equivale a um quarto de um galão; e o galão (gallon, gal), equivalente a 4 quartos ou 3,78 l, e originalmente era a quantidade de líquido que cabia em um galão de vinho - e que não é o mesmo galão usado no Brasil para latas de tinta, e que equivale a 3,6 l. Existem também as unidades dracma fluida (fluid dram, fl dr, 3,697 ml) e onça fluida (fluid ounce, fl oz, 29,5 ml), que originalmente representavam a quantidade de água que cabia em recipientes desenhados para acomodar uma dracma e uma onça de sementes, respectivamente. Bebidas industrializadas nos Estados Unidos são vendidas em onças fluidas, com uma lata de refrigerante que no Brasil tem 350 ml lá tendo 11,84 fl oz.

Para medir área temos o acre, originalmente a quantidade de terra que podia ser arada por um homem e um único boi ao longo de um dia inteiro, hoje equivalente a 43.560 sq ft, ou 4.046 m²; para medir pressão temos o psi, que equivale a uma libra por polegada quadrada (psi, inclusive, significa exatamente isso em inglês, pounds per square inch); e, para medir temperatura relativa, os norte-americanos usam a escala Fahrenheit (°F), que originalmente tinha como 0 °F a temperatura de uma solução salina composta de partes iguais de sal e gelo, e como 100 °F a temperatura do corpo humano - hoje, a temperatura padrão do corpo humano é de 96 °F. A escala Celsius foi escolhida pelo SI por ser mais, digamos, científica, já que 0 °C é a temperatura na qual a água congela, e 100 °C é a temperatura na qual a água evapora. Para converter de Celsius para Fahrenheit, diminuímos 32 do valor em °F e multiplicamos o resultado por 1,8; para converter de Fahrenheit para Celsius, multiplicamos o valor em °C por 1,8 e somamos 32 ao resultado.

Vale citar que os Estados Unidos não são o único país a não ter ainda iniciado seu processo de metrificação - mas o grupo é bem reduzido, contando apenas com três membros. Os outros dois são a Libéria, país na costa da África que possui fortes relações com os Estados Unidos, pois a maior parte dos ex-escravos norte-americanos que decidiriam retornar ao continente africano se estabeleceria lá, e que, nada surpreendentemente, usa as costumary units; e Myanmar, que ainda usa um sistema próprio de unidades tradicionais. Ao contrário dos Estados Unidos, a Libéria jamais fez nenhum esforço governamental para adoção do sistema métrico, embora, em relações internacionais, as unidades do sistema métrico sejam usadas em conjunto com as costumary units. Já Myanmar anunciou, em 2011, que começaria seu processo de metrificação, o que não ocorreu até hoje. Em 2013, eles firmaram um acordo com o Instituto Nacional de Metrologia da Alemanha para que esse processo começasse, mas, até agora, não há data oficial para o início; naquele mesmo ano, porém, o governo publicou uma lei semelhante à dos Estados Unidos, determinando o sistema métrico como "preferencial" - embora, na prática, seu uso ainda seja muitíssimo reduzido.
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Taekwondo

Eu juro que, quando decidi escrever sobre judô, planejava acabar logo com os esportes do programa olímpico, fazendo um post para cada um dos que faltavam. Acabei me desviando do caminho duas vezes, mas agora retorno, com um post sobre taekwondo.

O taekwondo é uma arte marcial de origem coreana, e surgiu no fim da década de 1950. Assim como a China, a Coreia possui artes marciais antiquíssimas, com a mais antiga, o sireum, no qual o objetivo era agarrar e derrubar o oponente, datando de quatro mil anos atrás. A maioria dessas artes marciais, entretanto, cairia em desuso, e quase desapareceria, durante a ocupação japonesa da península coreana, na qual a Coreia passou a ser parte do Império Japonês, entre os anos de 1910 e 1945.

Com o fim da ocupação, vários professores de artes marciais decidiriam abrir escolas, chamadas kwan; as kwan, entretanto, não ensinavam as artes marciais coreanas tradicionais, e sim novas vertentes, "contaminadas" pelas artes marciais japonesas - já que, durante a ocupação, muitos dos professores de artes marciais moraram no Japão, incorporando técnicas que lá aprenderam a seus estilos originais. Durante as décadas de 1940 e 1950, um total de nove kwan foram abertos na cidade de Seul, capital da Coreia do Sul (que surgiria após a divisão da península, em 1948), cada uma delas ensinando uma arte marcial própria, sem relação com as outras oito. Algumas dessas artes marciais seriam adotadas pelo exército sul-coreano como parte de seu treinamento de combate corpo a corpo.

Em 1952, o exército faria uma demonstração de artes marciais na presença do Presidente da Coreia do Sul, Syngman Rhee, que, impressionado, chamaria para uma reunião os líderes das cinco kwan existentes até então, e determinaria que eles trabalhassem em conjunto para criar uma arte marcial unificada, que seria ensinada por todas. As primeiras reuniões nesse sentido ocorreriam em 1955, e, antes mesmo de se determinar quais elementos de cada arte marcial seriam usados na unificada, os líderes resolveram decidir qual seria seu nome. Eles acabariam optando por Tae Soo Do, que, em coreano, significa "caminho da mão que atinge".

Entra em cena, então, o controverso Choi Hong Hi, professor de artes marciais e general do exército. Choi era o líder da Oh Do Kwan, fundada em 1955 e uma das quatro kwan fundadas na década de 1950, mas praticava o Chung Do Kwan, estilo da escola de mesmo nome fundada por Won Kuk Lee em 1945. Ele chamava seu estilo não de Oh Do Kwan, mas de Tae Kwon Do, que significava "o caminho do punho que atinge". Aproveitando o fato de que o nome escolhido na reunião de 1955 era parecido com o seu, e o de que a forma kwon era semelhante, em pronúncia e sentido, ao quan das artes marciais chinesas, Choi começaria a defender o uso do nome Tae Kwon Do para a nova arte marcial que seria criada. Quando conseguiu, ele começou a defender que a nova arte marcial deveria ter muito mais elementos de seu Tae Kwon Do do que das artes das demais kwan - o que também acabaria conseguindo.

Além de ter criado a maior parte dos elementos presentes no taekwondo moderno, Choi também seria o primeiro a escrever um livro em inglês sobre as regras do taekwondo, publicado em 1965, e, durante as décadas de 1960 e 1970, viajaria o mundo divulgando o taekwondo e treinando professores, o que contribuiria para a expansão do taekwondo pelo planeta; por isso, ele viria a ser considerado por muitos como o "criador do taekwondo". Mas, como eu disse, Choi era uma figura controversa: em 1959, devido a acusações de conduta desonesta e antidesportiva, ele perderia todos os seus títulos de artes marciais e seria impedido pelo governo de liderar uma kwan - o que, segundo alguns, teria sido o principal motivo de ele decidir viajar pelo mundo. Por causa dessas acusações, a Federação Mundial de Taekwondo costuma omiti-lo da história do esporte, considerando o taekwondo como uma criação coletiva.

Após várias reuniões, os líderes das nove kwan decidiriam fundar a Associação Coreana de Taekwondo (KTA), que ficaria responsável pela regulação, promoção e divulgação do taekwondo em toda a Coreia do Sul - além de ter sido a responsável pela adoção oficial do nome "taekwondo", com grafia sem espaços. Como foi "expulso" logo após a criação da KTA, alguns anos depois Choi decidiria "contra-atacar" e fundar a Federação Internacional de Taekwon-Do (ITF), que seria responsável por regular, promover e divulgar o taekwondo no mundo inteiro. O taekwondo da ITF tinha algumas regras diferentes das adotadas pela KTA (por isso Choi adotaria um nome levemente diferente, "taekwon-do"), mas, mesmo assim, em nome da divulgação internacional do esporte, a KTA decidiria mostrar uma bandeira branca e se filiar à ITF em 1970. A paz, entretanto, duraria apenas três anos.

Na opinião do governo sul-coreano, como o taekwondo havia surgido dos esforços das kwan de Seul, apenas a Coreia do Sul deveria ter influência sobre como o esporte seria praticado. Mas, em outra decisão controversa, Choi declararia que o taekwon-do era "uma arte marcial coreana", e não "uma arte marcial sul-coreana", e que a Coreia do Norte também deveria ser ouvida em relação aos rumos do esporte - de fato, Choi sempre manteve boas relações com a Coreia do Norte, se mudando para lá em 1979, se tornando o primeiro presidente da Federação Norte-Coreana de Taekwon-Do, e residindo no país até o fim de sua vida, em 2002. A KTA, que tinha fortes laços com o governo da Coreia do Sul, também achava um absurdo a Coreia do Norte se meter no taekwondo, e, em 1973, se desfiliaria da ITF, fundando uma nova federação internacional, a Federação Mundial de Taekwondo (WTF).

Pouco antes da saída da KTA da ITF e da fundação da WTF, o Ministério da Cultura, Esporte e Turismo da Coreia do Sul decidiria fundar uma academia de taekwondo controlada pelo governo, chamada Kukkiwon - nome que significa algo como "escritório central". Assim como o Kodokan do judô, a Kukkiwon, hoje, é um prédio considerado o "quartel-general mundial do taekwondo", contando em seus três andares com locais próprios para sua prática e seu ensino, um museu sobre a história do esporte, um auditório, uma extensa biblioteca e uma equipe permanente de professores e atletas dedicados a aprimorar o taekwondo constantemente. A Kukkiwon foi responsável pela organização do primeiro Campeonato Mundial de Taekwondo, ainda em 1973, contando com 200 competidores de 17 países diferentes - e bem antes do primeiro Mundial da ITF, realizado em 1982 - além de ter sido instrumental para a formação da WTF: em poucos anos, graças aos esforços da Kukkiwon, quase todos os membros da ITF já a haviam trocado pela WTF, ou decidido ser membro de ambas - o Brasil pertence ao segundo caso, sendo membro tanto da WTF quanto da ITF.

Como tanto a ITF quanto a WTF existem até hoje, o taekwondo é mais uma arte marcial que possui mais de uma vertente: o taekwondo da ITF costuma ser referenciado como Taekwon-Do, enquanto o da WTF é o Taekwondo Kukkiwon, Taekwondo Olímpico (por ser o que está nas Olimpíadas), ou, simplesmente, Taekwondo WTF. Estas duas não são as únicas vertentes do taekwondo, podendo ser citadas como exemplos das demais o Taekwondo Tradicional, ou apenas Taekwon (um termo genérico usado para se referir às artes marciais originais das nove kwan), ainda ensinado hoje como parte do currículo de muitas escolas de taekwondo, principalmente na Coreia do Sul, e regulado pela União Mundial de Taekwondo Tradicional (WTTU); o Taekwondo Chang Hon, regulado pela Federação Global de Taekwondo (GTF), fundada em 1990 por um grupo de conselheiros da ITF insatisfeitos com o que eles consideraram "alterações indesculpáveis na essência do esporte"; e o Taekwondo Songahm ou Taekwondo ATA, regulado pela Federação de Taekwondo Songahm (STF) e criado por Haeng Ung Lee, professor sul-coreano que foi morar nos Estados Unidos em 1969, abriu a primeira escola de taekwondo naquele país, e foi membro fundador da Associação Americana de Taekwondo (ATA).

Assim como eu fiz nos posts sobre judô e caratê, as características e regras mencionadas nesse post serão as da federação reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional - ou seja, a WTF - o que significa que, daqui para a frente, toda vez que eu falar "taekwondo", estarei me referindo ao Taekwondo Kukkiwon. É importante salientar que, para efeitos de competição, diferentemente da maioria das federações internacionais de artes marciais, a WTF não se importa com qual vertente do taekwondo o lutador pratica, desde que ele seja filiado a uma federação nacional que seja membro da WTF e siga as regras da WTF durante a competição em questão - em outras palavras, um lutador norte-americano que pratica o Taekwondo ATA pode participar normalmente das Olimpíadas, desde que seja filiado à USA Taekwondo e siga as regras da WTF enquanto estiver lutando no torneio olímpico (e obtenha a classificação para ele através de torneios da WTF, evidentemente).

Um dos pilares do ensinamento do taekwondo é a chamada Teoria da Força, desenvolvida por Choi Hong Hi ainda na década de 1950, através do estudo da biomecânica e da física em relação às artes marciais chinesas. Basicamente, a Teoria da Força diz que é a velocidade do golpe que importa, e não o tamanho ou o peso do lutador; quanto mais veloz for um golpe, portanto, mais forte ele será, independentemente de se o lutador é grande, pequeno, leve, pesado, magro ou musculoso. A Teoria da Força é usada em conjunto com outra teoria desenvolvida por Choi, segundo a qual o lutador deve permanecer com os músculos relaxados durante a maior parte da luta, somente tensionando-os quando for aplicar um golpe; segundo Choi, essa prática possibilitaria a conservação da energia do lutador, permitindo que cada golpe fosse usado com a maior explosão muscular - e, por conseguinte, a maior velocidade - possível. Na década de 1970, Choi ainda desenvolveria uma terceira teoria, segundo a qual o lutador deveria mover seu centro de gravidade para cima quando em repouso e para baixo na hora de desferir um golpe, mas essa, hoje, só é adotada pela ITF, com as demais vertentes do taekwondo desconsiderando-a.

O treinamento do taekwondo envolve técnicas individuais, técnicas acompanhadas e técnicas filosóficas. As técnicas filosóficas incluem meditação, exercícios de relaxamento, e estudo de disciplinas como ética, justiça, desportividade, respeito e auto-confiança, pois o taekwondo não é considerado meramente um esporte, e sim um estilo de vida. As técnicas individuais incluem controle da respiração (a ideia é encher os pulmões no momento de executar um golpe e esvaziá-los aos poucos durante o mesmo, chegando ao fim do golpe com os pulmões vazios), exercícios aeróbicos e anaeróbicos, e as poomsae, as formas e modelos do taekwondo - equivalentes aos kata do caratê e do judô. Cada poomsae é uma sequência pré-definida e sistemática de movimentos próprios do taekwondo, executadas com o intuito não só de treinar as maneiras corretas de se efetuar os golpes, mas também para limpar a mente do lutador e torná-lo um com sua arte marcial. Atualmente, a Kukkiwon reconhece um total de 17 poomsae, sendo que oito delas são conhecidas como taegeuk, e todo lutador de taekwondo deve conhecê-las; vale citar como curiosidade que cada uma delas está associada a um dos trigramas do i ching, e possui um tema - a Taegeuk Yi Jang, por exemplo, tem como tema um lago, representado a natureza calma e fluida do artista marcial, tendo, portanto, movimentos lentos e belos, porém poderosos. As outras nove poomsae se chamam yudanja, e são destinadas apenas aos lutadores faixa-preta, que devem saber executá-las com perfeição - aos das demais faixas, elas não são nem ensinadas. Cada yudanja também possui um tema, mas não tem um trigrama associado.

O treinamento acompanhado é conhecido como kyorugi, e pode ser de três tipos: no treinamento livre, os alunos "lutam" entre si ininterruptamente durante um determinado período de tempo, visando treinar os movimentos e golpes característicos do taekwondo em uma situação de luta. Já o treinamento com pontos é mais semelhante a uma competição esportiva, sendo interrompido e reiniciado por um mediador toda vez que um dos lutadores marca um ponto; o intuito é treinar o momento correto de aplicar cada golpe, bem como as posturas de relaxamento, defesa e ataque, que podem se confundir no treinamento livre. O terceiro é o chamado 7-3-2-1, que é uma espécie de poomsae em dupla, na qual os lutadores executam apenas movimentos pré-determinados pelo professor.

A versão esportiva do taekwondo, presente, por exemplo, nas Olimpíadas, é uma forma modificada do kyorugi, voltada ao acúmulo de pontos durante um período determinado de tempo. Para que um golpe valha pontos, ele deve ser um golpe válido conforme as regras do taekwondo, e ser executado com precisão e potência - golpes considerados "fracos" ou mal-executados não rendem pontos. Apenas chutes com o peito ou a lateral do pé - nada de pisões ou pontapés - e socos com a mão fechada são considerados golpes que pontuam, e as áreas válidas de pontuação são o tronco e a cabeça do oponente - sendo que apenas chutes podem ser desferidos contra a cabeça, nunca socos. Golpes contra os ombros, pescoço, costas e membros do oponente são proibidos. Um soco contra o tronco do oponente vale um ponto; um chute comum contra o tronco vale dois pontos; um chute giratório contra o tronco ou um chute comum contra a cabeça do oponente vale três pontos; e um chute giratório contra a cabeça do oponente vale quatro pontos.

Uma luta dura três rounds de dois minutos cada, com intervalo de um minuto entre eles. Caso a luta termine empatada, é disputado um round de um minuto conhecido como golden point, durante o qual o primeiro a pontuar vence; persistindo o empate, o vencedor é escolhido por decisão dos árbitros. É possível vencer uma luta por nocaute: caso um dos lutadores caia em decorrência de um golpe aplicado na cabeça, e demore para se levantar, o árbitro pode abrir contagem; se o árbitro chegar ao 10 sem que o lutador derrubado consiga se levantar, ou caso ele consiga, mas o árbitro avalie que ele não tem condições de continuar lutando, a luta é encerrada, e a vitória é dada automaticamente ao oponente. Caso o árbitro abra contagem para um mesmo lutador três vezes durante a mesma luta, a vitória também é automaticamente do oponente. Finalmente, se um lutador, a qualquer momento, obtiver 20 pontos a mais que o outro, será considerado automaticamente o vencedor.

Uma luta de taekwondo é oficiada por quatro árbitros, sendo um árbitro central, responsável por garantir o bom andamento da luta, e três que observam a luta sentados em posições pré-definidas ao redor da área de competição, sendo responsáveis por conferir a pontuação - cada um deles segura um aparelho no qual deve pressionar um botão ao ver que o lutador conectou um golpe, sendo a pontuação conferida se dois deles pressionarem em relação ao mesmo golpe. Desde 2015, a WTF vem experimentando, em alguns torneios, o uso de sensores eletrônicos no uniforme dos lutadores, que conferem os pontos automaticamente; apenas sensores no tronco estão sendo testados, porém, com os golpes na cabeça ainda sendo conferidos pelos árbitros.

Além de determinar o início e reinício da luta - sendo a luta interrompida cada vez que um lutador marca pontos, reiniciando com ambos no centro da área de luta - o árbitro central tem a função de marcar as penalidades (chamadas gam-jeom) sofridas por cada lutador. Cada vez que um lutador sofre um gam-jeom, o oponente recebe um ponto - um único gam-jeom, porém, não é suficiente para que um lutador seja vencedor no golden point, sendo preciso que o oponente receba dois deles. Se um mesmo lutador receber 10 gam-jeom durante uma luta, é desclassificado, sendo o oponente automaticamente declarado vencedor; uma conduta especialmente grave, como machucar o oponente deliberadamente, pode resultar em desclassificação imediata, a critério do árbitro. Exemplos de gam-jeom incluem usar um golpe inválido (que não faz parte dos golpes tradicionais do taekwondo), falta de combatividade (ficar só esperando o oponente atacar ao invés de iniciar seus próprios ataques), sair da área de luta de propósito, cair de propósito para atrasar a luta, agarrar o oponente, atingir a cabeça do oponente com um soco, bloquear um golpe do oponente com a perna ou segurar a perna do oponente para evitar um chute, falso ataque (fingir que vai chutar, por exemplo, sem concluir o chute), atingir o corpo do oponente sem ser no tronco ou na cabeça, e atacar um oponente caído. Caso um lutador se machuque durante a luta, o árbitro central pode determinar tempo para atendimento médico, que não pode ultrapassar um minuto, sendo o lutador desclassificado caso não retorne à luta ao final desse tempo.

A área de competição do taekwondo não tem um nome próprio, e chamá-la de tatami é considerado incorreto pela WTF. Pelas regras da WTF, a área de luta pode ser quadrada ou octogonal, elevada ou não. Uma área de luta quadrada tem 8 m de lado, enquanto a octogonal possui 3,3 m de lado, o que faz com que o octógono se encaixe perfeitamente dentro de um círculo de 8 m de diâmetro; em ambos os casos, a área de luta é cercada por uma área de segurança com entre 10 e 12 m de lado, sendo que as cores da área de luta e da área de segurança devem ser diferentes e contrastantes - as cores mais comuns são vermelho para a área de luta e azul para a área de segurança. Tanto a área de luta quanto a de segurança são cobertas com um piso especial macio, elástico e antiderrapante. No caso de uma área de luta elevada, esta deve ter entre 60 cm e 1 m de altura, e a área de segurança deve ser inclinada, ligando o solo à área de luta em um ângulo de 30 graus. O centro da área de luta possui dois traços de 1,5 m de comprimento cada, distantes 1 m do exato centro da área cada um, sobre os quais os lutadores devem se posicionar a cada início e reinício da luta.

O uniforme do taekwondo se chama dobok, e, em competições oficiais, deve ser branco - exceto em competições de demonstração, quando pode ter qualquer cor; tradicionalmente, professores, nessas demonstrações, usam dobok preto. O dobok consiste de uma camisa de vestir pela cabeça, com gola em V, com uma tira nas laterais que pode ser amarrada atrás das costas para deixá-la mais justa; e de uma calça com elástico na cintura e um cordão que pode ser amarrado para maior firmeza. Em competições oficiais, lutadores de taekwondo devem usar um capacete acolchoado chamado homyun; um colete especial acolchoado, preso ao corpo através de tiras amarradas nas costas, chamado hogu; e protetores acolchoados para os pés, mãos, virilhas e antebraços. O homyun e o hogu são as únicas áreas de pontuação válidas, e, em competições que usem o sistema de pontuação eletrônica, os sensores são colocados no hogu. Para melhor identificação dos lutadores, um sempre usa homyun e hogu na cor azul, enquanto o outro sempre os usa na cor vermelha.

Assim como a maioria das demais artes marciais desportivas, no taekwondo os lutadores são divididos em categorias de peso, para assegurar que todos lutem em igualdade de condições. Atualmente, a WTF possui categorias distintas para as Olimpíadas e para as demais competições, com as Olimpíadas tendo menos categorias, para que o torneio olímpico seja mais curto. No masculino, as categorias de peso são até 54 Kg, até 58 Kg, até 63 Kg, até 68 Kg, até 74 Kg, até 80 Kg, até 87 Kg e mais de 87 Kg, enquanto as categorias olímpicas são até 58 Kg, até 68 Kg, até 80 Kg e mais de 80 Kg. No feminino, as categorias de peso são até 46 Kg, até 49 Kg, até 53 Kg, até 57 Kg, até 62 Kg, até 67 Kg, até 73 Kg e mais de 73 Kg, enquanto as categorias olímpicas são até 49 Kg, até 57 Kg, até 67 Kg e mais de 67 Kg.

O taekwondo também usa um sistema de ranqueamento indicado através de faixas coloridas que os lutadores usam amarradas na cintura em todos os treinamentos e competições, inspirado no sistema criado para o judô por Jigoro Kano. Esse sistema consiste de dez níveis chamados geup, contados em ordem decrescente, seguidos de outros dez níveis chamados dan, contados em ordem crescente. Do décimo geup até o nono dan, a progressão é feita através de testes, que exigem um tempo mínimo de prática, um conhecimento mínimo das técnicas do taekwondo e uma idade mínima do lutador que deseja subir no ranking; já o décimo dan só é conferido pela Kukkiwon a lutadores que tenham comprovadamente dedicado sua vida ao aprimoramento e divulgação do taekwondo, na maioria das vezes de forma póstuma. Lutadores do décimo geup usam uma faixa branca, com as outras nove, na ordem, sendo branca com as pontas amarelas, amarela, amarela com as pontas verdes, verde, verde com as pontas azuis, azul, azul com as pontas vermelhas, vermelha e vermelha com as pontas pretas; lutadores de qualquer dan usam uma faixa preta. Segunda as regras da Kukkiwon, apenas lutadores maiores de 15 anos podem receber o primeiro dan, mas é possível um lutador mais jovem fazer o teste para primeiro dan caso cumpra os demais pré-requisitos; nesse caso, se ele passar, pertencerá a um nível intermediário chamado poom, usando uma faixa metade vermelha, metade preta, e, assim que completar 15 anos, receberá o primeiro dan e a faixa preta automaticamente.

A estreia do taekwondo nas Olimpíadas se daria em 1988, em Seul, Coreia do Sul, mas como esporte de demonstração, com oito provas masculinas e oito femininas; na edição seguinte, em 1992, em Barcelona, Espanha, ele seria incluído novamente como esporte de demonstração, e novamente com 16 provas. A estreia no programa oficial dos Jogos só ocorreria em 2000, em Sydney, Austrália, após a WTF cumprir uma série de metas estabelecidas pelo COI - dentre elas, a redução do número de provas, por isso as categorias de peso olímpicas são diferentes das dos demais campeonatos. Atualmente, o taekwondo conta, nas Olimpíadas, com oito provas, sendo quatro masculinas e quatro femininas. Assim como o judô, ele confere duas medalhas de bronze em cada prova, usando o seguinte sistema: cada um dos dois lutadores que perdeu nas oitavas de final, mas cujo oponente que o derrotou chegou às semifinais e perdeu, enfrenta um dos dois lutadores que perdeu nas quartas de final, mas cujo oponente chegou à final, em uma luta de repescagem; cada um dos vencedores dessas duas lutas de repescagem enfrenta, então, um dos perdedores das semifinais em uma luta que vale uma das medalhas de bronze.

O taekwondo também já fez parte do programa dos World Games, nas quatro primeiras edições, em 1981, 1985, 1989 e 1993. A própria ideia de se criar os World Games partiu de um presidente da WTF, então nada mais natural que ele fosse um dos primeiros esportes a se beneficiar da decisão do COI de incluir nas Olimpíadas esportes que se mostrem populares e rentáveis nos World Games. De fato, enquanto fez parte dos World Games, o taekwondo foi um dos esportes mais procurados pelo público, mesmo com um domínio absoluto da Coreia do Sul, que ganhou quase todas as medalhas de ouro em disputa nessas quatro edições.

Depois das Olimpíadas, o torneio de maior importância do taekwondo é o Campeonato Mundial, disputado a cada dois anos desde 1973, contando com oito provas masculinas e oito femininas; cada uma dessas provas também confere duas medalhas de bronze, mas essas são dadas aos perdedores das semifinais, sem necessidade de repescagem ou de disputa do bronze. Desde 2013, a WTF também organiza anualmente o Grand Prix de Taekwondo, competição que conta com quatro etapas disputadas ao longo do ano em quatro sedes diferentes, que valem pontos que são somados para se determinar o campeão de cada prova ao final da última etapa.

Outro torneio de relevância organizado pela WTF é a Copa do Mundo de Taekwondo por Equipes, disputada no masculino e no feminino em 2006, 2009, 2010 e então anualmente desde 2012, e por equipes mistas anualmente desde 2016. Cada equipe é formada por seis lutadores, cujo peso somado, no masculino, deve ser menor que 442 Kg, e, no feminino, que 376 Kg. Em cada embate, somente cinco lutadores de cada equipe vão se enfrentar, em cinco lutas diferentes, mas com o total de pontos dessas lutas sendo somado - ou seja, se a primeira luta terminou 7 a 5, a segunda luta já começa com esse placar - sendo vencedora do embate a equipe que tiver somado mais pontos ao final da quinta luta. Como os placares são somados, as quatro primeiras lutas podem terminar empatadas, mas a quinta possui um "golden point infinito", que só termina quando alguém pontua ou recebe dois gam-jeom. Desnecessário dizer, no torneio de equipes mistas, homens só podem enfrentar homens e mulheres só podem enfrentar mulheres; por essa razão, cada equipe costuma ter três homens e três mulheres.

Desde 2006, a WTF também organiza o Campeonato Mundial de Poomsae, e, graças a ele, competições de poomsae são cada vez mais frequentes em torneios nacionais e internacionais - a própria WTF, aliás, planeja aumentar ainda mais sua popularidade organizando, a partir de 2017, o Mundial de Taekwondo de Praia, que terá poomsae realizados ao ar livre em uma arena montada na areia. Uma competição de poomsae ocorre em uma área quadrada de no mínimo 10 e no máximo 12 m de lado, e é julgada por um painel de sete juízes, cujas notas são somadas para se determinar a nota final de cada competidor. Não há categorias de peso, com atletas de diferentes pesos competindo juntos, e não são usados equipamentos de proteção, apenas o dobok.

As competições de poomsae se dividem em Poomsae Reconhecido e Poomsae Estilo Livre. As de Poomsae Reconhecido, por sua vez, se dividem em individual masculino, individual feminino, equipes masculinas, equipes femininas e duplas mistas (cada equipe sendo composta por três lutadores). Cada uma dessas cinco provas também se subdivide, de acordo com a idade dos lutadores: para as provas individuais, as categorias de idade são de 12 a 14 anos, de 15 a 17 anos, de 18 a 30 anos, de 31 a 40 anos, de 41 a 50 anos, de 51 a 60 anos, de 61 a 65 anos, e 66 anos ou mais; para as equipes e duplas, são de 12 a 14 anos, de 15 a 17 anos, de 18 a 30 anos, e 31 anos ou mais. Em outras palavras, uma competição de Poomsae Reconhecido pode ter até 28 provas diferentes.

Em uma competição de Poomsae Reconhecido, cada competidor deve realizar um poomsae compulsório e um poomsae de sua escolha, sendo que a lista dos compulsórios e a lista dos à escolha depende da categoria de idade. A apresentação é feita sem música, e cada poomsae deve ser apresentado no mínimo em 30 e no máximo em 90 segundos, com um intervalo de no mínimo 30 e no máximo 60 segundos entre o primeiro e o segundo poomsae da apresentação. Cada competição costuma ter mais de uma fase, e cada competidor deverá apresentar dois poomsae diferentes por fase, sem poder repetir nenhum. Atualmente, o Mundial de Poomsae é disputado em um sistema de mata-mata (os competidores são pareados dois a dois, com o vencedor de cada par avançando e o perdedor sendo eliminado), mas a WTF também permite o sistema de round robin (os competidores se dividem em grupos, com os melhores de cada grupo avançando a uma fase eliminatória, na qual é usado o sistema de mata-mata) e o de grupos eliminatórios (todos os competidores começam em um único grupo, com a metade sendo eliminada e a outra metade avançando para mais um grupo, até que só restem dois competidores, que farão a final).

No Poomsae Reconhecido, cada juiz dá uma nota de 0 a 10, com a precisão valendo 4 pontos e a apresentação valendo os outros 6. Na precisão, são julgadas a forma como o competidor realizou os movimentos e o equilíbrio que ele manteve ao mudar de um movimento para o outro; já na apresentação são avaliados três critérios, que valem dois pontos cada: velocidade e força dos movimentos, ritmo dos movimentos e expressão de energia do competidor.

Já em uma competição de Poomsae Estilo Livre, é o próprio competidor que cria seu poomsae, podendo usar qualquer elemento válido do taekwondo. A apresentação deve durar entre 60 e 70 segundos, e é feita acompanhada por música, escolhida pelo competidor. Mais uma vez, não é permitido repetir em uma fase seguinte um poomsae usado em uma fase anterior, e o Mundial é disputado em mata-mata, também sendo permitidos pela WTF o round robin e os grupos eliminatórios. Competições de Poomsae Estilo Livre se dividem em individual masculino júnior (entre 14 e 17 anos), individual masculino (18 anos ou mais), individual feminino júnior, individual feminino, duplas mistas e equipes mistas (com as equipes sendo compostas por cinco integrantes cada, sendo sempre três homens e duas mulheres ou três mulheres e dois homens).

No Poomsae Estilo Livre cada juiz também dá uma nota de 0 a 10, mas o julgamento é bem mais complexo, com a habilidade técnica valendo 6 pontos e a apresentação valendo 4 pontos. Na habilidade técnica são avaliados o nível de dificuldade das técnicas (que inclui a altura dos pulos, o número de chutes por pulo, o gradiente do giro em um chute giratório, o nível de execução de chutes consecutivos e as ações acrobáticas), a precisão dos movimentos e a aplicação prática do poomsae dentro da teoria do taekwondo; já na apresentação são avaliadas a criatividade na escolha dos movimentos, a harmonia dentre os movimentos, a escolha da música e da coreografia e a expressão de energia do competidor.

Finalmente, desde 2005 a WTF reconhece a versão paralímpica do taekwondo, chamada de para-taekwondo. Assim como em outros esportes paralímpicos, no para-taekwondo os atletas são classificados de acordo com o grau de sua deficiência, para que todos possam competir em igualdade de condições: a classe P10 é destinada aos deficientes visuais; a P20 aos deficientes intelectuais; a P30 aos que têm dificuldades motoras causadas por condições como paralisia cerebral e esclerose múltipla; a K40 aos que têm dificuldades motoras causadas por amputações ou atrofia muscular; a P50 aos cadeirantes; e a P70 aos portadores de nanismo. Dentro de cada classe, quanto mais alto o número, mais grave a deficiência - na P11, por exemplo, competem os deficientes visuais capazes de distinguir vultos, enquanto na P13 competem os deficientes visuais totais. Dependendo do número de competidores, é possível que mais de uma classe venham a competir juntas - como em uma competição de P51-53, na qual competem juntos atletas das classes P51, P52 e P53. As regras do para-taekwondo são as mesmas do taekwondo, mas com as adaptações necessárias - poomsae para cadeirantes não exigem o uso das pernas, por exemplo.

Quem prestou atenção provavelmente achou que eu cometi um erro de digitação na classe K40. Na verdade, a letra antes do número diz se o atleta está apto para competir no kyorugi (K) ou apenas no poomsae (P). Atualmente, apenas atletas da classe K40 podem competir no kyorugi, estando subdividos em quatro subclasses: a K41 é destinada aos biamputados dos braços na altura dos ombros e aos que têm dificuldades motoras em ambos os braços; a K42 aos biamputados dos braços na altura dos cotovelos, amputados de um dos braços na altura do ombro e aos que têm dificuldades motoras em um dos braços; a K43 aos biamputados das mãos; e a K44 aos amputados de uma das mãos, de um dos pés, aos que tenham dificuldades nos movimentos dos ombros e aos hemiplégicos. As categorias de peso para o kyorugi do para-taekwondo são, no masculino, até 61 Kg, até 75 Kg e acima de 75 Kg, e, no feminino, até 49 Kg, até 58 Kg e acima de 58 Kg.

A principal competição do para-taekwondo é o Campeonato Mundial, disputado em 2009, 2010, 2012, 2013, 2014 e 2015, com uma nova edição prevista para 2017, e que conta com provas de todas as classes. O para-taekwondo fará sua estreia nas Paralimpíadas na próxima edição, em 2020, em Tóquio, Japão, mas apenas com as provas de kyorugi. A quantidade de provas ainda está sendo discutida, mas, devido à baixa quantidade de praticantes, provavelmente não teremos o máximo de 24 provas - no último mundial, por exemplo, foram realizadas apenas 15 provas, e, em cinco delas, havia apenas dois lutadores inscritos em cada.
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