Sambô

Hoje eu vou falar sobre sambô. Não sobre o grupo musical, que eu absolutamente detesto. Eu nem tenho nada contra samba, só acho uma péssima ideia regravar grandes clássicos do rock ao som de samba, principalmente porque, na maioria das músicas, a letra e o ritmo não combinam - poucas coisas são mais ridículas que um grupo de pessoas, com copos de cerveja na mão e sorrisos no rosto, sambando alegremente ao som de Sunday Bloody Sunday, enquanto o vocalista canta "garrafas quebradas sob os pés das crianças, corpos espalhados nas ruas sem saída (...) e mães, filhos, irmãos, irmãs dilacerados". Fico imaginando se algum dia alguém resolvesse montar uma banda para regravar grandes clássicos do samba em ritmo de rock se todo mundo iria aceitar numa boa.

Enfim, o sambô do qual eu vou falar hoje não é a banda, e sim uma luta, inventada na União Soviética - cujo nome, inclusive, é uma sigla, para SAMozashchita Bez Oruzhiya, o que significa "auto-defesa sem o uso de armas". Em uma reviravolta curiosa em relação ao parágrafo anterior, vale citar que, em russo, toda letra "o" que não pertence à sílaba tônica tem som de "a" - e, como a sílaba tônica é o SAM, a pronúncia mais correta não seria "sambô", e sim... "samba". Em português, convenciounou-se chamar a luta de sambô não somente para não confundir com o samba, mas também por influência de outros nomes de lutas terminados com "ô", como "judô", "sumô" e "aikidô". Vale citar, também, que, nos Estados Unidos, a palavra sambo era usada em sentido pejorativo, para se referir a pessoas filhas de negros com índios; por causa disso, nos países de língua inglesa, o nome da luta costuma ser escrito como sombo. Também é comum encontrar o nome da luta escrito todo em maiúsculas (já que, afinal, é uma sigla), ou seja, SAMBO.

O sambô foi criado na década de 1920 por dois homens, Vasili Oshchepkov e Viktor Spiridonov. Curiosamente, eles não trabalharam juntos para criá-lo, mas ambos tinham o mesmo objetivo: integrar noções e técnicas de artes marciais japonesas, como o judô e o jiu-jitsu, ao sistema de combate corpo a corpo utilizado pelo exército da União Soviética na época. Oshchepkov foi um dos primeiros estrangeiros a aprender judô no Japão, tendo sido aluno de ninguém menos que Jigoro Kano, o criador dessa arte marcial, e tendo chegado até do segundo dan, ou seja, a segunda graduação da faixa preta; já Spiridonov era um entusiasta das artes marciais e veterano da Primeira Guerra Mundial que, após receber um ferimento de baioneta que deixou os movimentos de seu braço esquerdo comprometidos, começou a estudar as técnicas do jiu-jitsu para aprender a compensar a falta de força nesse braço durante o combate desarmado. Trabalhando de forma independente, tanto Oshchepkov quanto Spiridonov analisariam meticulosamente cada uma das técnicas do judô e do jiu-jitsu, separariam as que julgassem ter uso durante um combate real, e trabalhariam para que cada uma delas pudesse ser usada para desarmar e subjugar um oponente no menor tempo possível.

Tanto Oshchepkov quanto Spiridonov trabalhariam, em momentos diferentes, para a Dinamo, uma academia militar criada por Kliment Voroshilov, que, em 1953, seria o presidente da União Soviética, mas que, em 1918, era apenas um militar, e teria recebido do próprio Vladimir Lenin a missão de desenvolver e organizar as técnicas de combate corpo a corpo do Exército Vermelho. Em 1923, Anatoly Kharlampiyev, que havia sido aluno tanto de Oshchepkov quanto de Spiridonov, receberia da Dinamo a missão de viajar o mundo para estudar o maior número de artes marciais possível, fazendo um documento que apontasse quais de suas técnicas seriam adequadas ao combate corporal do exército. Sabendo do sonho de seus professores, ele reuniria um extenso catálogo de técnicas nos mesmos moldes dos estudos de Oshchepkov e Spiridonov, o qual apresentaria a Voroshilov em 1933. Kharlampiyev chamaria seu catálogo de "técnicas de auto-defesa sem o uso de armas", frase que, como vimos, deu origem à sigla SAMBO.

Acreditando que o sambô poderia ser mais que apenas um treinamento para soldados, Kharlampiyev passaria os anos seguintes refinando suas técnicas para que ele pudesse ser lutado competitivamente, como já ocorria, por exemplo, com o judô. Em 1938, ele apresentaria seu plano de transformar o sambô em esporte para o Comitê Desportivo Soviético, que, graças a uma certa influência política da qual Kharlampiyev já dispunha, o aceitou, conferindo a licença para que as primeiras academias de sambô fossem abertas, e os primeiros campeonatos de sambô, disputados. Por causa disso, embora a luta em si já existisse há anos antes disso, 1938 é considerado o ano de criação do sambô, e Kharlampiyev é considerado, na União Soviética, como o "pai do sambô"; no exterior, entretanto, Kharlampiyev costuma ser considerado o "pai do sambô desportivo", enquanto Oshchepkov e Spiridonov são reconhecidos como os criadores da arte marcial - Spiridonov, inclusive, chegaria a criar, no início da década de 1930, uma luta desportiva diferente da de Kharlampiyev, chamada samoz, ainda hoje ensinada em várias academias de diversos países, mas não tão famosa quanto o sambô.

Assim como várias outras artes marciais, o sambô é bastante confuso em relação às suas federações internacionais. Originalmente, não existia uma "federação soviética de sambô", com o Comitê Desportivo Soviético fazendo a função de regular o esporte. Graças à influência soviética, após a Segunda Guerra Mundial o sambô se espalharia para outros países da Europa Oriental, como Polônia, Bulgária e Tchecoslováquia, mas, devido à Cortina de Ferro e à falta de integração entre Europa Oriental e Ocidental, ele demoraria para chegar ao restante da Europa, só começando a ser praticado, primeiro na Escandinávia, depois na Alemanha Ocidental, no início da década de 1960. Como a maioria dos países não tinha uma federação nacional de sambô, com suas federações nacionais de luta olímpica sendo as responsáveis por regulá-lo nacionalmente, a Federação Internacional de Lutas Associadas (FILA, hoje United World Wrestling, UWW), então responsável pela regulação, dentre outros estilos de luta, da luta greco-romana e da luta livre olímpica, decidiria, em 1968, passar a regular internacionalmente também o sambô, com o primeiro campeonato mundial da modalidade sendo realizado em 1973.

Algumas federações nacionais, porém, não ficariam satisfeitas com a política da FILA para o sambô, e, em 1985, decidiriam romper com ela e, com a ajuda do Comitê Desportivo Soviético, fundar a Federação Internacional de Sambô Amador (FIAS, da sigla em francês). Aos poucos, todos os membros ligados ao sambô da FILA foram migrando para a FIAS, até que, em 1990, a FILA decidiria deixar de regular o sambô internacionalmente, com a FIAS passando a ser a única federação internacional desse esporte.

Mas esperem que tem mais: no início da década de 1990, começariam a surgir desentendimentos dentro da FIAS em relação às regras do sambô, e dois grupos surgiriam: a "FIAS oriental", liderada pela Rússia, e composta pelas federações que preferiam um sambô mais tradicional, e a "FIAS ocidental", liderada pelos Estados Unidos e composta pelas federações que queriam uma modernização do sambô. Na prática, a partir de 1993, passariam a existir duas federações chamadas FIAS, uma com sede em Moscou e uma com sede em Nova Iorque, ambas com seus próprios membros, organizando seus próprios campeonatos, e clamando para si o direito de ser a única federação internacional de sambô. Essa dualidade duraria até 2005, quando a FILA chegaria a um acordo com a "FIAS ocidental" e voltaria a regular o sambô, dessa vez com as regras usadas nos Estados Unidos - na prática, continuariam existindo duas federações internacionais de sambô, mas agora uma delas se chamava FILA e a outra se chamava FIAS.

Esse novo arranjo, entretanto, duraria pouquíssimo: em 2008, sem nenhuma explicação, a FILA decidiria parar de regular o sambô, o que levaria todos os antigos membros da "FIAS ocidental" a migrar para a FIAS (que, na prática, era a "FIAS oriental"). Como vocês devem estar imaginando, isso não deu muito certo, e os conflitos internos recomeçaram, somente cessando em 2014, quando FILA e FIAS assinaram um novo acordo, dessa vez prevendo que a FIAS era a única federação internacional de sambô, mas que devia espelhar a forma como o regulava na forma como a FILA fazia com suas lutas. Estados Unidos e Canadá não concordaram com esse acordo, e, graças a isso, até hoje a Associação Americana de Sambô (ASA) organiza torneios, que não são reconhecidos pela FIAS, com as regras mais populares nos Estados Unidos. A ASA, entretanto, é filiada à FIAS, o que significa que os lutadores norte-americanos e canadenses, se quiserem, podem participar normalmente dos torneios da FIAS - desde que, evidentemente, lutem de acordo com as regras da FIAS quando o fizerem.

Atualmente, na teoria, a FIAS, que hoje conta com 86 membros dos cinco continentes, incluindo o Brasil, é a única federação internacional do sambô; na prática, entretanto, existem diversas variações do sambô, com três delas sendo consideradas as principais. O sambô regulado pela FIAS, e que será discutido nesse post, é conhecido como sambô desportivo (bor'ba sambo, que traduz para "luta sambô"), e é um esporte semelhante ao judô, mas que não permite técnicas de estrangulamento, apenas de imobilização. Já o sambô regulado pela ASA é conhecido como sambô estilo livre, e tem uma ampla variedade de técnicas de estrangulamento, inclusive algumas que não existem no judô ou jiu-jitsu. Finalmente, temos o sambô de combate (boyevoye sambo), o mais parecido com o sambô original criado para o Exército Vermelho, e que faz uso não somente de arremessos e de técnicas de solo, mas também de chutes, socos, cotoveladas, joelhadas e cabeçadas. Originalmente, o sambô de combate não era esporte, mas, em 2001, foi reconhecido como tal pela FIAS, e, desde 2004, é regulado também pela Federação Mundial de Sambô de Combate (WCSF, da sigla em inglês).

O uniforme do sambô se chama kurtka ("jaqueta" em russo), mas também é conhecido como sambovka, palavra que significa "roupa de sambô". à primeira vista, ele se parece com um judogi, mas com shorts ao invés de calças; na verdade, o kurtka tem esse nome porque sua parte principal é uma jaqueta, até parecida com a camisa do judogi, mas bem mais justa, mais curta e mais rígida. A jaqueta deve ter mangas que vão somente até os punhos, e seu comprimento abaixo da cintura deve ser o mesmo comprimento das mangas; ela é totalmente aberta na frente, devendo ser fechada com uma faixa amarrada na cintura, que, diferentemente do que ocorre com um gi, para maior firmeza no fechamento, passa por aberturas na jaqueta, semelhantes às que existem nas nossas calças para passarmos o cinto. O restante do uniforme é composto por um short curto de lycra e sapatilhas especiais do mesmo tipo usado na luta olímpica - mulheres podem usar uma camiseta branca por baixo da jaqueta, para evitar exposições indesejadas. No sambô, um dos lutadores sempre usa uniforme azul, enquanto o outro sempre usa uniforme vermelho. A jaqueta, o short e a faixa devem ser da mesma cor, mas as sapatilhas podem ser pretas. O sambô não possui um sistema de faixas como o do judô ou caratê, mas lutadores cuja grande técnica seja reconhecida podem ser nomeados Mestre do Esporte pela FIAS ou WCSF; Mestres do Esporte não possuem nenhum elemento em seu uniforme para caracterizá-los como tal.

Assim como em outras lutas desportivas, no sambô os lutadores são divididos em categorias de peso, para assegurar o equilíbrio das lutas. Atualmente a FIAS reconhece nove categorias de peso para o masculino e nove para o feminino. Para o masculino, as categorias são até 52 kg, até 57 kg, até 62 kg, até 68 kg, até 74 kg, até 82 kg, até 90 kg, até 100 kg e acima de 100 kg. No feminino são até 48 kg, até 52 kg, até 56 kg, até 60 kg, até 64 kg, até 68 kg, até 72 kg, até 80 kg e acima de 80 kg.

Uma luta de sambô é oficiada por um árbitro que fica na área de luta junto com os atletas; diferentemente de em outras lutas desportivas, o árbitro não sinaliza seus comandos com palavras, mas sim soprando em um apito. O árbitro pode interromper a luta e ordenar que os lutadores voltem para as posições iniciais toda vez que um ou ambos os lutadores saiam da área de luta, quando um dos lutadores necessitar de atendimento médico ou de arrumar seu uniforme, caso ambos os lutadores estejam deitados mas nenhuma ação efetiva esteja sendo tomada, ou caso um lutador use um golpe inválido ou quebre as regras e precise ser advertido. Além do árbitro principal, a luta conta com um árbitro assistente que a acompanha ao lado da área de luta, auxiliando o árbitro no caso de punições e infrações, e com uma mesa de três juízes que acompanham a luta sentados e fazem o registro da pontuação.

A área de luta do sambô não tem um nome próprio, e costuma ser chamada, por influência da luta olímpica, de mat. O mat deve ser um quadrado de no mínimo 11 e no máximo 14 m de lado, feito de material sintético anti-derrapante com no mínimo 5 cm de espessura; dentro desse quadrado é traçado um círculo de 9 m de diâmetro, que será a área válida de luta. A linha que traça esse círculo faz parte da área válida, e deve ter entre 10 cm e 1m de largura. No centro do círculo deve haver um outro círculo, de 1 m de diâmetro, que determina as posições iniciais dos lutadores - um de frente para o outro, cada um com um dos pés sobre o círculo menor. Assim como na luta olímpica, cada lutador tem direito a um canto do quadrado, o do lado esquerdo da mesa sendo o do lutador de vermelho e o diagonalmente em frente a este sendo o do de azul, com os lutadores se dirigindo para seus cantos antes do início e após o final da luta e toda vez que precisarem de atendimento médico. A FIAS permite que sejam usados mats elevados, desde que eles tenham no máximo 1 m de altura e as laterais façam um ângulo de 45 graus com o solo. Ao redor do mat, contando do ponto onde a lateral toca o solo no caso de ele ser elevado, deve haver uma área de segurança de 1 m sem qualquer elemento. A FIAS permite que até dois mats sejam usados simultaneamente em torneios oficiais.

Durante a luta, os lutadores podem assumir duas posições, a posição de pé e a posição deitado. A posição de pé ocorre quando o lutador está tocando o solo apenas com as solas dos pés; se ele tocar o solo com qualquer outra parte do corpo, estará na posição deitado - mesmo que esteja, por exemplo, ajoelhado ou sentado. Alguns golpes e ações só podem ser tomadas com ambos os lutadores na posição de pé, e outras com ambos na posição deitado, sendo advertido o lutador que usar um golpe ou executar uma ação consigo ou com o oponente na posição incorreta.

Os principais golpes do sambô são os arremessos, técnicas usadas quando o lutador está na posição de pé e que visam desequilibrar e derrubar o oponente, colocando-o na posição deitado. Uma vez que um arremesso tenha sido bem sucedido, o lutador que o utilizou deve também passar para a posição deitado, não sendo permitido que um dos lutadores lute de pé e o outro deitado. Um arremesso é considerado "perfeito" quando o lutador permanece na posição de pé após o oponente assumir a posição deitado, e "imperfeito" caso ambos terminem a ação deitados. Existem também os contra-arremessos, com os quais um lutador que está sendo arremessado, antes de ficar em posição deitado, pode tentar derrubar o lutador que o estava derrubando, sendo o contra-arremesso bem sucedido caso o lutador que usou o arremesso originalmente passe para a posição deitado antes do que foi arremessado. Para efeitos de pontuação, um contra-arremesso é considerado um arremesso imperfeito.

Uma vez que ambos os lutadores estejam deitados, eles podem tentar as técnicas de imobilização, que consistem em segurar ou puxar um braço ou perna do oponente usando uma técnica válida do sambô. Com ambos os lutadores deitados, um deles também pode tentar o hold down, uma técnica na qual ele se deita por cima do oponente e não permite que o oponente escape; o objetivo é manter o hold down, sem o oponente escapar, por 20 segundos, após os quais o árbitro interromperá a luta e ordenará que ambos voltem às posições iniciais, podendo também, entretanto, um lutador ganhar pontos por um hold down incompleto, do qual o oponente conseguiu escapar antes dos 20 segundos. Considera-se que um lutador escapou da imobilização assim que ele reassume a posição de pé, e que ele escapou do hold down assim que não estiver mais imobilizado sob o oponente, mesmo que continue deitado. Um lutador que esteja sentindo dor durante uma imobilização pode desistir da luta por "imobilização dolorida", bastando, para isso, gritar a palavra yes ou bater no chão duas vezes seguidas com a mão espalmada ou a sola do pé enquanto está sendo imobilizado.

Uma luta de sambô dura 5 minutos no masculino, 4 minutos no feminino, ou 3 minutos se for uma luta da repescagem, não importando se for masculina ou feminina. O relógio para toda vez que o árbitro interrompe a luta, voltando a correr quando ele a reinicia; no caso de atendimento médico, há um tempo limite de dois minutos, com o lutador sendo desclassificado caso não esteja apto a lutar após esse período - além disso, cada lutador só pode pedir atendimento médico uma vez por luta, sendo desclassificado caso peça mais de um. Se, a qualquer momento, um dos lutadores tiver oito pontos a mais que o outro, o árbitro deve interromper a luta imediatamente, declarando o lutador com mais pontos vencedor, independentemente do tempo restante. Ao fim do tempo regulamentar, o lutador com mais pontos será o vencedor da luta; caso ambos estejam empatados, vence o que ganhou mais pontos por arremessos, seguido de mais pontos por imobilizações, quem conseguiu uma imobilização por último, quem teve menos penalidades, e quem não recebeu a primeira penalidade. Caso o empate persista, a mesa escolhe o vencedor baseada na técnica apresentada por cada um.

Para pontuar no sambô, um lutador deve primeiro realizar um arremesso e, antes de o oponente se levantar, usar uma técnica de imobilização com sucesso. Caso, antes de usar a técnica de imobilização, o lutador consiga um arremesso perfeito com o qual o oponente caiu de lado, ou um arremesso imperfeito com o qual o oponente caiu de costas, ele ganhará 4 pontos. Caso, antes de usar a técnica de imobilização, o lutador consiga um arremesso perfeito com o qual o oponente caiu em qualquer posição que não seja de costas ou de lado, ou um arremesso imperfeito com o qual o oponente caiu de lado, ele ganha 2 pontos. Caso, antes de usar a técnica de imobilização, o lutador consiga um arremesso imperfeito com o qual o oponente caiu em qualquer posição que não seja de costas ou de lado, ele ganha 1 ponto. Se não conseguir uma imobilização bem sucedida, mas conseguir um hold down, o lutador também pode ganhar pontos, que independem de como o arremesso foi feito: um hold down completo, que dure os 20 segundos, vale 4 pontos, enquanto um hold down que dure entre 10 e 19 segundos vale 2 pontos - holds down entre 1 e 9 segundos não valem pontos.

Durante a luta, um lutador também pode ser penalizado por falta de desportividade (ficar apenas esperando o oponente atacar, ou claramente fugir para que não seja atacado), por sair voluntariamente (e não em decorrência de um golpe) da área de luta, por falso ataque (fingir que vai atacar apenas para quebrar a defesa do oponente), por passar para a posição deitado sem tentar executar um arremesso, ou por "enrolar" enquanto estiver na posição deitado, sem claramente tentar imobilizar o oponente. Em qualquer dessas condutas, o lutador deve primeiro ser advertido, e, se efetuar novamente a mesma conduta, receberá uma penalidade. Caso o lutador use um golpe inválido, receberá a penalidade instantaneamente, sem direito a advertência; já se ele sair da área de luta para evitar ter que desistir por imobilização dolorida, terá direito a duas advertências, somente recebendo a penalidade na terceira vez em que o fizer. Da primeira vez em que um lutador recebe uma penalidade, seu oponente ganhará um ponto. Caso o lutador receba uma segunda penalidade, o oponente ganhará dois pontos, para um total de três. Um lutador que receba uma terceira penalidade é automaticamente desclassificado. Um lutador também pode ser desclassificado instantaneamente, independentemente de quantas penalidades tenha, por usar golpes que atinjam o oponente, como socos ou chutes; por desrespeitar o árbitro ou as regras do sambô; ou por executar golpes que exponham o oponente a risco de lesões ou morte, como arremessá-lo de cabeça no chão, torcer seus membros, ou sufocá-lo durante uma imobilização.

É possível vencer uma luta de sambô por nocaute, o que nesse esporte é chamado de "vitória total". Existem quatro tipos de vitória total: quando o oponente é desclassificado, seja por penalidades ou por ultrapassar o tempo do atendimento médico; quando o oponente desiste da luta devido a uma imobilização dolorida; quando o lutador tem oito pontos a mais que o oponente; ou quando o lutador consegue um "arremesso total" - que consiste em um arremesso perfeito com o qual o oponente cai de costas. Um arremesso total interrompe a luta e dá a vitória total imediatamente ao lutador que o executou, mas só é assim considerado caso os três membros da mesa concordem que o arremesso foi perfeito e o oponente caiu claramente de costas.

Torneios de sambô da FIAS podem ser realizados no sistema de mata-mata ou de grupos. No sistema de mata-mata, os lutadores são emparelhados dois a dois, e os vencedores vão avançando; os perdedores, por outro lado, não necessariamente serão eliminados, já que a FIAS utiliza um sistema de repescagem, permitindo, inclusive, que se escolha entre dois métodos: no primeiro, todo mundo que perde uma luta vai para a repescagem, enquanto no segundo somente aqueles cujo adversário que os derrotou ganhar sua luta seguinte é que vão (como no judô). Em ambos os casos, a repescagem dará direito a duas Medalhas de Bronze, cada uma delas disputada contra um dos perdedores das semifinais - sendo que a luta da Medalha de Bronze não conta como uma luta de repescagem, e, portanto, não dura 3 minutos, e sim 4 ou 5. Dependendo do número de lutadores em um torneio, os mais bem ranqueados podem começar direto na segunda ou na terceira rodada.

Já no sistema de grupos, os lutadores, na primeira fase, são divididos em grupos, e devem enfrentar todos os demais lutadores de seu grupo, ganhando pontos por suas vitórias. Após todos terem se enfrentado, o melhor ou os dois melhores, de cada grupo passa para uma segunda fase de mata-mata. O sistema de grupos não dá direito a repescagem, e ambos os perdedores das semifinais ganham uma Medalha de Bronze cada; caso sejam apenas dois grupos, é possível que os primeiros colocados dos grupos disputem a Medalha de Ouro e os segundos colocados disputem a Medalha de Bronze, sem fase de mata-mata. Uma curiosidade do sistema de grupos é a pontuação conferida às lutas para se determinar o melhor de cada grupo: um lutador que ganhe uma luta por vitória total recebe 4 pontos, enquanto o perdedor não recebe nada; um lutador que ganhe uma luta por vitória no número de pontos recebe 3 pontos, e o perdedor, caso tenha pontuado, recebe 1 ponto, e, caso não ("perdeu de zero"), não recebe nada; um lutador que ganhe uma luta no desempate recebe 2 pontos, e o perdedor, 1 ponto.

Além do sambô individual, a FIAS reconhece o sambô por equipes e o sambô por times. No sambô por equipes, que podem ser masculinas ou femininas, mas não mistas, cada equipe é formada por cinco lutadores, cada um de uma categoria de peso diferente, com as categorias válidas sendo determinadas pela organização do torneio; a cada embate, a equipe vencedora será aquela cujos integrantes vencerem três lutas primeiro. Já a competição por times consiste em simplesmente atribuir uma pontuação aos lutadores de cada país igual à sua posição na competição individual do mesmo campeonato (primeiro lugar 1 ponto, segundo lugar 2 pontos etc.); ao fim da competição individual, o país com menos pontos será o campeão da competição por times.

O mais importante campeonato de sambô é o Campeonato Mundial, disputado anualmente desde 1973 (exceto nos anos de 1976, 1977, 1978 e 1980); entre 1973 e 1984, ele foi organizado pela FILA, entre 1985 e 1993 pela primeira versão da FIAS, entre 1994 e 2004 pela "FIAS oriental", e desde 2005 pela FIAS atual - entre 1994 e 2004 houve um segundo Campeonato Mundial de Sambô, mas, hoje, essas edições são consideradas parte do Campeonato Mundial de Sambô Estilo Livre da ASA, não tendo nada a ver com a FILA ou a FIAS. A Rússia, nada surpreendentemente, é a maior vencedora sem qualquer sombra de dúvida, com mais de 200 medalhas de ouro conquistadas até hoje, contra apenas 15 (sim, quinze, não esqueci nenhum dígito) de Belarus, a segunda colocada.

O sambô não é um esporte reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional, e, portanto, ainda não pode pleitear um lugar nas Olimpíadas; um dos motivos para o acordo firmado entre FILA e FIAS em 2014 era tentar encontrar uma "brecha na lei" que permitisse que o sambô entrasse no programa das Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, pela janela, como disciplina da luta olímpica, e não como um esporte novo - como isso não colou, e como atualmente a FILA está mais preocupada em garantir que a luta greco-romana e a luta livre continuem no programa, ao invés de incluir uma luta nova, a FIAS vai ter de se conformar e fazer o caminho normal para os esportes que desejam ser reconhecidos e incluídos. Atualmente, a FIAS também não faz parte da IWGA, e, portanto, o sambô não pode ser incluído nos World Games; no passado, porém, ela já fez, entre sua fundação em 1985 e o racha que deu origem às versões ocidental e oriental da federação, em 1993 - com isso, o sambô fez parte do programa de duas edições dos World Games, justamente as de 1985, em Londres, Inglaterra, e de 1993, em Haia, Holanda.

Para terminar, vale citar que a FIAS também regula, desde 2001, o sambô de combate, e, desde 2014, o sambô de praia. O sambô de combate da FIAS segue as mesmas regras do sambô desportivo, mas se parece com uma luita de MMA, podendo ser usados socos, chutes, cotoveladas, joelhadas, cabeçadas, estrangulamentos e até mesmo técnicas de imobilização com o oponente de pé. As únicas partes do corpo que não podem ser atingidas são a nuca, o pescoço, o cóccix, o ânus e as genitais. Os golpes que atingem o oponente são usados apenas para derrubá-lo, pois, assim como no sambô desportivo, só há pontuação caso o oponente sofra uma imobilização bem sucedida na posição deitado. Devido aos golpes que atingem o oponente, o uniforme do sambô de combate é mais protegido, contando - além da jaqueta, short, sapatilhas, faixa e da camiseta das mulheres - com um capacete do mesmo tipo usado no kickboxing, luvas especiais que protegem as mãos mas deixam o movimento dos dedos livre para efetuar as imobilizações, caneleiras, e protetores para gengiva, virilhas e, no caso das mulheres, seios. As categorias de peso são as mesmas do masculino, inclusive para o feminino.

Já o sambô de praia é disputado em um quadrado de 8 m de lado, com os ângulos demarcados por bandeirolas vermelhas, em uma superfície feita de areia. A jaqueta de ambos os lutadores é sempre branca, e, ao invés de sapatilhas, são usadas meias especiais abertas nos dedos e no calcanhar; faixas, shorts e meias são sempre azuis para um lutador, vermelhas para o outro. As categorias de peso para o masculino são até 52 kg, até 62 kg, até 74 kg, até 90 kg e acima de 90 kg, e para o feminino são até 48 kg, até 56 kg, até 64 kg, até 72 kg e acima de 72 kg. A luta é sempre feita na posição de pé, e o objetivo é levar o oponente para a posição deitado com um arremesso ou contra-arremesso válido; não há pontuação, o primeiro a ser arremessado com sucesso perde. Cada luta dura no máximo 3 minutos; se, após 2 minutos, não houver um vencedor, a mesa escolherá qual lutador está mais ativo, ou seja, tentando realizar mais arremessos com a melhor técnica, e, se a luta permanecer sem ninguém ser arremessado, esse escolhido como mais ativo será o vencedor.
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David Bowie

Eu já pensei em falar aqui sobre Bowie duas vezes. A primeira eu não lembro quando foi, e também não lembro por que eu desisti. A segunda foi quando ele faleceu, mas eu estava viajando, só cheguei na semana seguinte, e achei que o momento havia passado. Eu gosto pra caramba de suas músicas, então, é até de certa forma estranho que, perto do post 750, eu ainda não tenha feito um sobre ele. Para corrigir essa injustiça, hoje é dia de David Bowie no átomo!


Bowie nasceu David Robert Jones, em 8 de janeiro de 1947, em Brixton, Inglaterra; sua mãe, de origem irlandesa, era garçonete, e seu pai trabalhava em uma organização de caridade que ajudava crianças pobres. Desde criança, ele sempre foi considerado muito criativo, e, aos seis anos, já fazia parte do coral da escola e chamava atenção tocando flauta doce. Aos nove, ele decidiria entrar também para o grupo de dança da escola, com seus passos sendo considerados imaginativos e suas interpretações musicais vividamente artísticas por seus professores. Vendo o interesse do filho por música, seu pai decidiria comprar vários discos de artistas norte-americanos, como Elvis Presley e Little Richard, em uma liquidação, e presenteá-lo. Ele ficaria extremamente empolgado com as músicas, e se interessaria em aprender piano e ukulele. Aos 11 anos, ele ingressaria na Bromley Technical High School, onde cursaria artes, música e design. Três anos depois, ele se interessaria por jazz, e decidiria fazer aulas de saxofone. No ano seguinte, ocorreria um episódio que marcaria para sempre sua vida: brigando com seu melhor amigo, George Underwood, por causa de uma garota, ele receberia um soco no olho esquerdo que faria com que ele ficasse quatro meses hospitalizado e tivesse de passar por quase dez cirurgias para não perder a visão; mesmo assim, ele ficaria com o senso de profundidade prejudicado, e sua pupila esquerda ficaria permanentemente dilatada, o que passava a impressão de que cada um de seus olhos era de uma cor diferente. Apesar disso, ele e Underwood continuariam amigos, e Underwood até seria o artista responsável pelas capas de alguns álbuns de Bowie.

Aos 15 anos, Bowie montaria sua primeira banda, The Konrads (da qual Underwood também faria parte), que tocava rock em casamentos e outros eventos destinados a jovens. Desanimado com a falta de ambição de seus colegas de banda, e já tendo decidido que se tornaria um artista famoso, após concluir a escola Bowie começaria a trabalhar como assistente de eletricista, sairia dos Konrads e se uniria a uma segunda banda, The King Bees. Ele escreveria uma carta ao empresário John Bloom, do ramo de máquinas de lavar roupa, pedindo para que ele "fizesse com os King Bees o que Brian Epstein fez com os Beatles", ou seja, financiá-los no início de sua carreira; Bloom não atenderia ao pedido, mas apresentaria Bowie ao produtor Leslie Conn, que, gostando da música da banda, conseguiria que ele gravasse um single pela gravadora Dick James Music - curiosamente, a dona do selo Northern Songs, que lançava as músicas dos Beatles.

Esse single, chamado Liza Jane e creditado a Davie Jones and the King Bees, não faria nenhum sucesso. Insatisfeito com a insistência de outros membros da banda em querer gravar blues, Bowie deixaria os King Bees um mês após seu lançamento, e se uniria a outra banda, The Manish Boys, que também lançaria um single pela DJM, I Pity the Fool, um cover de Bobby Bland, que faria ainda menos sucesso que Liza Jane. Um mês após o lançamento, ele deixaria os Manish Boys e se uniria a The Lower Third, um trio de blues com forte influência da banda The Who, que também lançaria um single pela DJM, You've Got a Habit of Leaving, que também não faria sucesso nenhum, o que levaria Conn a desistir de investir nas bandas de Bowie. Ele ainda ficaria um ano com o Lower Third, antes de mudar de banda de novo e se unir à The Buzz, que lançaria um single, Do Anything You Say, pela Pye Records.

O single seria mais um fracasso, mas Ralph Horton, o empresário da Buzz, veria talento em Bowie, que havia escrito as duas faixas do single, e o convenceria a seguir carreira solo. Até então, ele usava o nome artístico de Davie Jones, mas já estava insatisfeito com esse nome há algum tempo, por acreditar que as pessoas poderiam confundi-lo com Davy Jones, vocalista da banda The Monkees. Ele escolheria se chamar David Bowie em homenagem ao explorador norte-americano do século XIX James Bowie, que, inclusive, tem um modelo de faca batizada com seu nome, a bowie knife. Horton também apresentaria Bowie a Ken Pitt, que seria seu empresário no início da carreira e conseguiria para ele um contrato com a gravadora Deram. Seu primeiro trabalho solo lançado pela Deram seria um single, The Laughing Gnome, lançado em abril de 1967, e que seria mais um fracasso. Em junho do mesmo ano, ele lançaria seu primeiro álbum, chamado simplesmente David Bowie, que teria um estilo psicodélico e traria como músicas de trabalho Rubber Band e Love You till Tuesday. Infelizmente, o álbum, lançado no mesmo dia que Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, também seria um fracasso, o que levaria a Deram a encerrar o contrato com Bowie no ano seguinte.

Pouco antes do lançamento de seu primeiro álbum, Bowie começaria a fazer aulas de dança com Lisa Kemp, durante as quais conheceria Hermione Farthingale, com quem se envolveria romanticamente até o início de 1969, e com quem formaria um trio folk, acompanhados de Josh Hutchinson. Pouco antes de terminarem o relacionamento, para que ela se mudasse para a Noruega, onde começaria uma carreira de atriz, Bowie e Farthingale atuariam juntos em um filme também chamado Love You till Tuesday, que contaria com várias canções de Bowie na trilha sonora, mas que, devido a um imbróglio contratual, não seria lançado até 1984. Após terminar com Farthingale, Bowie começaria a atuar em comerciais, e participaria de shows acompanhando a banda Tyrannosaurus Rex. Durante esses shows, ele conseguiria um contrato com a gravadora Philips, pela qual lançaria seu segundo álbum, em novembro de 1969.

Achando que o segundo álbum seria o começo definitivo de sua carreira, Bowie optaria por também chamá-lo de David Bowie. Acreditando que isso causaria confusão nos Estados Unidos, a Mercury, gravadora que o lançaria por lá, decidiria chamá-lo de Man of Words/Man of Music. Em 1972, ao relançar a discografia de Bowie até então, a gravadora RCA o rebatizaria para Space Oddity, nome de sua principal música de trabalho, e pelo qual o álbum é mais conhecido hoje. Além de Space Oddity (a famosa música do Major Tom, uma das mais conhecidas de Bowie), o álbum continha a música de trabalho Memory of a Free Festival, Letter to Hermione, motivada por seu relacionamento com Farthingale, e uma "faixa secreta", Don't Sit Down - da qual, aparentemente, ninguém avisou a Mercury, já que ela ficaria de fora da versão norte-americana do álbum. O álbum, de fato, era totalmente diferente do anterior, trazendo uma mistura de folk e rock progressivo, e, apesar de Space Oddity, a música, ter alcançado o quinto lugar na parada britânica, o álbum, quando de seu lançamento, não fez muito sucesso - embora o relançamento de 1972 tenha tido vendagem bem melhor.

Em abril de 1969, Bowie conheceria a modelo e atriz Angie Barnett, com quem, durante a gravação de seu segundo álbum, começaria um relacionamento amoroso. Eles se casariam no início de 1970, e ela exerceria grande influência sobre suas decisões profissionais, o que irritaria Pitt. Bowie também sentia falta de uma banda fixa, com quem pudesse formar amizades, e convidaria um baterista, um guitarrista e um baixista para formar uma banda chamada The Hype. A primeira apresentação da banda seria desastrosa, porém, e todos concordariam que Bowie deveria se apresentar como um artista solo, com a banda apenas dando suporte, sem um nome próprio. Pouco depois disso, Bowie se desentenderia com Pitt e o demitiria, contratando Tony Defries. Pitt o processaria pedindo uma gorda compensação financeira, e o processo se arrastaria durante anos.

Em novembro de 1970, Bowie lançaria seu terceiro álbum, The Man Who Sold the World, pela Mercury. Novamente com uma grande mudança de estilo, ele traria um som pesado e psicodélico, com letras que falavam de esquizofrenia, paranoia e alucinações. O álbum mais uma vez não seria especialmente bem sucedido, embora sua faixa-título seja hoje um dos maiores sucessos da carreira de Bowie. A faixa-título, aliás, seria a única música de trabalho, com a gravadora preferindo levar Bowie para ser entrevistado em diversas rádios para promovê-lo, ao invés de usar suas faixas. Bowie comparecia a essas entrevistas vestido de mulher, com o mesmo visual que usava na capa da versão britânica do álbum, em uma estratégia da gravadora, que queria explorar sua imagem, considerada andrógina.

Logo após o lançamento de The Man Who Sold the World, Bowie assinaria com a RCA, pela qual lançaria seu quarto álbum, Hunky Dory, em dezembro de 1971. Com um estilo mais pop e letras mais calmas, o álbum tinha como músicas de trabalho Changes, Andy Warhol e Life on Mars?, essa última ainda motivada por seu relacionamento com Farthingale. Uma das músicas, Kooks, Bowie escreveria em homenagem a seu filho, Duncan Zowie Haywood Jones (hoje conhecido como o diretor de cinema Duncan Jones, de Lunar, Contra o Tempo e Warcraft: O Primeiro Encontro entre Dois Mundos), que nasceria em 30 de maio de 1971.

Em 1971, durante sua turnê pelos Estados Unidos para promover The Man Who Sold the World, Bowie criaria um personagem chamado Ziggy Stardust, o "ídolo pop definitivo", uma mistura, segundo ele, de Iggy Pop com Lou Reed, que havia viajado pelo espaço e acabara de chegar de Marte. Bowie se apresentaria pela primeira vez fantasiado como Stardust - com o cabelo pintado de vermelho e maquiagem quase feminina - em fevereiro de 1972, com sua banda sendo renomeada para The Spiders from Mars ("as aranhas de Marte"). O show faria um gigantesco sucesso, e catapultaria Bowie finalmente para o estrelato. Seu quinto álbum, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, lançado em junho de 1972, combinaria a energia de The Man Who Sold the World com o pop melódico de Hunky Dory, e se tornaria o primeiro álbum bem sucedido da carreira de Bowie, alcançando o quinto lugar na parada britânica e quase entrando para o Top 20 da Billboard, chegando à 21a posição; em vendas, o álbum ganharia um Disco de Platina no Reino Unido e um Disco de Ouro nos Estados Unidos. Sua primeira música de trabalho, Starman, seria um dos maiores sucessos da carreira de Bowie, e seu single alcançaria o décimo lugar da parada britânica; as outras músicas de trabalho foram Suffragette City e Rock 'n' Roll Suicide, mas também merecem ser citadas Ziggy Stardust e Hang On to Yourself.

Enquanto estava em turnê pelos Estados Unidos promovendo Ziggy Stardust, Bowie escreveria as canções que fariam parte de seu sexto álbum, Aladdin Sane, lançado em abril de 1973, e que tinha Bowie, na capa, com o que é talvez seu visual mais icônico, aquele no qual ele tem um raio colorido pintado no rosto. Trazendo The Jean Genie, Drive-In Saturday, Time e Let's Spend the Night Together como músicas de trabalho, o álbum não agradaria à crítica, que o consideraria pouco inspirado, mas, como era o primeiro álbum de Bowie pós-estrelato, teria excelentes vendas, se tornando seu primeiro a alcançar o topo da parada britânica e a entrar para o Top 20 da Billboard (na 17a posição), rendendo Disco de Ouro tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos. Em outubro de 1973, ele lançaria Pin Ups, um álbum somente de covers, que também alcançaria o topo da parada britânica e renderia um Disco de Ouro no Reino Unido, mas não seria tão bem sucedido no restante do planeta.

Os shows de Bowie começavam a ficar cada vez mais teatrais, e ele começaria a se cansar de interpretar Ziggy Stardust. Em julho de 1973, ele declararia estar aposentando o personagem após um show em Londres. Esse show seria gravado e se tornaria um documentário, chamado Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, e um álbum ao vivo, Ziggy Stardust: The Motion Picture; ambos, porém, permaneceriam inéditos por dez anos, com o filme somente estreando nos cinemas em dezembro de 1983 (após uma pré-estreia mal sucedida em agosto de 1979), dois meses após a RCA finalmente concordar em lançar o álbum - o que, segundo boatos, ainda não havia feito por não ter concordado com a decisão de Bowie de abandonar o personagem.

No início de 1974, Bowie se mudaria para os Estados Unidos, morando um tempo em Nova Iorque antes de se mudar para Los Angeles. A música norte-americana, especialmente o soul e o funk, exerceria grande influência sobre seu sétimo álbum, Diamond Dogs, lançado em maio de 1974, com as músicas de trabalho Rebel Rebel, Diamond Dogs e 1984. O álbum alcançaria mais uma vez o topo da parada britânica, e chegaria ao quinto lugar na parada da Billboard, rendendo Disco de Ouro nos Estados Unidos e no Reino Unido. Sua turnê pelos Estados Unidos seria gravada para se transformar em um álbum ao vivo, David Live, lançado em outubro de 1974, e um documentário, Cracked Actor, exibido em janeiro de 1975 pela BBC. Desde o início da década de 1970, Bowie já era viciado em cocaína; a turnê de Diamond Dogs seria o período no qual ele estaria mais drogado, se apresentando em muitos shows como se nem estivesse lá.

Durante um intervalo entre os shows que passou na Filadélfia, Bowie escreveria as canções de seu oitavo álbum, Young Americans, lançado em março de 1975. Mais uma guinada radical em sua carreira, o álbum tinha forte influência do soul e do rhythm and blues, soando quase como o de um artista negro. Muitos dos fãs antigos deixariam de acompanhá-lo após esse lançamento, mas, em compensação, toda uma nova leva de fãs seria conquistada, com Bowie alcançando expressiva popularidade também nos Estados Unidos. Sua segunda música de trabalho (sendo a primeira a faixa-título), Fame, escrita em co-autoria com John Lennon, seria o primeiro single de Bowie a alcançar o topo da parada da Billboard. O álbum seria nono lugar na Billboard e segundo na parada britânica, rendendo mais um Disco de Ouro no Reino Unido e um nos Estados Unidos.

Em 1976, Bowie ganharia seu primeiro papel no cinema ao estrelar o filme O Homem que Caiu na Terra, dirigido por Nicolas Roeg e adaptado de um romance de Walter Tevis, no papel de Thomas Jerome Newton, um alienígena que fica rico morando na Terra e vendendo sua tecnologia avançada para os humanos. Inspirado nesse personagem, Bowie criaria uma nova personalidade, chamada The Thin White Duke ("o duque magro e branco"), passando a se apresentar em seus shows a interpretando, como fazia com Ziggy Stardust. Seu vício em cocaína, porém, começava a cobrar um preço, com suas performances cada vez deixando mais a desejar, e suas entrevistas ficando cada vez mais desconexas - ele elogiaria Hitler em uma delas, e, ao saber que o ditador espanhol Francisco Franco havia sido deposto enquanto estava sendo entrevistado na TV, se recusou a permitir que a entrevista fosse interrompida para que o jornalista falasse ao vivo com o correspondente na Espanha. Ele também demitiria Defries sem mais nem menos, sendo alvo de uma segunda ação ao mesmo estilo da de Pitt, e colocaria seu advogado, Michael Lippman, para ser seu novo empresário - apenas para demiti-lo um ano depois e ser alvo de uma terceira ação.

O nono álbum de Bowie, Station to Station, seria lançado em janeiro de 1976, trazendo uma mistura de rock com ritmos negros norte-americanos como o soul e o funk. Suas músicas de trabalho seriam Golden Years, Station to Station, TVC 15, Stay e Wild Is the Wind. O álbum renderia mais um Disco de Ouro nos Estados Unidos e um no Reino Unido, alcançando o quinto lugar na parada britânica e o terceiro na Billboard. A turnê de promoção do álbum, mesmo com Bowie já tendo abandonado o Thin White Duke, seria pontuada de várias polêmicas, nas quais Bowie seria frequentemente apontado como apoiador do fascismo e simpatizante do nazismo - incidentes que ele atribuiria a seu vício em cocaína, que, segundo ele, nublava seu pensamento e fazia com que ele falasse coisas com as quais, na verdade, não concordava.

Para tentar se livrar do vício, Bowie se mudaria para a Suíça, adotaria a pintura e a fotografia como hobbies, patrocinaria várias mostras de arte, e começaria a trabalhar em uma auto-biografia. No final de 1976, ele se mudaria para Berlim Ocidental, para trabalhar em seu álbum seguinte junto com Iggy Pop, com quem decidiu dividir um apartamento - Bowie e Pop acabariam sendo co-autores de várias músicas não somente do álbum seguinte de Bowie, mas também dos dois primeiros álbuns solo de Pop - e com Brian Eno, com quem começaria uma parceria duradoura. Com o nome de Low, o décimo álbum de Bowie seria minimalista e experimental, influenciado pelo som de bandas alemãs como Neu! e Kraftwerk. A RCA torceria o nariz para o álbum, acreditando que ele venderia pouco, e Defries, que tinha interesse nos rendimentos de Bowie, tentaria impedir seu lançamento. Surpreendentemente, porém, Low alcançaria o segundo lugar na parada britânica e renderia um Disco de Ouro no Reino Unido, chegando também à 11a posição da Billboard. Suas músicas de trabalho seriam Sound and Vision, A New Career in a New Town, Be My Wife e Speed of Life.

Em outubro de 1977, Bowie lançaria mais um álbum, "Heroes", no mesmo estilo de Low mas incorporando elementos de rock. Suas músicas de trabalho seriam Beauty and the Beast e a faixa-título, um dos maiores sucessos de sua carreira. O álbum chegaria ao terceiro lugar da parada britânica e ganharia mais um Disco de Ouro, mas alcançaria apenas o 15o lugar na Billboard. Livre do vício em cocaína, ele faria a maior turnê de sua vida até então, em 1978, para promover tanto "Heroes" quanto Low; algumas das apresentações dessa turnê seriam gravadas e dariam origem a mais um álbum ao vivo, Stage, lançado em setembro de 1978. Também em 1978, Bowie protagonizaria o filme Apenas um Gigolô, de David Hemmings, no papel do oficial prusso Paul von Przygodski, que, sem conseguir emprego após retornar para casa depois de lutar na Primeira Guerra Mundial, decide se prostituir no bordel da Baronesa von Semering (Marlene Dietrich).

Em maio de 1979, Bowie lançaria Lodger, álbum bem menos minimalista, mas bem mais experimental que os outros dois, com uma mistura de new wave e world music. Gravado na Suíça, Lodger formaria com Low e "Heroes" uma trilogia que seria conhecida dali por diante como The Berlin Trilogy. Suas músicas de trabalho seriam Boys Keep Swinging, DJ, Yassassin e Look Back in Anger. O álbum alcançaria o quarto lugar na parada britânica e o 20o na Billboard, rendendo mais um Disco de Ouro no Reino Unido. Pouco após seu lançamento, Bowie e Angie se divorciariam.

O álbum seguinte de Bowie, Scary Monsters (and Super Creeps), seria lançado em setembro de 1980. Mesclando art rock, new wave e pós-punk, ele traia Ashes to Ashes, que contava o que aconteceu com Major Tom após os eventos de Space Oddity. A música faria um grande sucesso, alcançando o topo da parada britânica, chamaria atenção para um movimento incipiente conhecido como new romantic, e seu clipe seria extremamente elogiado como um dos mais inovativos da história. As demais músicas de trabalho do álbum, que chegaria ao topo da parada britânica, 12o lugar na Billboard, e renderia um Disco de Platina no Reino Unido, foram a faixa-título, Fashion e Up the Hill Backwards.

Em setembro de 1980, Bowie estrearia na Broadway, protagonizando o musical O Homem-Elefante, Personagem que interpretaria em 157 apresentações. Em 1981, ele gravaria Under Pressure em parceria com o Queen, música que faria grande sucesso em todo o planeta e cujo single alcançaria o topo da parada britânica. No ano seguinte, ele protagonizaria Baal, adaptação da peça de Bertolt Brecht produzida para a TV pela BBC, cuja trilha sonora, toda composta por Bowie, seria lançada em fevereiro de 1982 com o nome de David Bowie in Bertolt Brecht's Baal. Em abril do mesmo ano, estrearia o filme A Marca da Pantera, de Paul Schrader, para o qual Bowie contribuiria para a trilha sonora com a canção Cat People (Putting Out Fire), que faria grande sucesso nos Estados Unidos.

Adotando um estilo mais dançante e mais pop, o álbum seguinte de Bowie, Let's Dance, lançado em abril de 1983, seria o mais bem sucedido de sua carreira, ganhando Disco de Platina nos Estados Unidos e no Reino Unido, chegando ao topo da parada britânica e ao quarto lugar da Billboard. Três de suas músicas de trabalho, Let's Dance, China Girl e Modern Love, entrariam para o Top 20 da Billboard, com Let's Dance alcançando o topo da parada britânica e as outras duas a segunda posição; Without You, lançada já no final de 1983, seria a única a não fazer tanto sucesso. A faixa-título ainda contaria com a luxuosa presença de Stevie Ray Vaughan como guitarrista. Let's Dance também renderia a Bowie seu primeiro Brit Award, o mais importante prêmio conferido aos artistas britânicos, de Melhor Artista Masculino.

Ainda em 1983, Bowie protagonizaria dois filmes. Em Fome de Viver, de Tony Scott, ele seria John, amante da vampira Miriam Blaylock (Catherine Deneuve), que, após ser também transformado em vampiro, descobre que ainda está envelhecendo lentamente, e procura a gerontologista Dra. Sarah Roberts (Susan Sarandon), por quem acaba se apaixonando e formando um triângulo amoroso. Já em Furyo: Em Nome da Honra de Nagisa Oshima, inspirado no livro autobiográfico The Seed and the Sower, de Laurens van der Post, ele seria o Major Jack Celliers, oficial sul-africano parte de um campo de prisioneiros japonês durante a Segunda Guerra Mundial, que luta para se manter vivo.

O décimo-quinto álbum de Bowie, Tonight, de setembro de 1984, teria o mesmo estilo dançante de Let's Dance, e traria colaborações de Bowie com Iggy Pop e com Tina Turner. Sua principal música de trabalho, Blue Jean, seria responsável pelo único Grammy competitivo que Bowie ganhou em vida - e, ainda assim, não por causa da música, mas porque, inspirados nela, Bowie e o diretor Julien Temple fariam um curta-metragem de 20 minutos, lançado diretamente em vídeo, chamado Jazzin' for Blue Jean, que ganharia o Grammy de Melhor Vídeo Musical. As outras músicas de trabalho seriam Tonight e Loving the Alien. O álbum alcançaria o topo da parada britânica e o 11o lugar na Billboard, e seria seu primeiro a vender mais nos Estados Unidos que no Reino Unido, rendendo Disco de Platina na Terra do Tio Sam e Disco de Ouro na Terra da Rainha.

Em 1985, Bowie se apresentaria no concerto Live Aid, para angariar fundos para as crianças famintas da África; gravaria um dueto com Mick Jagger, Dancing in the Street, que alcançaria o topo da parada britânica e o 7o lugar na Billboard; gravaria a música This is Not America para o filme The Falcon and the Snowman, de John Schlesinger; e participaria do filme Um Romance Muito Perigoso, de John Landis, com Jeff Goldblum e Michelle Pfeiffer, em um pequeno papel, como um assassino de aluguel. Em 1986, ele participaria de dois filmes: em abril, teria um pequeno papel em Absolute Beginners, ambientado em 1958, que mostrava as mudanças culturais pelas quais a Inglaterra passava no período, e que seria um fracasso de público e crítica - por outro lado, a canção que Bowie fez para a trilha sonora, também chamada Absolute Beginners, chegaria ao segundo lugar da parada britânica. Já em junho de 1986, ele faria um dos papéis mais famosos de sua carreira, o de Jareth, Rei dos Duendes, antagonista de Labirinto: A Magia do Tempo, de Jim Henson, contribuindo também para sua trilha sonora com com cinco músicas.

O último álbum solo de Bowie na década de 1980, Never Let Me Down, seria lançado em abril de 1987, e considerado pelo próprio músico como o pior de sua carreira. Primeiro lançado pela EMI, para onde Bowie foi após o fim de seu contrato com a RCA em 1985, o álbum renderia Disco de Ouro nos Estados Unidos e Reino Unido, mas não entraria para o Top 20 da Billboard, e chegaria somente ao 7o lugar da parada britânica. Suas músicas de trabalho seriam Day-In Day-Out, Time Will Crawl e Never Let Me Down. A turnê que Bowie faria para promovê-lo, chamada The Glass Spider Tour, e que contaria com Peter Frampton na guitarra, seria a maior de sua carreira; na época, ele seria criticado por usar efeitos especiais e dançarinos demais, mas hoje essa turnê é considerada uma precursora dos shows grandiosos que se popularizariam a partir da década de 1990 com U2 e Madonna. Bowie faria uma pequena parada em sua turnê para interpretar Pôncio Pilates em A Última Tentação de Cristo, de 1988, dirigido por Martin Scorcese.

Em 1989, Bowie decidiria abandonar sua carreira solo e montar uma banda chamada Tin Machine, que faria canções políticas e de protesto. Seu primeiro álbum, Tin Machine, lançado em maio de 1989, alcançaria o terceiro lugar na parada britânica devido à popularidade de Bowie, mas seria um fracasso de crítica, e a turnê para promovê-lo não atrairia muito público. Logo após seu lançamento, Bowie se desentenderia com a EMI e romperia seu contato, assinando com a Victory Music. A banda logo começaria a trabalhar em um segundo álbum, mas Bowie, insatisfeito com o processo criativo, decidiria sair em uma turnê solo chamada Sound + Vision, que faria grande sucesso. A Tin Machine ainda lançaria mais um álbum de estúdio, Tin Machine II, em setembro de 1991, e um álbum ao vivo, Tin Machine Live: Oy Vey, Baby, em julho de 1992, ambos fracassos de crítica e público. Bowie acabaria concluindo que foi um erro abandonar sua carreira solo e a retomaria no final de 1992, com a banda se desfazendo.

Em 1991, Bowie protagonizaria o filme The Linguini Incident, ao lado de Rosana Arquette, como um barman que ajuda a mudar a vida de uma estressada garçonete. Em 1992, ele participaria de um tributo a Freddie Mercury, que falecera um ano antes, no qual interpretou "Heroes", All the Young Dudes e Under Pressure, essa última em dueto com Annie Lennox, que cantou a parte originalmente de Mercury. Pouco depois, ele se casaria com a modelo somali Iman, a quem foi apresentado por um amigo em comum dois anos antes. Após o casamento, ele voltaria a morar nos Estados Unidos; Iman queria morar em Los Angeles, mas eles chegaram à cidade bem no dia em que uma série de protestos praticamente a destruíram, o que fez com que eles tivessem de passar vários dias confinados no hotel, e acabassem mudando de ideia e indo morar em Nova Iorque. Ainda em 1992, ele atuaria em Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer, de David Lynch, "prequência" da série de TV, no papel do agente do FBI Phillip Jeffries.

Black Tie White Noise, primeiro álbum solo de Bowie na década de 1990, seria lançado em abril de 1993 pela gravadora Savage, e traria um som muito mais eletrônico, tendendo levemente para o rock alternativo. O álbum seria um grande sucesso no Reino Unido, alcançando o topo da parada britânica e rendendo um Disco de Ouro, e teria como músicas de trabalho Jump, They Say, Black Tie White Noise e Miracle Goodnight. Em novembro de 1993, seria lançado, pela BMG, The Buddha of Suburbia, trilha sonora da adaptação para a TV do romance de Hanif Kureishi feita pela BBC, para a qual Bowie compôs nove músicas, sendo que apenas uma delas, a faixa-título, que contava com Lenny Kravitz na guitarra, seria efetivamente usada no programa.

Após o lançamento da trilha sonora, Bowie assinaria com a BMG, e seu primeiro álbum pela nova gravadora seria Outside, lançado em setembro de 1995, uma nova colaboração com Brian Eno, extremamente experimental e com som próximo ao do rock industrial. Todas as músicas seguiam uma história envolvendo arte e assassinato, com personagens criados por Bowie para um conto. Contra todos os prognósticos, o álbum faria até bastante sucesso, alcançando o oitavo lugar no Reino Unido e o 21o na Billboard; suas músicas de trabalho seriam The Hearts Filthy Lesson, Strangers When We Meet e Hallo Spaceboy. Para a turnê que promovia Outside, Bowie escolheria a banda Nine Inch Nails para acompanhá-lo, o que causou certa controvérsia devido ao choque de estilos - e diferença entre os públicos - de um e outro. Em janeiro de 1996, Bowie seria incluído no Rock and Roll Hall of Fame, e ganharia mais um Brit Awards, dessa vez o de Contribuição Excepcional para a Música Britânica; no mesmo ano, ele interpretaria Andy Warhol em Basquiat, filme de Julian Schnabel sobre a vida do pintor norte-americano Jean-Michel Basquiat.

Em janeiro de 1997, Bowie comemoraria seus 50 anos com um grande show no Madison Square Garden, em Nova Iorque, acompanhado de Lou Reed, Dave Grohl (dos Foo Fighters), Robert Smith (do Cure), Billy Corgan (dos Smashing Pumpkins), Black Francis (dos Pixies) e do Sonic Youth. No mês seguinte, ele ganharia uma estrela na Calçada da Fama, e lançaria mais um álbum, Earthling, de estilo parecido ao de Outside. Sua principal música de trabalho, I'm Afraid of Americans, havia sido originalmente gravada em 1995 para a trilha sonora do filme Showgirls, de Paul Verhoeven, e remixada por Trent Reznor, do Nine Inch Nails, para ser incluída no álbum, se tornando um grande sucesso, figurando 16 semanas consecutivas no Top 100 da Billboard, um recorde para Bowie. As demais músicas de trabalho seriam Telling Lies, Little Wonder e Dead Man Walking.

Em 1998, Bowie participaria do faroeste italiano Il Mio West, no papel do pistoleiro mais temido da cidade. Em 1999, ele estrelaria o filme Everybody Loves Sunshine, no papel de um gangster que está ficando velho e procura um sucessor, e faria a trilha sonora do jogo Omikron: The Nomad Soul, lançado para PC e Dreamcast, no qual ele e Iman também dublariam personagens para os quais emprestavam suas aparências. Em agosto do mesmo ano, ele faria um dueto com a banda Placebo, na canção Without You I'm Nothing, de seu segundo álbum, que tinha o mesmo nome. Um mês depois, ele lançaria Hours, seu vigésimo álbum, no qual voltava ao pop rock. O álbum alcançaria o quinto lugar na parada britânica, mas não chamaria muita atenção, tendo como músicas de trabalho Thursday's Child, The Pretty Things Are Going to Hell, Survive e Seven.

Em 2000, Bowie receberia a medalha da Ordem do Império Britânico, mas recusaria a honraria, sequer comparecendo à cerimônia - ele também recusaria o título de sir, após ser indicado para ser nomeado cavaleiro em 2003, declarando não saber para que isso servia, e que não era um objetivo de sua vida. Também em 2000, em 15 de agosto, nasceria a filha de Bowie e Iman, Alexandria Zahra Jones. Em 2001, ele cantaria America, de Simon & Garfunkel, e "Heroes" em um concerto em homenagem às vítimas dos atentados terroristas de 11 de setembro. Em junho de 2002, ele lançaria mais um álbum, Heathen, pela gravadora Columbia, que teria como músicas de trabalho Slow Burn, Everyone Says "Hi" e I've Been Waiting for You; o álbum seria ligeiramente melhor sucedido que o anterior, alcançando o 14o lugar na Billboard e o quinto na parada britânica, e rendendo Disco de Ouro no Reino Unido. Seu álbum seguinte, Reality, seria lançado pouco mais de um ano depois, em setembro de 2003, traria as músicas de trabalho New Killer Star e Never Get Old, e alcançaria o terceiro lugar na parada britânica, rendendo mais um Disco de Ouro, embora não tenha conseguido entrar para o Top 20 da Billboard.

Durante a turnê para promover Reality, Bowie sentiria fortes dores no peito, e teria que passar por uma angioplastia de emergência em Hamburgo, Alemanha. Depois disso, ele decidiria reduzir drasticamente suas gravações e apresentações ao vivo. Ele regravaria Changes, dessa vez em um dueto com a cantora australiana Butterfly Boucher, para a trilha sonora de Shrek 2, de 2004, e gravaria (She Can) Do That para a trilha sonora de Stealth, de 2005. Em 2006, ele ganharia um Grammy honorário pelo conjunto da obra (o Lifetime Achievement Award), e faria um dos papéis mais elogiados de sua carreira, interpretando Nikola Tesla no filme O Grande Truque, de Christopher Nolan, no qual Hugh Jackman e Christian Bale interpretam mágicos rivais. No mesmo ano, ele dublaria Sua Alteza Real, no filme do Bob Esponja, e o vilão Maltazard na animação Arthur e os Minimoys, de Luc Besson. Em 2008, ele faria seu último papel de destaque, o de Cyrus Ogilvie no filme Agosto, de Austin Chick - seu último papel no cinema de fato seria uma pequena participação como ele mesmo em High School Band, de 2009.

Também em 2008, ele faria um dueto com Scarlett Johansson do cover de Tom Watts Anywhere I Lay My Head, incluído no primeiro álbum da atriz. Em junho do mesmo ano, a EMI lançaria Live Santa Monica '72, álbum ao vivo que continha a gravação de um show feito por Bowie na cidade de Santa Monica, na Califórnia, Estados Unidos, em 1972. Em julho de 2009 seria a vez de VH1 Storytellers, gravação de uma apresentação ao vivo que Bowie fez em agosto de 1999 no canal musical VH1. E, em janeiro de 2010, seria lançado A Reality Tour, álbum duplo ao vivo que continha gravações feitas durante a turnê de Reality, de 2003.

Após dez anos sem um novo álbum de inéditas, em março de 2013 seria lançado The Next Day, que traria como músicas de trabalho Where Are We Now?, The Stars (Are Out Tonight), The Next Day, Valentine's Day e Love Is Lost. The Next Day seria o primeiro álbum de Bowie em vinte anos (desde Black Tie White Noise) a estrear no topo da parada britânica, alcançando também o segundo lugar na Billboard e rendendo Disco de Platina no Reino Unido, e seria responsável por ele conquistar mais um Brit Award de Melhor Artista Masculino, se tornando o mais velho artista a receber tal prêmio - ele não compareceria à cerimônia, porém, enviando a modelo Kate Moss para receber a estatueta em seu lugar. Também em 2013, seria inaugurada a exposição David Bowie Is, com objetos pessoais do artista, no Victoria and Albert Museum de Londres; a mostra atrairia mais de 300 mil visitantes, se tornando uma das mais bem sucedidas do museu, antes de sair em turnê pelo mundo, sendo montada em mais de dez países.

Em setembro de 2014 seria lançada Nothing Has Changed, coletânea de faixas raras (em sua maioria faixas-bônus de seus álbuns anteriores) que continha algumas canções anteriormente gravadas mas jamais lançadas, e uma nova e inédita, Sue (Or in a Season of Crime). E, em dezembro de 2015, Bowie faria sua última aparição pública, na estreia do musical Lazarus, em Nova Iorque, para a qual Bowie escreveu todas as músicas, inspirado no filme O Homem que Caiu na Terra.

O vigésimo quarto e último álbum de Bowie, Blackstar, que tinha como músicas de trabalho a faixa-título, Lazarus e I Can't Give Everything Away, seria lançado em 8 de janeiro de 2016, no dia de seu aniversário de 69 anos. Dois dias depois, Bowie faleceria, em decorrência de um câncer no fígado. O produtor do álbum, Tony Visconti, revelaria que Bowie já sabia da doença há pelo menos um ano e meio, mas teria optado por não torná-la pública, e gravar Blackstar como se fosse seu "canto do cisne", um presente de despedida para os fãs. Talvez justamente pelo impacto de sua morte, Blackstar se tornaria o álbum mais bem sucedido de sua carreira, já estreando no topo da parada britânica e da parada da Billboard, e rendendo, até agora, Disco de Platina no Reino Unido e Disco de Ouro nos Estados Unidos. Blackstar seria responsável por Bowie ganhar cinco Grammys póstumos, de Melhor Álbum Alternativo, Melhor Engenharia de Álbum Não-Clássico, Melhor Apresentação Visual, Melhor Performance de Rock e Melhor Canção de Rock (esses dois últimos para a música Blackstar), além de três Brit Awards, de Melhor Cantor Solo Masculino, Álbum do Ano, e o Brits Icon Awards, equivalente ao Grammy de conjunto da obra. Em 8 de janeiro de 2017, no dia em que Bowie completaria 70 anos, seria lançado um EP, No Plan, que trazia Lazarus e outras três faixas gravadas para Blackstar mas não incluídas no álbum.

Bowie é considerado um dos artistas mais influentes de todos os tempos, principalmente por ter sido bem sucedido em diferentes estilos musicais. Também é considerado o principal responsável pela guinada que o rock britânico deu na década de 1970, e um dos artistas mais transformadores da música no mundo inteiro. Sua vida se encerrou, mas sua obra viverá para sempre.
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Guerra e Paz

Quando eu era adolescente, inventei de ler Guerra e Paz. Não me perguntem o porquê, eu simplesmente resolvi pegar aquele livro enorme na estante lá de casa e ler. Levei uns 20 anos para terminar, porque "enorme", nesse caso, não é nenhum exagero: na versão que pertence aos meus pais, ele tem umas 1.500 páginas. Junte a isso uns cem personagens, um monte de nomes em russo, e entenda por que eu não tinha pressa em terminar.

Não que Guerra e Paz seja um livro chato ou ruim, muito pelo contrário, é sensacional. Essa semana eu tentei convencer um amigo disso, e inclusive usei como argumento o fato de que ele já leu O Senhor dos Anéis, Harry Potter e As Crônicas de Gelo e Fogo, então Guerra e Paz não seria nenhum sacrifício. Não sei se o convenci, mas o efeito colateral de nossa conversa foi que eu fiquei com vontade de escrever sobre Guerra e Paz. E será agora. Hoje é dia de Guerra e Paz no átomo!

Com o título original de Voyna i Mir, Guerra e Paz é uma das obras mais conhecidas de Leon Tolstoi, autor de Ana Karenina, sobre o qual eu já escrevi aqui no átomo. Tolstoi começaria a escrever em 1862, logo após se casar, e, a princípio, usaria o título 1805 - sob o qual, inclusive, algumas primeiras versões dos primeiros capítulos seriam publicadas serializadas no jornal Vestnik, entre 1865 e 1867. Tolstoi não ficaria satisfeito com essas versões, e as reescreveria quase que completamente entre 1866 e 1869, quando foi publicado na forma de livro, já com o nome Guerra e Paz, em um total de quatro volumes.

Guerra e Paz é um romance histórico, ambientado no início do século XIX, mais precisamente entre 1805 e 1820, na época em que a França, comandada por Napoleão Bonaparte, tentou invadir a Rússia. Tolstoi faria uma extensa pesquisa sobre o tema, lendo todos os principais livros sobre essa guerra, e conversando com pessoas que a haviam vivido - mesmo tendo encontrado poucas, já que ela ocorrera cerca de 60 anos antes de ele começar a escrever o livro. Durante a história, são citados cerca de 160 personagens reais, alguns de menor, outros de maior importância - incluindo o próprio Napoleão - mas todos com falas e atitudes romanceadas, ou seja, que nem sempre correspondem às que ocorreram historicamente. O realismo nas passagens que descrevem a guerra foi cortesia da própria experiência de Tolstoi no assunto, já que ele havia sido um veterano da Guerra da Crimeia.

Outro dado interessante é que, embora a maior parte do texto original seja em russo, grande parte do livro é escrita em francês. Isso foi feito porque, no início do século XIX, o francês era o idioma preferido da aristocracia russa - diz-se que os aristocratas só sabiam o básico do russo, e só o usavam para se comunicar com seus criados, falando em francês todo o resto do tempo. Quanto mais a história avança, entretanto, menos o francês é usado, para refletir que a França havia se tornado uma inimiga da Rússia, e que o país começava a se livrar da dominação cultural estrangeira. Muitos dos personagens, inclusive, mesmo sendo russos de nascimento, começam a procurar professores de russo, para poderem aprender a língua de seu próprio país.

Guerra e Paz possui três protagonistas, sendo o principal Pierre Bezhukov, filho ilegítimo do Conde Kiril Bezhukov, criado na França e que retorna à Rússia devido à doença de seu pai; mesmo com problemas para se ajustar à sociedade russa, Bezhukov é visto como um bom partido devido à gorda herança que receberá quando seu pai falecer. Bezhukov também costuma ser visto como a voz dos pensamentos de Tolstoi, com suas falas frequentemente refletindo os pensamentos do autor sobre diversos assuntos. Ele divide o protagonismo com dois outros personagens centrais, o primeiro deles o Príncipe Andrei Nikolayevich Bolkonsky. Belo e inteligente, Bolkonsky decide se alistar no exército, apesar de não ter a menor necessidade disso devido à sua classe social, e mesmo estando cético quanto às chances de a Rússia ganhar a guerra, enviando sua esposa, Lisa Bolkonskaya, grávida, para morar no interior com seu pai, o excêntrico, ríspido e emocionalmente distante Príncipe Nikolai Andreich Bolkonsky, e sua irmã, a doce e religiosa Maria Nikolayevna Bolkonskaya. Afastado de sua esposa e insatisfeito com seu casamento, por acreditar que Lisa só se preocupa com futilidades, Bolkonsky acaba se apaixonando pela terceira protagonista, Natasha Ilyinichna Rostova, que, quando a história começa, tem apenas 15 anos. Não muito bela, mas cheia de vida, romântica, impulsiva e talentosa no canto e na dança, Natasha é a filha mais nova do Conde Ilya Andreyevich Rostov, que, apesar de riquíssimo, vive apertado de dinheiro, por ser extremamente generoso com seus amigos e criados e bastante despreocupado com suas finanças.

Outros personagens de destaque incluem o Príncipe Vasily Kuragin, homem cruel que quer arrumar a qualquer custo casamentos com membros da alta sociedade para seus dois filhos, Hélène e Anatole, sendo que há um boato de que ambos, apesar de irmãos, vivem um romance (Hélène acaba se casando com Bezhukov, mas é um casamento de aparências, e ela tem vários casos extraconjugais; Anatole também consegue um bom casamento, mas mesmo assim tenta convencer Natasha a fugir para viver um caso com ele); o Príncipe Boris Drubetskoy, que perdeu todo o seu dinheiro e acaba aceitando se casar com Julia Karagina, mulher riquíssima e extremamente arrogante, apenas por seu dinheiro; Anna Pavlovna Scherer, a dona do salon onde a aristocracia russa se reúne para beber e fofocar, onde ocorrem muitas das passagens do livro; e Osip Bazdeyev, maçon que convence Bezhukov a ingressar na maçonaria, o que não deveria ter tanto destaque, exceto pelo fato de que isso desencadeia uma trama paralela interminável e sem muita relação com a história principal. Napoleão e o Príncipe Mikhail Kutuzov, personagem real que comandou as tropas russas durante a guerra, também são personagens de destaque no livro.

O livro seria um enorme sucesso de pública e crítica; muitos dos leitores do Vestnik, ansiosos para ver as modificações que Tolstoi fizera, ou apenas querendo ter uma cópia encadernada do texto em casa, esgotariam a primeira tiragem em poucas horas. Muitos críticos e estudiosos escreveriam, nos primeiros anos após seu lançamento, resenhas e ensaios que são usados até hoje pelos que estudam as obras de Tolstoi. Parte da crítica, entretanto, foi desfavorável, por considerar que o texto não possuía a crítica social adequada, tinha pouca importância histórica, e não abordava bem o tema da unidade nacional. No geral, porém, Guerra e Paz seria considerada a maior obra-prima da literatura russa.

Sendo uma obra de tamanha importância, evidentemente Guerra e Paz teria adaptações para o cinema e a TV. A primeira delas, ainda em preto e branco, seria filmada na Rússia e lançada em 1915, dirigida por Vladimir Gardin e estrelando o próprio Gardin como Bezhukov, e Vera Karalli, bailarina do Bolshoi, como Natasha. Para a TV, merece destaque a versão de 1972, uma série em 20 episódios produzida pela BBC estrelando Anthony Hopkins como Bezhukov, Alan Dobie como Bolkonsky, e Morag Hood como Natasha. Mas são duas das versões para o cinema as consideradas as de maior importância, e as mais conhecidas do público em geral.

A primeira é uma produção norte-americana, lançada em 1956 e dirigida por King Vidor, estrelando Mel Ferrer como Bolkonsky, Henry Fonda como Bezhukov, Audrey Hepburn como Natasha, e Herbert Lom como Napoleão. O filme tem nada menos que 208 minutos de duração (quase três horas e meia, para quem não estiver a fim de fazer a conta), e ainda assim omite grande parte da história do livro, focando muito mais nas relações entre os três protagonistas e deixando de fora quase todos os personagens secundários. Com orçamento de 6 milhões de dólares, rendeu 6,5 milhões, sendo considerado pela Paramount, que o financiou, um fracasso de público; apesar disso, foi um grande sucesso de crítica, sendo muito elogiado e indicado a três Oscars, de Melhor Diretor (no qual Vidor perdeu para George Stevens, de Assim Caminha a Humanidade), Melhor Fotografia (que perdeu para A Volta ao Mundo em 80 Dias) e Melhor Figurino (perdendo para O Rei e Eu).

Em 1959, o filme dirigido por Vidor seria lançado na União Soviética, onde atrairia bastante público - cerca de 31,4 milhões de espectadores - e seria aclamado pela crítica local. Como era a época da Guerra Fria, o governo soviético achou um absurdo que uma adaptação norte-americana de um clássico da literatura russa tivesse tanto prestígio, principalmente porque se aproximava o aniversário de 150 anos da vitória russa sobre a França na guerra retratada no livro. A Ministra da Cultura soviética, Yekaterina Furtseva, imediatamente ordenaria a produção de uma nova adaptação de Guerra e Paz, dessa vez produzida pela Mosfilm, o mais importante estúdio soviético da época (e mais importante estúdio russo da história). Furtseva conclamaria os mais importantes diretores soviéticos a assinar uma carta aberta, publicada nos jornais soviéticos de maior circulação, que dizia ser "uma questão de honra para a indústria cinematográfica soviética produzir uma obra que superasse a produção norte-americana em mérito artístico e autenticidade".

Vários dos principais diretores soviéticos se ofereceram para o projeto, incluindo Mikhail Romm e Sergei Gerasimov. Após uma seleção inicial, parecia que a honra ficaria com Ivan Pyryev, considerado por Furtseva como "o único candidato viável"; Pyryev, porém, tinha muitos desafetos dentro do Ministério, e estes acabaram orquestrando um convite para Sergei Bondarchuk, na época com 40 anos e apenas um filme no currículo. Bondarchuk não havia se candidatado à vaga, e ficou muito surpreso com o convite do Ministério, mas, devido à importância do projeto, evidentemente decidiu aceitá-lo. Furtseva, então, determinou que cada um dos dois deveria dirigir uma espécie de "episódio-piloto", um média-metragem que seria exibido perante uma comissão, com o diretor do melhor piloto sendo escolhido para dirigir a obra; ao ver que muitos de seus desafetos fariam parte dessa comissão, entretanto, Pyryev decidiria retirar sua candidatura, para não perder tempo e dinheiro filmando um piloto à toa. Sem outros candidatos, Furtseva acabaria nomeando Bondarchuk como diretor em fevereiro de 1961, cerca de um ano após o início do processo de seleção.

A produção começaria em abril de 1961, com a liberação da primeira parcela orçamentária por parte do Ministério da Cultura, e com Bondarchuk e o dramaturgo Vasily Solovyov começando a escrever o roteiro. Assim como Vidor, eles optariam por deixar de fora ou diminuir a importância da maioria dos personagens secundários, centrando o enredo nas relações entre Bezhukov, Bolkonsky e Natasha, além de excluir a subtrama da maçonaria e deixar de fora todas as considerações filosóficas e históricas feitas por Tolstoi - e isso, de certa forma, seria inevitável, já que, para fazer uma adaptação realmente fiel, talvez fossem necessárias mais de 20 horas de duração, como na série da BBC. Ainda assim, seria impossível fazer um único filme com toda a história que o Ministério exigia como mínimo a ser adaptado; a sugestão de Vladimir Surin, presidente da Mosfilm, era a de fazer uma trilogia, mas, enquanto trabalhavam no roteiro, Bondarchuk e Solovyov chegariam à conclusão de que, para manter um ritmo razoável e não cansar a plateia, o ideal seria que fossem produzidos quatro filmes. O roteiro final seria aprovado pela Mosfilm em fevereiro de 1962, e o projeto dos quatro filmes seria aprovado pelo Ministério cerca de um mês depois.

O governo soviético não pouparia esforços para auxiliar a produção: além do apoio incondicional do Ministério da Cultura, inclusive com carta branca para liberar quanto dinheiro fosse necessário, o Ministério da Defesa seria convidado a apontar um consultor militar e um expert em cavalaria, para que as cenas de guerra fossem o mais autênticas possível, e o Exército Soviético cederia milhares de soldados que atuariam como figurantes nas referidas cenas, além de emprestar canhões autênticos do início do século XIX que já haviam sido decomissionados, e de ajudar a confeccionar uniformes idênticos aos da época e a construir carroças e vagões idênticos aos usados pelos militares de então. Mais de quarenta museus espalhados pelo país também contribuiriam com artefatos históricos, como candelabros, mobília e prataria, para que a ambientação fosse a mais autêntica possível. Consultores históricos também atuariam junto às figurinistas, para que todas as vestimentas fossem o mais próximas possível das realmente usadas na época. Novecentos cavalos foram cedidos pelo Ministério da Agricultura, e dezesseis cães de caça foram emprestados por criadores particulares para uma cena de caçada.

A escolha do elenco foi bastante complicada. Os testes começariam em maio de 1961, e o primeiro a ser escolhido seria Oleg Strizhenov, para o papel de Bolkonsky. Pouco antes do começo das filmagens, entretanto, ele seria selecionado para o grupo permanente do Teatro de Arte de Moscou, e desistiria do papel; Furtseva ainda tentaria convencê-lo, mas sem sucesso. Bondarchuk, então, convidaria Innokenty Smoktunovsky, que já havia assinado para protagonizar uma adaptação de Hamlet, dirigida por Grigori Kozintsev, mas aceitaria mesmo assim; Kozintsev, entretanto, usaria sua influência junto ao Ministério da Cultura para barrar a participação de Smoktunovsky em Guerra e Paz. O papel de Bolkonsky acabaria ficando com Vyacheslav Tikhonov, o terceiro na lista de preferência de Bondarchuk, que acabaria se juntando à equipe três meses após o início das filmagens.

No livro, Bezhukov é descrito como um homem de grande força física, e, portanto, para interpretá-lo, Bondarchuk convidaria Yuri Vlasov, campeão olímpico do levantamento de peso em Roma 1960; o diretor chegaria a treinar Vlasov pessoalmente, ensaiando com ele, mas, a poucos dias do início das filmagens, o atleta desistiria, alegando não estar se sentindo seguro para o papel e acreditar não ter qualquer talento para a atuação. Como já não tinha um Bolkonsky, e começar a filmar também sem um Bezhukov era impossível, Bondarchuk acabaria ele mesmo ficando com o papel - curiosamente, ele já havia selecionado sua própria esposa, a atriz Irina Skobtseva, para o papel de Hélène Kuragina, o que fez com que o casal da vida real também se tornasse um casal na ficção. Durante o final da produção do terceiro e quarto filmes, com a saúde fragilizada, Bondarchuk nem sempre estaria disponível para as filmagens, e colocaria o jornalista Yury Devochkin, a quem todos achavam parecido com ele, para interpretar Bezhukov em cenas que não possuíam falas nem closes.

Várias das principais atrizes russas da época se ofereceriam para interpretar Natasha, como Anastasiya Vertinskaya e Lyudmila Gurchenko; surpreendendo a todos, porém, Bondarchuk escolheria uma estreante, a bailarina Ludmila Savelyeva, então com 19 anos e recém-saída da Academia Vaganova de Balé Russo, por acreditar que ela é que melhor se adequava à descrição de Natasha apresentada no livro. Para o papel do irmão de Natasha, Petya Rostov, seria escolhido o futuro diretor Nikita Mikhalkov, então com 16 anos; inesperadamente, ele teria um surto de crescimento durante as filmagens, e, quando o terceiro filme iria ser filmado, ele já aparentava ser bem mais velho do que o personagem pedia, tendo de ser substituído nos dois últimos filmes por Sergei Yermilov.

A direção de arte também teria um problema sério. Originalmente, ela ficaria a cargo de Alexander Shelenkov e Yu Lan Chen, que eram marido e mulher, mas diversos desentendimentos entre eles e Bondarchuk, a quem acusavam de ser ditatorial e de não consultar a equipe antes de tomar decisões sobre a fotografia, fariam com que decidissem pedir demissão, com seu assistente, Anatoli Petritsky, sendo promovido para o cargo. Por decisão do Ministério da Cultura, o filme seria rodado em 70 mm, ao invés dos 35 mm usados como padrão pela indústria soviética; a Mosfilm consideraria comprar o filme da Kodak, através de seus contatos na Alemanha Oriental, mas, para cortar custos e estimular a indústria nacional, seria convencida pelo Ministério a usar filme fabricado pela soviética Shostka. Petritsky ficaria extremamente insatisfeito com o filme da Shostka, considerando-o de baixa qualidade, e alegando que a maior parte do lote estava defeituoso e era simplesmente inutilizável. Quase 10% das cenas do filme tiveram de ser refilmadas durante a edição, pois os técnicos descobririam que era impossível trabalhar com o filme entregue pela equipe de produção - uma cena de batalha teria de ser refilmada quatro vezes, pois toda vez que as filmagens terminavam, se descobria que o filme havia estragado. Ao final das filmagens, a estimativa da Mosfilm era de que a produção teria ficado de 10 a 15% mais barata se, ao invés de usar o filme da Shostka, eles tivessem comprado o da Kodak, mesmo esse sendo mais caro. Em compensação, Guerra e Paz seria a primeira produção soviética a fazer uso de várias técnicas jamais usadas no país, como câmeras suspensas por cabos de aço, cameramen circulando de patins dentre os atores nas cenas de baile, e o uso de gruas e helicópteros em cenas externas. O som seria pela primeira vez em uma produção soviética gravado em seis canais, e, durante as cenas de batalha, um sistema de alto falantes seria usado para que o diretor pudesse coordenar o movimento das tropas.

O inverno inclemente também faria com que a produção sofresse atrasos: parte das cenas de batalha deveria ser filmada na neve, sendo escolhida a localidade de Zakarpattia para as externas; nevaria tanto e tão forte, porém, que as filmagens externas se tornariam impossíveis, com Bondarchuk decidindo filmar lá internas que estavam previstas para outras localidades para ganhar tempo enquanto esperavam a nevasca diminuir.

Pelo planejamento original, os quatro filmes seriam rodados simultaneamente, e apenas lançados separados; em julho de 1964, entretanto, o Ministério da Cultura ordenaria a Bondarchuk que ele deixasse de lado todas as filmagens referentes ao terceiro e quarto filmes e se concentrasse em concluir os dois primeiros, para que eles pudessem ser apresentados no Festival de Filmes de Moscou de 1965. Da forma como as filmagens estavam, contudo, isso seria extremamente trabalhoso, e, devido ao estresse, Bondarchuk sofreria um infarto durante as filmagens, o que levaria a um adiamento na produção de várias cenas, o que tornaria o prazo ainda mais apertado - segundo presentes, ao acordar, suas primeiras palavras foram "se eu morrer, deixem que Gerasimov o termine". Os dois primeiros filmes ficariam prontos apenas uma semana antes do início do Festival, e, após sua conclusão, Bondarchuk sofreria um segundo infarto.

Como os quatro filmes foram produzidos simultaneamente, não há uma estimativa orçamentária em separado para cada um deles; os quatro juntos gastariam cerca de 8,3 milhões de rublos, o que torna Guerra e Paz o filme mais caro a ser produzido em toda a história da União Soviética. O primeiro filme, que tinha o título de Guerra e Paz: Andrei Bolkonski, estrearia em 14 de março de 1966, após uma exibição no Festival de Filmes de Moscou em 19 de julho de 1965. Com um total de 147 minutos, ele possuía um intervalo no meio, prática comum em filmes de mais de 120 minutos na época. Ao todo seriam vendidos cerca de 58,3 milhões de ingressos, embora estima-se que cerca de 300 mil espectadores saíram durante o intervalo e não assistiram à segunda parte; de qualquer forma, isso seria suficiente para fazer de Andrei Bolkonsky o filme de maior bilheteria de 1966 na União Soviética. O segundo filme, chamado Guerra e Paz: Natasha Rostova, que também teria exibição no Festival em 19 de julho de 1965, estrearia em 20 de julho de 1966, com 100 minutos de duração. Ele seria menos bem-sucedido, mas ainda assim vendendo cerca de 36,2 milhões de ingressos, o suficiente para que se tornasse o terceiro filme de maior bilheteria de 1966.

O terceiro filme, Guerra e Paz: O Ano de 1812 (Voyna i Mir: 1812 God), só estrearia em 21 de julho de 1967, ou seja, quase um ano após o segundo - o que era natural, já que a produção dos dois primeiros foi acelerada para sua exibição no Festival, com a dos dois últimos sendo retomada apenas um bom tempo depois, devido ao estado de saúde de Bondarchuk. Este seria o filme mais curto, com 84 minutos, e atrairia apenas cerca de 21 milhões de espectadores, fechando o ano de 1967 na 13a posição em bilheteria na União Soviética. O quarto e último filme, Guerra e Paz: Pierre Bezhukov, teria 100 minutos, estrearia em 4 de novembro de 1967, atrairia cerca de 19,8 milhões de espectadores, e fecharia o ano na 14a posição. Os principais culpados escolhidos para o sucesso decrescente dos filmes foram a distância entre o lançamento de cada um em relação ao anterior, e o fato de que, exceto pelo primeiro, os demais já não eram novidade.

A crítica ficaria dividida, com alguns considerando Guerra e Paz o maior épico de sua época e a maior adaptação de uma obra literária da história do cinema, e outros criticando seu ritmo, a pouca profundidade de seus personagens, e até mesmo o fato de que Bondarchuk era velho demais para interpretar Bezhukov. O filme ganharia o Grande Prêmio do Festival Internacional de Cinema de Moscou de 1965, e o prêmio principal da Associação de Críticos de Cinema do Japão de 1966. Após sua exibição nos cinemas dos Estados Unidos, em 1968, ele ganharia o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, além de ser indicado ao Oscar de Melhor Direção de Arte (o qual perdeu para Oliver!). Guerra e Paz seria o primeiro filme soviético a ganhar um Oscar, e, como foi considerado como um único filme de 431 minutos, e não como quatro filmes separados, deteve o recorde de filme mais longo a receber um Oscar em qualquer categoria até 2017, quando o documentário O.J.: Made in America, sobre a vida do ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson, com um total de 467 minutos, ganhou o Oscar de Melhor Documentário.

Guerra e Paz seria exibido nos cinemas de nada menos que 117 países além de sua União Soviética natal; em alguns deles, como os da Europa Oriental (exceto Alemanha), França, Espanha, Japão, Dinamarca, Bélgica, Egito e Argentina, ele seria exibido em sua forma original, em quatro filmes sem cortes, apenas dublados ou legendados. Na maioria dos países, entretanto, o filme seria editado ou condensado de alguma forma: na Alemanha Oriental, por exemplo, ainda seriam exibidos quatro filmes, mas editados pelo estúdio governamental DEFA, que, além, de dublá-lo para o alemão, reduziria sua duração para 409 minutos; a Alemanha Ocidental também editaria sua própria versão, transformada em um único filme de 337 minutos. A versão norte-americana, dublada em inglês e editada pela Titan Productions, também seria um único filme, de 331 minutos; esta versão também estrearia, mais tarde, no Reino Unido. O canal norte-americano ABC transformou essa versão norte-americana em uma minissérie, exibida em quatro episódios entre 12 e 15 de agosto de 1972, mas sem respeitar a disposição dos quatro filmes originais - a última parte de Andrei Bolkonski, por exemplo, ficou no segundo episódio da minissérie.

Em 1986, como parte das comemorações pelos 20 anos da estreia do primeiro filme, o Ministério da Cultura pediu a Bondarchuk que preparasse uma versão para ser exibida na TV soviética. Quando Bondarchuk e Petritsky foram analisar os negativos originais, porém, descobriram que, por terem sido guardados de forma inadequada, estavam danificados além de qualquer reparo. Bondarchuk, então, usaria uma cópia em 35 mm, com aspecto de tela standard (a de 70 mm era widescreen), produzida simultaneamente às filmagens. Durante muito tempo, essa foi a única versão disponível, sendo, inclusive, a que a Mosfilm usou quando lançou o filme em DVD, em 2000.

Em 2012, Karen Shakhnazarov, presidente da Mosfilm, decidiria dar início a uma restauração para o relançamento da obra em DVD, dessa vez o mais fiel possível à versão cinematográfica. Para isso, ele buscaria versões em 70 mm enviadas para exibição no exterior e pertencentes a colecionadores particulares. O trabalho levaria quatro anos, com a nova versão sendo lançada mundialmente no final de 2016. É atualmente a versão mais próxima da original, embora tenha 29 minutos a menos - o primeiro filme tem 140 minutos, o segundo tem 93, o terceiro tem 77 e o quarto tem 92. Mesmo assim, não se pode descartar a importância de se ter preservado um grande clássico do cinema, inspirado em um dos maiores clássicos da literatura mundial.
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Spawn

Eu já citei aqui várias vezes o boom dos quadrinhos dos anos 1990. Também já mencionei mais de uma vez que um dos principais responsáveis por esse boom foi a Image Comics, editora fundada por talentos egressos da Marvel e da DC, que queriam, basicamente, manter os direitos sobre os personagens que criassem. Talvez quem leia a história dos quadrinhos hoje não consiga ter uma dimensão do impacto que a Image teve sobre essa indústria - tão grande, aliás, que a publicação especializada Wizard colocou "o lançamento da Image Comics" na primeira posição de uma lista das coisas que mais chacoalharam o mundo dos quadrinhos entre 1991 e 2008, data na qual a lista foi publicada. Não é exagero nenhum dizer que a Image mudou a forma de se fazer quadrinhos - se foi para melhor ou para pior, fica a critério de cada um - e essa mudança toda seria capitaneada pelo primeiro personagem lançado pela editora: Spawn.

Criado por Todd McFarlane, que já havia trabalhado na DC, com Batman, e na Marvel, com Homem-Aranha, se tornando famoso por sua associação com esse último, Spawn era um personagem que dificilmente seria encontrado nas revistas da Marvel ou DC da época: um anti-herói de origem demoníaca, que luta para fazer o bem enquanto tenta escapar de um destino previamente traçado. Seu lançamento teve um efeito tão bombástico que até mesmo eu, que não era especialmente fã de McFarlane, nem costumo gostar de histórias que envolvem anjos e demônios, fiquei fascinado, e rapidamente incluí Spawn dentre meus personagens preferidos. Com o tempo, essa fascinação foi sumindo, e hoje eu até acho Spawn um personagem interessante, mas não acompanho suas histórias há quase vinte anos.

Ainda assim, fazendo o post sobre a Era dos Quadrinhos, e em seguida o sobre a Amalgam, me recordei da época em que a Image chacoalhou o mercado, e fiquei com vontade de escrever sobre Spawn. Como, em se tratando de assuntos para posts, eu não gosto de passar vontade, hoje é dia de Spawn no átomo!

Spawn, na verdade, é o ex-fuzileiro naval norte-americano Al Simmons. Ou quase. Vítima de uma cilada armada por Jason Wynn, diretor de uma agência governamental fictícia que equivale à CIA, NSA e NSC ao mesmo tempo, Simmons foi morto e acabou indo parar no inferno, por ter voluntariamente matado inocentes enquanto era fuzileiro. Lá, ele conheceu o demônio Malebólgia, que fez com ele um trato: sua alma em troca de poder retornar à Terra e rever sua esposa, Wanda. Como todo mundo sabe, nunca dá certo fazer um pacto com o diabo: Malebólgia realmente fez com que Simmons voltasse à vida, mas: (a) como uma criatura demoníaca de aparência hedionda e com poucas memórias de sua vida pregressa e (b) cinco anos depois de sua morte, tempo durante o qual Wanda se casou novamente, com o melhor amigo de Simmons, o empresário Terry Fitzgerald, e com ele teve uma filhinha, chamada Cyan.

Sem que Simmons soubesse, tudo isso já estava arranjado desde antes de sua morte, já que o motivo pelo qual Wynn decidiria enviá-lo para uma cilada seria um trato que ele fez com Malebólgia: um soldado altamente treinado e capaz de matar inocentes sem remorsos em troca de psicoplasma, substância sobrenatural que na Terra possui incríveis poderes, mas no inferno é inerte e existe em abundância. Desde o início, Malebólgia tramou fazer o pacto com Simmons para transformá-lo em um Spawn (palavra da língua inglesa que significa "cria" ou "rebento", e é normalmente usada na ficção para se referir a filhotes de monstros ou de seres sobrenaturais, como na expressão hellspawn, "cria do inferno"), uma criatura que age na Terra sob o seu comando, realizando missões de seu interesse - já que o próprio Malebólgia não pode se manifestar na Terra. Ao longo dos anos, incontáveis Spawns já obedeceram suas ordens, sendo Simmons o mais recente dessa lista.

Malebólgia não contava, porém, com a incrível força de vontade de Simmons, que decide usar seus poderes de Spawn para o bem - embora, mesmo assim, ele acabe atendendo aos interesses de Malebólgia, como quando Spawn matou um pedófilo, livrando a Terra de um criminoso, mas mandando mais uma alma fresquinha e poderosa para o exército do vilão no inferno. Para que Spawn não saia muito da linha, Malebólgia mandou outro demônio para a Terra, o Violador, que tem o poder de mudar de forma, embora em sua forma humana se pareça com um palhaço gordo e baixinho. Violento e depravado, o Violador se diverte atormentando Spawn, o que, ao invés de colocá-lo na linha, acaba aumentando sua vontade de desobedecer seu mestre.

Mesmo sendo um herói, Spawn ainda é visto como um servo de Malebólgia, o que faz com que ele tenha problemas com as forças do bem - como com as anjas caçadoras de demônios Angela e Tiffany; o Anti-Spawn, criatura que surge toda vez que um Spawn vem à Terra, e tem como única missão destruí-lo; ou Curse, fanático religioso que quer destruí-lo para garantir um lugar no céu. Como ele frequentemente interfere com os negócios de criminosos como o mafioso Tony Twist, Spawn também acaba sendo alvo de vários supervilões, como Chacina, ciborgue superforte e cheio de armas a serviço da máfia; e Capela, ex-parceiro de Simmons nos fuzileiros que agora atua como mercenário. A polícia também não vê o trabalho de Spawn com bons olhos, pois, para eles, ele está fazendo justiça com as próprias mãos, o que faz com que o caminho de Spawn frequentemente de cruze com o dos policiais Sam Burke e Twitch Williams. Felizmente, ele também tem aliados, como a bruxa adolescente Nyx e o mendigo Cogliostro, que sabe mais do que aparenta sobre Malebólgia e acaba se tornando um mentor de Spawn.

Os poderes de Spawn vêm de seu traje, que na verdade é um simbionte myrlu, uma criatura nativa do inferno, chamado Leetha, originário da Sétima Casa de K (ou K7-Leetha, para os íntimos). Os myrlu precisam de um hospedeiro para sobreviver, e, em troca permitem que ele comande suas ações, usando quando bem entender seus vastos poderes, que incluem força, velocidade, agilidade e resistência sobre-humanos, regeneração rápida, teleporte para locais próximos, e a habilidade de lançar rajadas de necroplasma pelas mãos. O poder do myrlu, entretanto, não é infinito, e se Spawn usá-lo demais, sem dar ao simbionte a possibilidade de se "recarregar", ambos morrerão. Todos os componentes do uniforme de Spawn, inclusive sua capa e suas correntes, são, na verdade, parte do simbionte, e, graças a isso, a capa e as correntes podem se mover como se fossem membros independentes, aprisionando inimigos ou protegendo Spawn de ataques. Após uma batalha contra o Anti-Spawn, o estresse faz com que novos poderes do myrlu se manifestem, mudando ligeiramente a aparência do uniforme de Spawn - a capa passa a ter um aspecto de rasgada, e as luvas e botas passam a contar com espinhos - e permitindo que a capa se transforme em diversos objetos para confundir seus inimigos. Assim como todas as criaturas demoníacas, Spawn também tem o poder de assumir forma humana, mas, graças a uma sacanagem de Malebólgia, ele não assume a forma de Simmons quando usa esse poder, muito pelo contrário - Simmons era negro, enquanto a forma humana de Spawn é a de um homem branco, louro e de olhos azuis.

Como já foi dito, Spawn foi o primeiro título lançado pela Image Comics, em maio de 1992. Na época, seu criador, Todd McFarlane, era um dos mais populares desenhistas de quadrinhos, graças ao período no qual trabalhou para a Marvel na revista do Homem-Aranha. Insatisfeito com a forma como foi tratado por DC e Marvel, achando que os personagens que criava deveriam ser de sua propriedade, e não da editora, e que ele merecia, além de seu salário mensal, um percentual sobre as vendas das revistas pelas quais era responsável, McFarlane decidiria se demitir e fundar a Todd McFarlane Productions, que, mais tarde, se tornaria um dos "selos" da Image. Graças à popularidade de McFarlane, o primeiro número de Spawn seria uma das revistas mais vendidas da história dos quadrinhos, com 1,7 milhão de exemplares. As boas vendas se manteriam durante cerca de quinze anos, com a queda nos números só começando a se acentuar a partir de 2008; ainda assim, Spawn ainda é uma das revistas mais vendidas da Image, além de uma das mais longevas, já que é uma das duas únicas - a outra sendo The Savage Dragon - a ter sido publicada ininterruptamente desde a fundação da editora até os dias de hoje.

Mas o sucesso de Spawn não advém apenas da popularidade de McFarlane. Talvez surpreendentemente - já que algumas histórias do Homem-Aranha das quais ele foi roteirista, como Tormenta, tinham roteiros, digamos, abaixo da média - Spawn conseguiu trazer roteiros inovadores e bem produzidos, em uma época na qual essa história de guerra entre o céu e o inferno e demônios que resolvem ser bonzinhos estava em seu início, e não tão saturada como de uns tempos pra cá. As primeiras edições de Spawn também contariam com roteiristas convidados da mais alta estirpe, como Dave Sim, Alan Moore, Frank Miller e Neil Gaiman - o que acabou causando um baita problema jurídico para McFarlane, já que foi Gaiman quem criou, na Spawn 9, da qual foi roteirista, três personagens importantíssimos: a anja caçadora Angela, o antecessor de Simmons como Spawn (apelidado de Spawn Medieval, já que atuou durante a Idade Média) e o misterioso Cogliostro.

Dada a importância desses personagens para a mitologia de Spawn, McFarlane continuou usando-os muitas e muitas vezes nas edições seguintes. Ao contrário do que pregava, porém, ele não considerou Gaiman como seu "dono", alegando que ele havia sido um "roteirista contratado", e que, portanto, os personagens que ele criou pertenciam à Todd McFarlane Productions. Gaiman recorreu à justiça e, enquanto não havia uma decisão final sobre o caso, McFarlane se viu proibido por ordem judicial de usar os três personagens. Ele acabaria, então, criando outros três, a anjas caçadoras Tiffany e Domina, e o "Spawn da Idade das Trevas", além de mudar a aparência de Cogliostro e passar a chamá-lo apenas de Cog. Quando saísse a sentença final, McFarlane se veria não somente proibido de usar Angela, Spawn Medieval e "Cog", mas também Tiffany, Domina e o Spawn da Idade das Trevas, considerados pela justiça como plágio dos personagens de Gaiman, além de ter de pagar ao roteirista uma gorda indenização, e passar a ele a propriedade dos três personagens que ele criou. Gaiman acabaria vendendo Angela à Marvel, e ela seria incorporada ao Universo Marvel não como uma anja caçadora de demônios, e sim como uma irmã há muito desaparecida de Thor.

McFarlane seria o roteirista de Spawn até a edição 70, de fevereiro de 1998, exceto pelas edições de 8 a 11, que foram as já citadas com roteiristas convidados (Moore, Gaiman, Sim e Miller, nessa ordem), e nas de 16 a 18, que tiveram roteiro de Grant Morrison. McFarlane também seria o desenhista até a edição 25, sendo substituído a partir da 26 por Greg Capullo. Depois de sua saída, as histórias passariam a ser escritas por roteiristas como Andrew Grossberg, Tom Orzechowski, Brian Holguin e David Hine, e, após a saída de Capullo, a arte ficaria a cargo de Whilce Portacio, Angel Medina, Philip Tan e Szymon Kudranski; ainda assim, McFarlane sempre esteve presente como uma espécie de "consultor", tanto no tocante aos roteiros quanto à arte. Eventualmente, McFarlane atuaria como roteirista em algumas edições intermitentes, mas usando um pseudônimo, para parecer que um novo talento havia se unido à equipe da revista, e, em 2008, quando as vendas começaram a cair, ele aceitaria retornar como roteirista e desenhista por algumas edições, para tentar alavancá-las.

Ao longo desses anos de aventuras, Spawn derrotaria Malebólgia, encontraria um novo arqui-inimigo no demônio Mammon, voltaria a ser humano, perderia a memória, ficaria preso na Terra, faria contato com seres de outra dimensão, impediria a ressurreição do deus Urizen, e até mesmo morreria: entre as edições 186, de novembro de 2008, e 250, de fevereiro de 2015, os poderes de Spawn não pertenceram a Al Simmons, e sim a Jim Downing, homem sem memória a quem o simbionte se uniu após a morte de Simmons, e que decidiu investigá-la. O retorno de Simmons foi um grande evento, com direito a uma edição de quase cem páginas, para comemorar o fato de Spawn ter chegado às 250 edições - na primeira vez em que uma revista de super-heróis que não fosse publicada nem pela DC, nem pela Marvel alcançou tal marca.

Além de em sua revista mensal, Spawn também protagonizaria quatro spin-offs: Spawn: Blood Feud, minissérie em quatro edições lançadas entre junho e setembro de 1995, escrita por Alan Moore com arte de Tony Daniel, na qual Spawn enfrenta um vampiro chamado Sansker; Curse of the Spawn, com 29 edições lançadas entre setembro de 1996 e março de 1999, que buscava expandir o universo de Spawn com histórias sem relação com o arco que estava sendo contado na revista regular, e que contou com um especial chamado Spawn: Blood and Salvation, lançado em dezembro de 1999 para concluir a história da última edição; Spawn: The Undead, série com nove edições lançadas entre junho de 1999 e fevereiro de 2000, escrita por Paul Jenkins, cada edição com uma história completa e sem relação com a revista mensal, lançada após o sucesso da edição especial Spawn: Blood and Shadows, com uma história completa também escrita por Jenkins, lançada em fevereiro de 1999; e Hellspawn, que teve 16 edições lançadas entre agosto de 2000 e abril de 2003, com histórias mais adultas e sombrias que a série mensal.

Os antecessores de Simmons também foram astros das minisséries Spawn the Impaler, escrita por Mike Grell com arte de Rob Pryor, com três edições lançadas entre outubro e dezembro de 1996, que sugere que Vlad Tepes, o homem que inspirou a criação do Conde Drácula, era um Spawn; Medieval Spawn / Witchblade, minissérie em três edições lançadas entre maio e julho de 1996, com roteiro de Garth Ennis e arte de Marc Silvestri e Brandon Peterson, na qual o Spawn Medieval e Katarina, a detentora da luva Witchblade na Idade Média, se unem para derrotar Lord Cardinale, detentor do poder do Darkness na mesma época; e a série Spawn: the Dark Ages, estrelada pelo Spawn da Idade das Trevas, que contou com 28 edições lançadas entre março de 1999 e outubro de 2001.

Os personagens coadjuvantes também ganhariam títulos próprios, como Angela, minissérie em três edições lançadas entre dezembro de 1994 e fevereiro de 1995, com roteiro de Neil Gaiman e arte de Greg Capullo, que mostra o julgamento de Angela por ter falhado em destruir Spawn, e foi seguida por uma edição especial chamada simplesmente Angela, lançada em junho de 1995, com roteiro de Beau Smith e arte de C. Bradford Gorby, na qual Angela caça um Spawn na época dos piratas; Sam & Twitch, série regular estrelada pelos policiais que investigavam os casos relacionados a Spawn, com 26 edições lançadas entre agosto de 1999 e fevereiro de 2003, seguida de Case Files: Sam & Twitch, com 25 edições lançadas entre maio de 2003 e julho de 2006; e Violator, minissérie em três edições lançadas entre maio e julho de 1994, centrada no Violador e em Tony Twist, com roteiro de Alan Moore e arte de Greg Capullo.

O Violador também apareceria na minissérie Violator vs. Badrock, com quatro edições lançadas entre maio e agosto de 1995 com roteiro de Alan Moore a arte de Rob Liefeld (uma dupla extremamente improvável, na minha opinião), na qual ele enfrenta um dos heróis criados por Liefeld para seu selo da Image, o Extreme Studios; Angela também se encontraria com uma criação de Liefeld em Angela / Glory, minissérie em duas edições, a primeira de março de 1996, com roteiro de Robert Place Napton e arte de Roger Cruz, e a segunda (chamada Glory / Angela), de abril de 1996, tendo roteiro de Liefeld, Jim Valentino e Randy Queen, e arte de Andy Park e Pat Lee. E Alan Moore também seria o roteirista de Spawn / Wild C.A.T.S., minissérie em quatro edições com arte de Scott Clark lançadas entre janeiro e abril de 1996, na qual Spawn se une ao grupo criado por Jim Lee para evitar um futuro no qual ele se torna maligno e ditador do planeta Terra.

Mas o mais importante crossover envolvendo um personagem da série de Spawn foi Spawn / Batman, único entre um personagem da série de Spawn e um de outra editora que não fosse a Image. Lançada em maio de 1994, com roteiro de Frank Miller e arte de McFarlane, esse especial coloca os dois heróis trabalhando juntos para encontrar um assassino serial em Nova Iorque. Como sempre acontece nesses casos, como um crossover foi lançado pela Image, outro deveria ser lançado pela DC: Batamn / Spawn, de dezembro de 1994, com roteiro de Alan Grant, Chuck Dixon e Doug Moench e arte de Klaus Janson, no qual Spawn vai até Gotham investigar a ressurreição de um homem que ele matou enquanto ainda era Simmons. Durante anos, os fãs pediram por um crossover de Spawn e Homem-Aranha desenhado por McFarlane, mas Image e Marvel jamais conseguiram chegar a um acordo para publicá-lo.

Além dos quadrinhos, Spawn protagonizou um desenho animado produzido pela HBO, chamado Todd McFarlane's Spawn, que teve três temporadas de seis episódios cada, exibidas entre maio de 1997 e maio de 1999, com a primeira sendo bastante fiel aos quadrinhos. O desenho, que contava com McFarlane em pessoa falando sobre Spawn na abertura, foi bastante elogiado, e chegou a ganhar dois Emmys de Melhor Programa de Animação, em 1997 e 1999. O desenho traz Keith David (de O Enigma de Outro Mundo e Platoon) como Spawn, e Jennifer Jason Leigh (de Mulher Solteira Procura e Os Oito Odiados) como a vampira Lilly.

Spawn também teve seu próprio filme para o cinema, lançado nos Estados Unidos em 1o de agosto de 1997, dirigido por Mark A.Z. Dippé e contando com o praticamente desconhecido Michael Jai White no papel de Spawn, John Leguizamo (de Para Wong Foo, Obrigado por Tudo) como Violador, Martin Sheen (de Apocalypse Now) como Jason Wynn, e o famoso dublador Frank Welker como a voz de Malebólgia. A origem de Spawn é quase a mesma dos quadrinhos, mas Wynn não possui qualquer pacto com Malebólgia e é o chefe de Simmons, mandando-matá-lo porque ele está próximo de descobrir um esquema ilegal de venda de armas que comanda. Ao retornar para a Terra, Spawn decide se vingar de Wynn, que, para impedi-lo, ameaça matar Wanda (Theresa Randle).

Apesar de trazer efeitos especiais de última geração para a época, o filme tinha sérios problemas de roteiro, como diálogos fracos e situações bizarras - Malebólgia transforma Simmons em Spawn para que ele lidere seu exército em uma invasão à Terra, mas, sem qualquer explicação, ele decide agir por conta própria, e ainda ouve do demônio "você nunca vai liderar meu exército se continuar assim", como se fosse isso que Simmons quisesse. As críticas ao filme foram bastante negativas, com o foco sendo principalmente no excesso de violência - que, aliás, poderia ter sido bem pior, já que o corte original do filme foi classificado como R (menores de 17 anos só podem assistir ao filme acompanhados pelos pais), o que levou a New Line Cinema, responsável por sua produção, a reeditá-lo para que ele fosse reclassificado como PG-13 (liberado para todas as idades, mas desaconselhado para menores de 13 anos). Apesar de uma bilheteria razoável - custou 40 milhões, rendeu 87 nos EUA - o filme também foi considerado um fracasso de público.

Durante anos, McFarlane pensou em fazer uma sequência para o filme, que incluísse os detetives Sam e Twitch. Em 2007, ele abandonaria essa ideia, passando a tentar conseguir a luz verde de algum estúdio para um novo filme, que atuaria como reboot, ignorando os eventos do de 1997. Em 2009, ele anunciaria que estava disposto a fazer um filme de classificação R, para que Spawn ficasse mais fiel aos quadrinhos. Em 2013, ele declararia que o filme teria orçamento baixo, sem uma grande quantidade de efeitos especiais, mais focado na história que um filme de super-heróis tradicional. Em 2016, ele anunciaria que estava com o roteiro pronto, escrito por ele mesmo, e que esperava poder começar a produção em breve. As últimas notícias dão conta de que o filme será produzido pela Blumhouse Productions, e que McFarlane, além de roteirista, também atuará como diretor e produtor. White e Jamie Foxx já expressaram sua vontade de interpretar Spawn, mas, até agora, ninguém do elenco foi oficialmente anunciado.
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